• Da alma à festa: fado, pimba e o palco roubado pela televisão

    Artigo em atualização

    Durante décadas, o fado foi a expressão mais profunda da alma portuguesa. Cantava-se a saudade, o destino, a dor e a beleza melancólica da vida. Mas, com o passar dos anos, esse canto solene e contido cedeu o palco a um novo protagonista: a música pimba. Ruidosa, festiva, provocadora e por vezes tosca, a pimba tornou-se a banda sonora das massas. Como se deu esta mudança? E o que nos diz sobre o país e a forma como os media moldaram o nosso imaginário?

    Fado: património de um povo, mas não da televisão

    O fado foi, durante o século XX, uma forma de expressão visceral de um povo resignado, introspectivo, pobre. Acompanhava o Portugal do Estado Novo, ecoando nos becos de Lisboa e nos salões universitários de Coimbra. No entanto, após o 25 de Abril, o fado viu-se associado ao passado e ao regime. Passou a ser visto como algo antigo, triste, e elitista.

    A urbanização, o fim da censura, o desejo de festa e de ruptura com o passado empurraram o fado para os bastidores. Hoje, mesmo sendo Património Imaterial da Humanidade, o fado é mais reverenciado do que vivido. Vive em casas de fado, museus, roteiros turísticos. Mas já não é a voz da maioria.

    Pimba: da marginalidade ao coração do povo

    A música pimba nasceu no seio da cultura popular oral, bebeu da tradição dos cantares ao desafio, da rádio local, das festas de aldeia. Nos anos 80 e 90, ganhou forma como linguagem musical das massas: fácil, repetitiva, emotiva, com duplos sentidos e um apelo à alegria descomprometida.

    Com temas como o amor sofrido, a emigração, a sexualidade travestida de piada ou a saudade à moda do povo, a pimba não pediu licença para entrar nos lares portugueses. Foi aclamada porque era “a nossa música”, livre de filtros ou pretensões.

    Os media: do culto à audiência

    Foi a televisão generalista que transformou a pimba em fenómeno nacional. Programas como o Big Show SIC, apresentado por João Baião, deram palco constante a artistas como Ágata, Emanuel, Quim Barreiros ou Toy. A televisão dos anos 90 trocou a missão cultural pelo entretenimento imediato. O que contava era a audiência, não a elevação cultural.

    Neste novo paradigma, a música pimba encaixava como uma luva: alegre, barata, colorida, simples. O fado? Muito lento. A música erudita? Muito aborrecida. O jazz? Ninguém percebe. Os media tornaram-se os curadores de uma cultura que deixou de lado a exigência e abraçou o imediatismo.

    A exclusão da cultura e o gueto da RTP2

    Os estilos musicais com maior valor artístico e histórico foram varridos da televisão. Quando muito, encontram refúgio na RTP2 — canal que cumpre simbolicamente a função cultural do Estado, mas que é ignorado pelas massas. A RTP2 tornou-se o gueto da cultura: só lá se vê fado tradicional, cante alentejano, jazz, ou documentários sobre música portuguesa.

    Esta exclusão tem consequências: empobrecimento do imaginário coletivo, distanciamento da população face à sua própria diversidade musical, e perpetuação de um analfabetismo estético. O fado tornou-se património sem palco. A pimba, o palco sem património.

    As vozes que se calaram: da canção de intervenção ao rock esquecido

    Antes da ascensão meteórica da música pimba, houve outras formas de expressão musical profundamente relevantes em Portugal. A música de intervenção, nos anos 60 e 70, foi a voz da revolução e da consciência coletiva. Zeca Afonso, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho ou Vitorino não cantavam para entreter: cantavam para acordar, para resistir, para educar. Eram poetas da liberdade.

    Nos anos 80, deu-se o boom do rock português. Bandas como Xutos & Pontapés, GNR, Heróis do Mar ou UHF trouxeram irreverência, urbanidade e uma nova linguagem estética. Houve inclusive espaço na televisão de talentos emergentes de géneros menos mediáticos como o Hard”n’Heavy (Ferro e Fogo, Ibéria,, A criatividade nacional parecia renovar-se. Mas esse fogo foi apagado pelos ventos da indiferença mediática e pelo peso crescente da cultura ligeira.

    O caso de José Cid é especialmente simbólico: nos anos 70, gravou álbuns de rock progressivo altamente sofisticados, como 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. Mas cedo percebeu que esse tipo de criação não teria espaço no mercado nacional. Reinventou-se como cantor de baladas românticas e temas populares. Não por falta de talento, mas porque a própria estrutura cultural do país não acolhia o risco nem a experiência.

    Um espelho do país

    A ascensão da música pimba não é só um facto musical. É um sintoma de um país que deixou de lado o aprofundamento cultural em nome do consumo rápido. A televisão, em vez de educar ou enriquecer, optou por entreter com o mínimo comum denominador.

    Portugal é um país onde o fado chora, mas é a pimba que se ouve. Entre a alma e o bailarico, escolheu-se o riso. Talvez porque a dor, quando cantada com solenidade, se torne insuportável. E a pimba, com o seu riso fácil e a sua batida repetitiva, oferece um consolo leve. Um alívio. Uma festa. Mesmo que breve.

    Mas não deixemos que a leveza se torne vazio. É tempo de devolver à televisão, e ao povo, o direito a um palco que celebre não só o divertimento, mas também a riqueza e complexidade da nossa cultura musical.

  • Netanyahu, Gaza e a radicalização da política israelita: uma revisão crítica

    Desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, a 7 de outubro de 2023, muito mudou na política interna de Israel — e quase tudo para pior. O artigo recentemente publicado no eldiario.es traça um retrato inquietante da deriva autoritária e ultranacionalista do governo de Benjamin Netanyahu, hoje cada vez mais dependente e alinhado com a extrema-direita israelita.

    Da coligação desconfortável à assimilação ideológica

    O primeiro ponto a destacar é a transformação do Likud, o partido de Netanyahu, que de conservador nacionalista passou a adotar abertamente teses radicais sobre ocupação, limpeza étnica e rejeição de qualquer solução de dois Estados.

    Segundo o cientista político Dani Filc, esta radicalização tem duas origens: o temor de Netanyahu de perder o apoio da coligação, e uma mudança ideológica real no seio do partido, cujos deputados e ministros proferem hoje frases que antes se associavam exclusivamente a grupos como o Otzma Yehudit, de Itamar Ben Gvir.

    “O Likud está a tornar-se um partido fascista”, afirma Filc. A frase é forte — mas difícil de desmentir.

    Uma guerra sem fim como estratégia de sobrevivência

    O artigo traça também uma ligação entre a continuação da guerra em Gaza e a estratégia de sobrevivência política de Netanyahu. A recusa em aceitar investigações sobre o 7 de outubro, a oposição a negociações para libertar os reféns, e a insistência na destruição total da Faixa de Gaza, parecem servir menos uma lógica de segurança e mais uma de poder pessoal.

    Yossi Beilin, antigo ministro da Justiça, diz sem rodeios: o prolongamento da guerra “é o preço da obsessão de Netanyahu com o poder”.

    É neste ponto que a questão se torna ainda mais preocupante: a guerra não é apenas uma consequência da radicalização — é o seu instrumento. Enquanto o conflito se mantém, a atenção pública dispersa-se, as divisões internas são sufocadas e o governo avança com a sua agenda ideológica sem grandes escrutínios.

    Colonização acelerada e destruição da solução dos dois Estados

    Na Cisjordânia, os factos falam por si: 49 novos assentamentos desde 2022, legalização de postos ilegais e 87 novos avanços coloniais desde o início da guerra. A organização Peace Now denuncia ainda a expulsão de dezenas de comunidades palestinianas, num processo de limpeza territorial a céu aberto.

    Segundo Lior Amihai, diretor executivo da ONG israelita, estamos perante “a maior campanha de colonização desde os Acordos de Oslo”.

    A conclusão parece inevitável: Netanyahu está a destruir ativamente qualquer hipótese de criação de um Estado palestiniano. Seja por convicção ou conveniência, a sua política converge hoje com a de figuras como Ben Gvir ou Smotrich, que defendem abertamente a anexação da Cisjordânia e a reocupação de Gaza.

    Um governo sem rumo — mas com um destino perigoso

    O paradoxo atual é gritante: o governo mais radical da história de Israel governa contra a opinião pública. A maioria dos israelitas, segundo o Pew Research Center, quer o fim da guerra em troca da libertação dos reféns. No entanto, Netanyahu resiste — e radicaliza.

    A sua coligação mantém-se viva graças a um equilíbrio instável entre ultranacionalistas militaristas e ultraortodoxos religiosos, estes últimos agora a exigir a continuação da isenção do serviço militar obrigatório — algo que começa a gerar fraturas internas num país em guerra prolongada.

    Notas finais

    Israel vive hoje uma crise existencial não apenas com os seus vizinhos, mas consigo próprio. O que está em causa não é apenas a paz, mas a natureza do regime israelita: será uma democracia liberal ou um Estado etnocrático autoritário? Netanyahu parece ter feito a sua escolha.

    Mas o futuro continua em aberto. A crescente oposição interna, as pressões internacionais e o cansaço da população perante uma guerra sem fim poderão, ainda, alterar o curso dos acontecimentos. Por agora, porém, o cenário é sombrio — e exige vigilância crítica.

  • A esquerda que deixou de saber para quem fala

    Durante décadas, a esquerda foi o campo político onde se debatiam projetos de futuro: mais justiça, mais igualdade, mais liberdade. Em Portugal e na Europa, esse campo está hoje em perda — não apenas porque perdeu eleições, mas porque perdeu enraizamento social, ambição programática e, acima de tudo, clareza sobre a quem se dirige.

    O caso do PS: do reformismo à gestão

    O Partido Socialista português é o exemplo acabado desta crise. Em tempos, foi um partido reformista, capaz de combinar estabilidade com transformação social. Mas há muito que deixou de o ser. Sob a liderança de António Costa, tornou-se um partido de manutenção: fixado na estabilidade orçamental, resistente a reformas estruturais e alérgico ao risco político.

    A “geringonça” prometeu uma nova forma de governar à esquerda, mas rapidamente revelou os limites do PS. O partido travou quase todas as reformas propostas pelos seus parceiros, recusou reverter a legislação laboral da troika, e optou por subfinanciar os serviços públicos em nome de um excedente orçamental. O PS tornou-se um gestor do status quo — e um gestor sem visão não mobiliza ninguém.

    Pedro Nuno Santos tentou aparecer como um novo rosto. Mas, para além de ter chegado tarde, foi um erro de casting. Apesar da retórica combativa e do ar de renovação, era uma figura próxima de António Costa e fazia parte da ala mais à esquerda do PS. Isso afastou o eleitorado do centro e impediu que o partido reconstruisse pontes com sectores moderados e urbanos, cada vez mais tentados a votar Iniciativa Liberal ou PSD. Sem uma rutura clara com o legado e sem capacidade de alargar a sua base, Pedro Nuno revelou-se incapaz de travar a maré descendente.

    Nem o centro, nem a margem: a esquerda a desaparecer

    Mas o declínio da esquerda não se limita ao PS. Também a esquerda radical — que durante anos se afirmou como alternativa, ainda que muitas vezes no registo do protesto — está em queda, tanto em Portugal como no resto da Europa. O Bloco de Esquerda perdeu capacidade de mobilização e foi-se deixando prender por debates identitários e simbólicos, afastando-se das preocupações materiais de grande parte do eleitorado. Além disso, nunca recuperou da penalização política sofrida após a queda da geringonça. Já o PCP atravessa um ocaso prolongado, marcado pela rigidez ideológica, pelo envelhecimento da base social e por uma crescente desconexão com as dinâmicas do mundo contemporâneo.

    Lá fora, o cenário é semelhante. Em França, Jean-Luc Mélenchon perdeu tração. Na Grécia, o Syriza caiu para 17,8% nas legislativas de 2023, levando à saída de Alexis Tsipras. Em Espanha, o Podemos implodiu, fragmentando-se após anos de desgaste e sendo eclipsado pelo crescimento da extrema-direita. E na Alemanha, embora o Die Linke tenha registado um surpreendente regresso em 2025 — alcançando 9% e garantindo 64 lugares no Parlamento, impulsionado pelo voto de mulheres jovens —, o partido atravessou anos de irrelevância e profundas divisões internas.

    Afinal, para quem fala a esquerda?

    A grande pergunta que se impõe é esta: para quem está hoje a falar a esquerda?

    Se fala apenas para as cidades, para os mais escolarizados, para os debates culturais de nicho, esquece a base que lhe deu origem: os trabalhadores, os jovens precários, as famílias das periferias, os reformados esquecidos.

    Essa desconexão é um presente para os populismos de direita. Quando a esquerda deixa de oferecer soluções materiais, de curto e longo prazo, outros preenchem esse vazio com slogans fáceis, ressentimento e promessas de um passado que nunca existiu.

    Ou a reconstrução, ou a irrelevância

    Não se trata de “radicalizar” ou de “moderar”. Trata-se de voltar a ligar a política à vida concreta das pessoas, com propostas credíveis e transformadoras. Habitação, salários, justiça fiscal, serviços públicos, ambiente, participação democrática — são estas as trincheiras do presente. E não basta falar delas: é preciso fazer delas causas populares.

    A esquerda não desapareceu porque perdeu o povo. Perdeu o povo porque se esqueceu de o ouvir — e de o representar.

  • Da liberdade ao radicalismo? A metamorfose da Iniciativa Liberal em Portugal

    Quando nasceu, a Iniciativa Liberal (IL) apresentava-se como um partido diferente: liberal nos costumes, defensor da economia de mercado, pró-europeu e transparente. Era uma lufada de ar fresco no espectro partidário português, dominado por dinossauros ideológicos e estruturas envelhecidas. A sua promessa era simples e clara: mais liberdade, menos Estado, mas sem deixar ninguém para trás. Um partido à imagem dos liberais do norte da Europa.

    Mas algo mudou.

    Com a saída de João Cotrim de Figueiredo da liderança e a ascensão de Rui Rocha, a IL começou a ganhar um novo tom. Não houve uma rutura formal com o passado, mas sim uma reconfiguração ideológica. Aos poucos, o discurso tornou-se mais agressivo, os alvos mais ideológicos, e a liberdade passou a significar algo mais próximo do “cada um por si” do que da inclusão plural que marcava o liberalismo fundacional.

    Essa transição ficou ainda mais evidente com a ascensão de figuras como Mariana Leitão. Jovem, combativa, mediática, Leitão é hoje um dos rostos mais visíveis da IL e simboliza uma nova ortodoxia: o Estado é visto como um obstáculo, os impostos como roubo, e a solidariedade como dependência. É também uma admiradora assumida de Javier Milei, o presidente argentino que quer “dinamitar o Estado”. O elogio a Milei, aprovado na última convenção do partido, marca um ponto de não retorno: a IL aproxima-se agora, não do liberalismo clássico, mas do libertarismo radical.

    Mas o que é, afinal, o libertarismo? Trata-se de uma corrente política que defende a mínima intervenção do Estado na vida dos cidadãos, tanto na economia como nas relações sociais. Em teoria, valoriza ao máximo a liberdade individual. Na prática, recusa quase todos os instrumentos de proteção social, regulação económica e redistribuição fiscal. Não se trata de reformar o Estado: é uma tentativa de o substituir por um mercado puro.

    Essa transição está patente nas propostas concretas da IL: um sistema de pensões parcialmente privatizado, com contas individuais de capitalização; um modelo de vouchers para a educação, permitindo que o financiamento público seja usado em escolas privadas; o “SUA-Saúde“, que abre espaço à subcontratação extensiva de serviços de saúde (Wikipedia – Iniciativa Liberal). E, claro, uma reforma fiscal agressiva, com menos progressividade e menos impostos sobre o capital.

    Não se trata apenas de propostas técnicas. Estas ideias revelam uma mudança de paradigma: o Estado Social, tal como o conhecemos em Portugal desde a Constituição de 1976, passa a ser visto como problema, não como conquista.

    Ao mesmo tempo, cresce a influência de redes internacionais como a Atlas Network ou a Heritage Foundation, conhecidas por apoiar movimentos anti-Estado e por promover uma agenda ultraliberal e conservadora. O Instituto +Liberdade, fundado por Carlos Guimarães Pinto, antigo presidente da IL, é parceiro da Atlas Network. Membros do partido participaram em formações e eventos promovidos por estas organizações, que incluem financiamento e partilha de estratégias comunicacionais e legislativas. Um artigo do Esquerda.net destaca, inclusive, o apoio financeiro de indústrias do petróleo e tabaco a projetos ligados a essas redes.

    Apesar disto, a IL continua a apresentar-se como liberal. Mas a diferença entre liberalismo e libertarismo não é apenas semântica. É uma diferença de modelo de sociedade: num, o Estado garante condições para o exercício da liberdade; noutro, o Estado é apenas tolerado enquanto não interfere.

    Esta metamorfose da IL pode não ter impacto eleitoral imediato, mas terá, certamente, impacto discursivo. Se as suas ideias ganharem centralidade na direita portuguesa, podemos assistir à normalização de uma agenda que, em nome da liberdade, pode fragilizar ainda mais os mais vulneráveis.

    O debate está aberto. E é urgente.

  • Quando a arte não grita, mas resiste: Estética contra a nova vaga autoritária

    Introdução: a arte como ameaça

    Todo regime quer uma história que possa controlar. Em todo o mundo, governos autoritários aprenderam que controlar a arte é um atalho para moldar a percepção. A arte, na sua forma mais verdadeira, recusa-se. Não marcha em formação. Desvia-se, questiona, sonha, distorce – e o pior de tudo para os autoritários: ouve as margens.

    Por isso, ao longo da história, governos repressivos – de fascistas a fundamentalistas – atacaram artistas, cortaram apoios, censuraram imagens e queimaram livros. Porque mesmo quando frágil ou obscura, a arte remodela a percepção – e a percepção é o campo de batalha da ideologia.

    Neste artigo, exploramos por que a cultura independente se torna um alvo privilegiado para forças autoritárias, nacionalistas e economicamente conservadoras. E porque a guerra contra a cultura nunca é apenas sobre cultura: é sobre controlo.

    Por que a arte é perigosa para o poder

    A arte não obedece. Um poema pode significar cinco coisas ao mesmo tempo. Uma pintura pode ser ferida, prece e grito. Uma performance pode confundir, assombrar, encantar – e nunca se explicar.

    • Cria ambiguidade onde o poder exige clareza.
    • Amplifica o indizível.
    • Torna visível o que devia permanecer invisível.
    • Gera emoção onde a propaganda apenas instrui.

    Arte sancionada vs. arte dissidente

    Nem toda a arte é bem-vinda. O poder adora a arte – desde que obedeça. Ao longo da história, regimes autoritários promoveram uma estética oficial: heróica, sentimental, inequívoca.

    • Realismo socialista soviético
    • “Jardim Nacional de Heróis Americanos” (Trump)
    • Festivais folclóricos nacionalistas (Orbán)
    • Estética hindutva (Modi)

    A mensagem é clara: podes criar, desde que te conformes.

    Quando a história se recusa a obedecer

    Os regimes autoritários não temem apenas o futuro. Temem também o passado. A história é rebelde. Não se alinha com mitos patrióticos. Contém massacres, resistências, colonizadores e colonizados. Quando a história se recusa a obedecer, o poder tenta reescrevê-la.

    Artistas, escritores e curadores fazem perguntas que nenhum manual escolar quer enfrentar:

    • Quem é lembrado?
    • Quem decide o que é motivo de orgulho nacional?
    • Quem desaparece quando a história é higienizada?

    A arte cria contra-monumentos. Memoriais para o negado. Obras que mantêm viva a memória dos que foram silenciados. E uma memória viva não pode ser controlada: vagueia, protesta, contradiz. E prepara a resistência que vem.

    IV. Exemplos de resistência estética

    • Paula Rego: enfrentou a ditadura portuguesa com desenhos que davam “cara ao medo”.
    • Crack Rodríguez: artista salvadorenho que usa performance como forma de protesto.
    • Banksy: transforma as ruas em telas de subversão com humor e crítica social.

    O caso português: ataque à cultura crítica

    Com o crescimento do CHEGA, temos assistido a uma ofensiva simbólica contra a cultura progressista. O partido acusa a arte contemporânea de ser “woke”, “elitista” ou “ideológica”. Defende o fim de apoios públicos a projectos que não celebrem valores “tradicionais”.

    Esta retórica tem efeitos reais: pressão sobre câmaras municipais, deslegitimação de artistas, cortes de financiamento. Tudo isto num contexto em que a esquerda cultural perdeu parte do seu enraizamento social.

    Organizar a resistência: passado e futuro

    Durante o salazarismo, movimentos como o neo-realismo e o MUD Juvenil reuniram artistas, intelectuais e militantes em torno da resistência cultural. Hoje, apesar da existência de estruturas como a CENA-STE, a maioria dos artistas continua dispersa e desprotegida.

    Reorganizar a resistência cultural exige redes, consciência de classe e alianças com movimentos sociais. E exige lembrar o passado: o que se conquistou, o que se perdeu, e o que ainda pode ser feito.

    Conclusão: o gesto que sobrevive ao ruído

    A arte pode não mudar governos. Mas muda percepções. E isso, para quem quer um povo obediente, é insuportável.

    Quando a arte não grita, resiste. E quando resiste, oferece outra forma de ver o mundo. E isso basta para ser perigosa. Porque toda visão nova carrega em si a semente da mudança.

    Referências

  • O passado que volta disfarçado: Salazarismo, nostalgia e o sucesso do CHEGA

    Numa sociedade onde a ditadura foi muitas vezes empurrada para os cantos da memória, e onde a democracia raramente se afirmou com confiança, o espaço para o regresso simbólico do autoritarismo manteve-se aberto. O CHEGA soube ler esse vácuo. Como se vê na análise de Luca Manucci, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ou em estudos recentes como o divulgado pelo Expresso, há sinais claros de que esse passado, embora negado, nunca foi verdadeiramente ultrapassado.

    E como é que o CHEGA faz isso? Não com livros ou reflexão, mas com slogans, ressentimento e uma promessa simples: restaurar uma ordem que muitos sentem ter perdido.
    Mas que ordem é essa? E de onde vem o seu apelo?


    1. A ditadura que nunca se confrontou

    A transição democrática em Portugal foi pacífica, mas também profundamente evasiva.
    Ao contrário de outras nações que enfrentaram as suas feridas (como a Alemanha ou, com esforço desigual, a Espanha), Portugal nunca passou por um verdadeiro processo de deslegitimação simbólica do regime anterior. O Estado Novo foi sendo limado nos manuais escolares, relativizado nos cafés e lentamente esquecido nos média.

    Resultado? Uma geração inteira cresceu a ouvir que “Salazar roubava pouco” e que “naquele tempo havia respeito”.

    Essa ausência de confronto permitiu que o salazarismo se transformasse num mito de ordem: uma memória distorcida onde o medo, a censura e a repressão foram varridos para debaixo do tapete — restando apenas a ilusão de estabilidade e disciplina.


    2. O CHEGA como reciclagem emocional do autoritarismo

    Quando o CHEGA aparece, surge como voz dos “invisíveis”, dos “abandonados pelo sistema”. Mas a sua retórica é familiar:

    • Fala-se em “limpar Portugal”.
    • Defendem-se penas mais duras, castigos públicos, expulsões.
    • Exalta-se a autoridade como fim em si mesma.

    No fundo, é a mesma lógica do Estado Novo: o povo como massa a proteger, não a empoderar; a política como ferramenta de castigo, não de justiça.
    Mas agora, o discurso é mais teatral, feito de indignação e espetáculo. A nostalgia não se apresenta como doutrina — veste-se de “bom senso”, “valores antigos” e “não ter medo de dizer a verdade”.


    Mais do que saudade: o desejo de um mundo legível

    Não é Salazar — é a ânsia por um eixo fixo.

    A maioria das pessoas que hoje manifestam simpatia por certos valores do Estado Novo não está a pedir o regresso da censura ou da polícia política. Está à procura de uma referência, de uma sensação de ordem num mundo que parece cada vez mais caótico, precário e imprevisível.

    Há um conforto psicológico numa sociedade onde os papéis sociais estavam definidos, onde a autoridade era respeitada sem discussão, onde as fronteiras morais pareciam mais claras. A modernidade líquida, como diria Bauman, assusta — e o passado surge como âncora emocional, mesmo que ilusória.

    O CHEGA oferece essa âncora simbólica. Não é tanto um projeto político, mas um espelho emocional para quem sente que perdeu algo, mesmo que não saiba bem o quê.


    4. O conforto da ignorância: como a censura alimenta a nostalgia

    Há um fenómeno subtil, mas poderoso: a sensação de segurança do passado era, em parte, fruto da censura.

    Durante o Estado Novo, não se falava em crimes, violações, corrupção ou pobreza. A informação era filtrada, higienizada, domesticada. Quem cresceu nesse silêncio informativo guardou a memória de um país tranquilo — mesmo que a violência estivesse lá, escondida.

    Hoje, somos bombardeados com más notícias a toda a hora. Homicídios, escândalos, guerras, desastres. A perceção de insegurança aumentou exponencialmente — não porque o mundo esteja objetivamente pior, mas porque vemos tudo. A exposição permanente ao mal cria medo, ansiedade e uma sensação constante de ameaça.

    E assim, de forma inconsciente, nasce a comparação: \”Antigamente não se ouvia falar disto.\” Não se ouvia porque não deixavam. Mas essa ausência de ruído transformou-se, para muitos, na memória de um tempo seguro.


    5. A memória como terreno político

    A nostalgia é um campo fértil para discursos autoritários. Quando não se ensina bem o passado — ou quando se permite que ele seja moldado por afetos em vez de factos — abrem-se portas perigosas.

    • O sistema educativo raramente confrontou os horrores do Estado Novo de forma clara e consistente.
    • Faltam museus da memória, espaços de verdade, documentos vivos da repressão.
    • E os média, em vez de combaterem ativamente a idealização da ditadura, muitas vezes tratam-na com um paternalismo folclórico.

    Num país que nunca falou profundamente de si próprio, a política tornou-se terreno de mitos — e o CHEGA soube habitá-los.


    A ilusão da ordem e os seus perigos

    O desejo de ordem é compreensível. Mas o preço da ordem absoluta é a liberdade parcial — ou total ausência dela.

    O discurso do CHEGA promete castigos, limites, muros. E muitos aplaudem porque sentem que o caos já entrou pelas janelas. Mas esse “regresso à ordem” nunca é neutro: traz consigo a criminalização da diferença, a desconfiança dos direitos humanos e o culto da autoridade.

    É um terreno onde o passado não regressa apenas disfarçado — regressa com novos meios e nova linguagem, mas com a mesma tentação: calar para controlar.


    Conclusão

    O sucesso do CHEGA não se explica apenas com estatísticas ou desinformação. Explica-se com afetos mal resolvidos, com uma relação doentia com o passado, e com uma democracia que não soube contar a sua história.

    Talvez não estejamos a reviver o passado. Mas estamos, claramente, a lidar com os seus fantasmas — e eles aprenderam a usar redes sociais.

  • X: Um reflexo da era da polarização?

    O antigo Twitter, foi outrora uma plataforma de debate público, humor e partilha de ideias. Hoje, apresenta um cenário diferente. Desde a sua aquisição por Elon Musk, a rede tem vindo a transformar-se num espaço cada vez mais propício à disseminação de discurso de ódio, propaganda e estratégias de manipulação por parte da extrema-direita. Esta mudança não é apenas global – em Portugal, o fenómeno é palpável e alarmante.

    Porque é que o X se tornou este palco?

    1. Desregulação deliberada: Desde a compra por Elon Musk, assistimos a uma desmantelação sistemática dos mecanismos de moderação. Contas banidas por discurso de ódio foram restauradas, e o “engagement” (gostos, partilhas) passou a premiar polémica tóxica em vez de diálogo construtivo.

    2. Algoritmos que amplificam o extremismo: O conteúdo mais chocante, indignado ou ofensivo gera mais reações — e, por isso, mais visibilidade. Isto serve os interesses comerciais da plataforma, mas prejudica gravemente a saúde pública do espaço digital.

    3. Rede informal da extrema-direita: No caso português, há figuras bem conhecidas da política e do comentário público que usam o X para lançar provocações, criar inimigos fictícios (“os woke”, “a esquerda”, “os imigrantes”, etc.) e consolidar uma base radicalizada. Muitas vezes, fazem-no sob a capa de “liberdade de expressão”, quando na realidade estão a alimentar um ambiente tóxico e antidemocrático.

    4. Normalização do inaceitável: Quando discursos como o da publicação que mostraste se tornam virais ou passam impunes, o que antes seria considerado impensável torna-se apenas “mais uma opinião”. É assim que o ódio se normaliza.

    O ódio digital não é só ruído — é veneno. Atravessamos um tempo estranho, em que a fronteira entre liberdade de expressão e incitamento ao ódio se esbate cada vez mais. As redes sociais, outrora celebradas como ferramentas de democratização da palavra, tornaram-se terrenos férteis para a radicalização. E poucas plataformas ilustram isto com tanta clareza como o X (antigo Twitter).

    É o que o X amplifica hoje não é só desinformação. É ódio em estado puro, desumanização literal. E pior: é celebrado, partilhado, rido, e muitas vezes deixado impune. Comentários a festejar a desgraça alheia e nsultos não são incidentes isolados — são sintomas de uma doença social, alimentada por algoritmos que premiam o choque, o ruído e a violência simbólica.

    Em Portugal, este ambiente não é importado — é cultivado. Há uma rede cada vez mais coesa de contas associadas à extrema-direita, a perfis anónimos que vomitam insultos, e a políticos ou comentadores que sabem muito bem como manipular o ciclo de indignação para seu benefício. Usam o X como laboratório de provocação, saboreando cada reação como combustível para a sua máquina de ruído.

    Um breve regresso: a minha experiência pessoal

    Recentemente, decidi fazer uma breve incursão ao X por ocasião do período eleitoral. A minha intenção era perceber o estado da plataforma e a forma como o discurso político se desenrola neste novo ambiente. O que encontrei ultrapassou largamente qualquer expectativa negativa que pudesse ter. A toxicidade, o ódio desinibido, os apelos à violência e a presença activa de actores políticos da extrema-direita (muitas vezes com redes de perfis falsos e conteúdos coordenados) compõem uma paisagem quase distópica.

    O post que encontrei – e que partilho como exemplo – foi um momento-chave nesta exploração. Nele, um utilizador celebra a morte de bebés em Gaza e incita Israel a continuar os ataques, em resposta a uma informação partilhada por outro perfil sobre um alerta das Nações Unidas. A linguagem é explícita, violenta e desumanizadora, representando um dos níveis mais baixos daquilo que se tornou frequente no X.

    O X em Portugal e o papel da extrema-direita

    Em Portugal, o X tornou-se um dos principais instrumentos da extrema-direita digital. Através de memes, vídeos editados, manipulação de contexto e campanhas coordenadas, figuras políticas e os seus apoiantes alimentam um ecossistema onde a mentira se torna viral e o ódio é combustível para o engajamento.

    A impunidade é quase total. Conteúdos como o que incita ao genocídio continuam disponíveis dias depois da publicação. As denúncias são ignoradas ou tratadas com atraso. A sensação de descontrolo é agravada pela amplificação de contas verificadas que pagam por visibilidade e que, muitas vezes, são os principais disseminadores de desinformação.

    Não é por acaso que muitos utilizadores progressistas, activistas ou simplesmente pessoas comuns abandonaram a rede. O espaço tornou-se hostil para quem procura um debate minimamente informado ou ético.

    Onde fica a responsabilização?

    A Comissão Europeia já abriu um processo formal contra a X por violação da Lei dos Serviços Digitais. Investiga-se o funcionamento dos seus algoritmos, a ausência de moderação eficaz e o acolhimento de conteúdos ilegais. Mas os mecanismos de regulação são lentos e muitas vezes ineficazes perante a velocidade e escala da radicalização digital.

    Entretanto, a realidade é esta: o X tornou-se uma incubadora de ódio. E o silêncio — de quem consome, de quem não denuncia, de quem continua a tratar esta rede como espaço de “livre expressão” — contribui para a normalização da violência.

    Conclusão: que futuro para o X – e para nós?

    O X é hoje uma plataforma radicalizada, onde o engajamento é obtido através da violência simbólica (e por vezes literal). Em períodos eleitorais, isso torna-se ainda mais perigoso. Em Portugal, o crescimento da extrema-direita digital encontra ali um terreno fértil, reforçado por algoritmos que recompenqam a indignação e a polémica.

    Cabe-nos, enquanto cidadãos, reflectir sobre os espaços que frequentamos, o tipo de discurso que toleramos e o papel das redes sociais na nossa vida pública. E, sobretudo, recusar a normalização do ódio. Identificar, denunciar, afastar. Porque, como se comprova, aquilo que começa nas redes não fica nas redes.

  • Crónica de uma engrenagem anunciada
    Sobre “A Máquina de Ganhar Eleições”, de António Guerreiro

    No Público de 20 de maio, António Guerreiro ofereceu-nos mais do que uma crónica: ofereceu-nos um espelho. Intitula-se A Máquina de Ganhar Eleições, mas o que ali se disse vai muito além das urnas. É uma desmontagem fria — e literária — das explicações automáticas que seguem qualquer catástrofe eleitoral. Sempre a mesma promessa: uma “reflexão profunda”. Mas, como bem nota Guerreiro, ninguém parece disposto a verdadeiramente pensar — apenas a repetir diagnósticos gastos como se fossem novidade.

    É aí que o texto muda de plano e convida o leitor a sair da moldura. As explicações tradicionais — populismo, redes sociais, votos de protesto, “wokismo” — soam já a banda sonora de um filme velho. Em vez disso, Guerreiro aponta-nos um outro caminho: o livro La Machine à Faire Gagner les Droites, de Yves Citton, que nos propõe pensar a ascensão da direita não como fenómeno nacional, mas como parte de uma engrenagem transnacional profundamente mediática. A direita, diz Citton, aprendeu a operar dentro de uma “máquina” que molda públicos, não cidadãos.

    O conceito é inquietante: já não vivemos em democracia, mas em mediarquia — um regime em que o poder está nos media e nos algoritmos da atenção. Elegemos, não em nome do debate de ideias, mas da visibilidade mediática. Passámos da demos-cracia à publico-cracia. E os políticos, ao aceitarem expor-se nos grandes palcos do entretenimento televisivo, alimentam precisamente a lógica que os irá triturar enquanto representantes.

    Guerreiro não escreve com raiva, nem com cinismo. Escreve com uma lucidez quase melancólica — e com o olhar de quem lê mais do que jornais. Com alguma ironia, propõe à esquerda (e a quem quiser pensar para lá do óbvio) que comece por ler. Ler teoria. Ler de fora. Pensar para lá da análise politológica do costume.

    Mas também nos deixa num lugar desconfortável: o de quem percebe o problema mas não vê ainda como escapar-lhe. O que será uma contramáquina? Como resistir à lógica da atenção e do espetáculo? O texto não responde. Mas talvez o primeiro passo seja mesmo este: parar de aceitar como naturais as explicações prontas e começar a escavar a maquinaria que nos escolhe os vencedores.

    Talvez o que esteja em causa não seja ganhar eleições — mas recuperar a capacidade de as merecer.


    A outra engrenagem: os media como palco e parte do problema

    Se a crónica de Guerreiro nos convoca a pensar para lá das análises eleitorais apressadas, há um elemento que merece destaque próprio: a crítica implícita — mas corrosiva — aos meios de comunicação social. Não se trata apenas de um desvio de foco; trata-se de expor o mecanismo onde tudo se joga.

    Guerreiro, com apoio nas ideias de Yves Citton, descreve uma realidade em que o jornalismo já não informa, mas forma públicos — e fá-lo obedecendo à lógica do espetáculo, da atenção, da performance. A democracia deixa de ser o governo do povo para ser o governo dos públicos, moldados por algoritmos, emoções e fluxos de visibilidade. A “máquina de ganhar eleições” é também, então, uma máquina de fabricar consenso, distração e ruído.

    O papel do jornalista, outrora vigilante, tornou-se mais próximo do comentador automático, domesticado pelo ciclo noticioso e pela necessidade constante de opinião. São estes mesmos comentadores, amplificados por televisões e jornais, que ajudam a manter a ilusão de explicação enquanto o verdadeiro motor da política — o mediático — se mantém inquestionado.

    Mais inquietante ainda: os media deixaram de ser vigilantes do poder para se tornarem ele próprios uma forma de poder — silenciosa, naturalizada, omnipresente. Quando tudo é entretenimento, tudo é diluído. Até a política.

    A frase de encerramento da crónica é o verdadeiro diagnóstico: “uma Máquina que traduz toda a informação em propaganda.” O jornalismo, neste quadro, é absorvido pela lógica da atenção e torna-se mais propagandístico do que crítico — mais cúmplice do que resistente.

    Talvez seja esse o gesto mais político que esta crónica nos oferece: o de voltar a ler. Ler com tempo. Ler com crítica. Recusar a velocidade e o ruído. E, quem sabe, reinventar o jornalismo como lugar de fricção e pensamento — e não apenas como mais uma engrenagem na máquina de ganhar eleições.

  • Porque é que a social-democracia funciona na Suécia mas falhou em Portugal?
    Ou: como a confiança, o compromisso e a transparência fazem toda a diferença.

    Na semana passada, defendi porque considero a social-democracia um modelo mais justo e adequado para a sociedade do que o liberalismo económico, cuja influência tem vindo a crescer.

    Hoje, procuro identificar algumas das causas que contribuíram para o relativo fracasso da social-democracia em Portugal. Tomo como ponto de comparação a Suécia — um dos países onde este modelo social e económico mais bem-sucedido tem sido.

    Aponto também algumas soluções possíveis para reforçar o desempenho da nossa economia, com especial destaque para o fortalecimento do Estado social, peça-chave de qualquer projeto social-democrata consistente.


    PARTE I — As causas do fracasso português

    Introdução:

    Quantas vezes ouvimos dizer: “Na Suécia é que é!”? Serviços públicos de luxo, impostos altos mas justos, políticas sociais robustas, sindicatos fortes mas razoáveis, políticos sérios… e cá, em Portugal, uma versão encolhida, frágil e muitas vezes frustrante do que poderia ser um verdadeiro Estado social.

    Mas será que somos mesmo “pobres demais” para isso? Ou há algo mais profundo que nos impede de ter uma social-democracia à altura?

    Spoiler: não é só uma questão de dinheiro.

    1. A origem faz a diferença

    A social-democracia sueca nasceu de décadas de compromisso entre sindicatos, patrões e Estado. Sem revoluções, sem rutura, com estabilidade.

    Portugal saiu de quase meio século de ditadura através de uma revolução (25 de Abril) que, apesar de libertadora, mergulhou o país numa fase de instabilidade, nacionalizações caóticas e lutas ideológicas. Faltou tempo — e talvez cultura política — para construir uma social-democracia sólida e consensual.

    2. Sindicatos: o confronto acima do compromisso

    Na Suécia, os sindicatos são aliados da estabilidade. Em Portugal, muitos sindicatos (especialmente os próximos do PCP) seguiram uma linha de confronto. Greves constantes, resistência a reformas e pouca predisposição para o compromisso impediram avanços duradouros.

    Quando a luta sindical é vista como trincheira ideológica, perde-se o foco: melhorar concretamente a vida dos trabalhadores.

    3. Corrupção: o vírus invisível que destrói a confiança

    A social-democracia precisa de confiança. Confiança para pagar impostos, para acreditar nos serviços públicos, para aceitar regras.

    Em Portugal, a sucessão de escândalos — das PPPs às nomeações políticas, passando por negócios obscuros e ex-governantes a fazer carreira em grandes empresas — corroeu essa confiança. E sem ela, não há contrato social que resista.

    4. Demagogia: mais ruído, menos soluções

    Enquanto a política for feita de soundbites, ataques pessoais e jogos de poder, não há espaço para reformas sérias. Em vez de diálogo, temos confronto. Em vez de compromisso, temos espetáculo.

    A social-democracia exige capacidade de acordo, mesmo entre adversários. E Portugal não tem (ainda) essa cultura institucional.

    4.1. Instabilidade política: governos frágeis, reformas adiadas

    Portugal tem vivido uma sucessão de governos minoritários, alianças frágeis e dissoluções parlamentares. Esta instabilidade política compromete a capacidade de executar reformas estruturais de longo prazo — exatamente o tipo de medidas de que uma social-democracia precisa para vingar.

    Quando os ciclos políticos são curtos e marcados por incerteza, os governos tendem a privilegiar medidas populares de curto prazo em vez de investimentos estratégicos e reformas profundas, muitas vezes impopulares no imediato.

    Além disso, a alternância constante entre visões ideológicas contraditórias (com mudanças de rumo a cada legislatura) impede a construção de um modelo coerente e duradouro de Estado social. Sem continuidade, não há confiança; sem confiança, não há progresso.

    5. Uma economia limitada, mas não sem potencial

    A Suécia baseia-se em tecnologia, inovação e exportação. Portugal continua refém de setores com baixo valor acrescentado: turismo, serviços, construção.

    Menos riqueza produzida = menos margem para redistribuir. Mas mesmo dentro dessas limitações, seria possível fazer melhor — com visão e coragem política.

    6. O Estado que se encolhe

    Décadas de subfinanciamento deixaram os serviços públicos em erosão: hospitais com carências, escolas com falta de pessoal, transportes imprevisíveis.

    Perante isto, a perceção cresce: “o privado é que funciona”. E aí entra o próximo erro.

    7. PPPs: solução de curto prazo, problema a longo prazo

    As parcerias público-privadas, apresentadas como eficientes, muitas vezes beneficiaram interesses privados e comprometeram o futuro do Estado. Contratos opacos, lucros garantidos para empresas, riscos suportados pelo contribuinte.

    Resultado? O Estado perde força, autonomia e capacidade de resposta.


    PARTE II — Soluções para um Estado social sustentável com uma economia frágil

    1. Combate firme à evasão fiscal

    • Problema: Milhões por ano perdidos em impostos não pagos.
    • Solução: Investimento em tecnologia, fiscalização e cruzamento de dados.
    • Impacto: Recuperar receita sem sobrecarregar quem já paga.

    2. Revisão da despesa pública

    • Problema: Má gestão e contratos ruinosos.
    • Solução: Auditorias, transparência, avaliação de resultados.
    • Impacto: Eficiência e reinvestimento nos serviços cruciais.

    3. Reforma fiscal progressiva

    • Problema: Sistema injusto, penaliza rendimentos do trabalho.
    • Solução: Menor carga sobre salários baixos, maior tributação sobre os acima da classe média e especialmente sobre o capital especulativo.
    • Impacto: Maior justiça e redistribuição eficaz.

    4. Valor acrescentado na economia

    • Problema: Dependência de setores de baixa produtividade.
    • Solução: Inovação, Investigação e desenvolvimento, ensino técnico.
    • Impacto: Salários melhores, mais exportações, mais receita.

    5. Parcerias com o setor comunitário

    • Problema: PPPs favorecem o lucro em detrimento do serviço.
    • Solução: Apoio a cooperativas, IPSSs e associações locais.
    • Impacto: Serviços próximos e sustentáveis com controlo público.

    6. Planeamento de longo prazo

    • Problema: Medidas de curto prazo, focadas nas eleições.
    • Solução: Pactos sociais e políticos com metas partilhadas.
    • Impacto: Mais estabilidade e confiança institucional.

    Conclusão

    Um Estado social forte não exige um país rico — exige um país que saiba priorizar, distribuir e confiar. Portugal tem limitações, sim, mas também tem recursos humanos e institucionais para mais. O desafio está na coragem política, na cultura cívica e na exigência cidadã.

  • PS: Entre o legado e labirinto

    Há legados que se escrevem com vitórias e outros com equívocos. O de António Costa é um pouco dos dois. Estabilizou o país com a famosa “geringonça”, desafiando o modelo clássico de governação em Portugal. Mas esse movimento, que devolveu protagonismo à esquerda, afastou o PS do centro político, onde sempre soube construir maiorias e negociar consensos. A curto prazo, a estratégia resultou. A médio e longo prazo, revelou-se arriscada.

    A insistência em colocar o CHEGA no centro do debate foi outro erro. Costa achou que era útil confrontar diretamente a extrema-direita, mas acabou por lhe dar palco, estatuto e, paradoxalmente, normalização. O PSD, por sua vez, ficou encurralado entre a moderação e a sombra crescente de Ventura, perdendo a nitidez necessária para se afirmar como alternativa. Não por muito tempo.

    E chegamos então a Pedro Nuno Santos, herdeiro direto de uma máquina já desgastada. Trouxe energia e discurso ideológico claro, mas falhou no cálculo político. Ao votar contra a moção de confiança de Montenegro, precipitou novas eleições quando o mais sensato teria sido aguardar pelos resultados da comissão de inquérito ao caso SpinUnviva. Foi um gesto que soou mais a impulso do que a estratégia — e o país reagiu. Na campanha para as eleições o PNS andou perdido entre o radical (cuja imagem criou)  e o moderado (que tentou parecer). O PS sofreu uma derrota pesada e PNS saiu de cena de forma abrupta.

    Agora, perante a desorientação evidente, o PS tem de fazer uma escolha urgente: continuar num registo de confronto e incerteza, ou recentrar-se — ideológica e institucionalmente. Portugal precisa de estabilidade, de diálogo, de um partido socialista capaz de reconstruir confiança. Não é com ruído que se chega lá.

    O labirinto deixado por Costa e aprofundado por Pedro Nuno não se resolve com passos em falso. Resolve-se com bússola, paciência e humildade política. E com um urgente regresso ao centro.