Numa sociedade onde a ditadura foi muitas vezes empurrada para os cantos da memória, e onde a democracia raramente se afirmou com confiança, o espaço para o regresso simbólico do autoritarismo manteve-se aberto. O CHEGA soube ler esse vácuo. Como se vê na análise de Luca Manucci, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ou em estudos recentes como o divulgado pelo Expresso, há sinais claros de que esse passado, embora negado, nunca foi verdadeiramente ultrapassado.
E como é que o CHEGA faz isso? Não com livros ou reflexão, mas com slogans, ressentimento e uma promessa simples: restaurar uma ordem que muitos sentem ter perdido.
Mas que ordem é essa? E de onde vem o seu apelo?
1. A ditadura que nunca se confrontou
A transição democrática em Portugal foi pacífica, mas também profundamente evasiva.
Ao contrário de outras nações que enfrentaram as suas feridas (como a Alemanha ou, com esforço desigual, a Espanha), Portugal nunca passou por um verdadeiro processo de deslegitimação simbólica do regime anterior. O Estado Novo foi sendo limado nos manuais escolares, relativizado nos cafés e lentamente esquecido nos média.
Resultado? Uma geração inteira cresceu a ouvir que “Salazar roubava pouco” e que “naquele tempo havia respeito”.
Essa ausência de confronto permitiu que o salazarismo se transformasse num mito de ordem: uma memória distorcida onde o medo, a censura e a repressão foram varridos para debaixo do tapete — restando apenas a ilusão de estabilidade e disciplina.
2. O CHEGA como reciclagem emocional do autoritarismo
Quando o CHEGA aparece, surge como voz dos “invisíveis”, dos “abandonados pelo sistema”. Mas a sua retórica é familiar:
- Fala-se em “limpar Portugal”.
- Defendem-se penas mais duras, castigos públicos, expulsões.
- Exalta-se a autoridade como fim em si mesma.
No fundo, é a mesma lógica do Estado Novo: o povo como massa a proteger, não a empoderar; a política como ferramenta de castigo, não de justiça.
Mas agora, o discurso é mais teatral, feito de indignação e espetáculo. A nostalgia não se apresenta como doutrina — veste-se de “bom senso”, “valores antigos” e “não ter medo de dizer a verdade”.
Mais do que saudade: o desejo de um mundo legível
Não é Salazar — é a ânsia por um eixo fixo.
A maioria das pessoas que hoje manifestam simpatia por certos valores do Estado Novo não está a pedir o regresso da censura ou da polícia política. Está à procura de uma referência, de uma sensação de ordem num mundo que parece cada vez mais caótico, precário e imprevisível.
Há um conforto psicológico numa sociedade onde os papéis sociais estavam definidos, onde a autoridade era respeitada sem discussão, onde as fronteiras morais pareciam mais claras. A modernidade líquida, como diria Bauman, assusta — e o passado surge como âncora emocional, mesmo que ilusória.
O CHEGA oferece essa âncora simbólica. Não é tanto um projeto político, mas um espelho emocional para quem sente que perdeu algo, mesmo que não saiba bem o quê.
4. O conforto da ignorância: como a censura alimenta a nostalgia
Há um fenómeno subtil, mas poderoso: a sensação de segurança do passado era, em parte, fruto da censura.
Durante o Estado Novo, não se falava em crimes, violações, corrupção ou pobreza. A informação era filtrada, higienizada, domesticada. Quem cresceu nesse silêncio informativo guardou a memória de um país tranquilo — mesmo que a violência estivesse lá, escondida.
Hoje, somos bombardeados com más notícias a toda a hora. Homicídios, escândalos, guerras, desastres. A perceção de insegurança aumentou exponencialmente — não porque o mundo esteja objetivamente pior, mas porque vemos tudo. A exposição permanente ao mal cria medo, ansiedade e uma sensação constante de ameaça.
E assim, de forma inconsciente, nasce a comparação: \”Antigamente não se ouvia falar disto.\” Não se ouvia porque não deixavam. Mas essa ausência de ruído transformou-se, para muitos, na memória de um tempo seguro.
5. A memória como terreno político
A nostalgia é um campo fértil para discursos autoritários. Quando não se ensina bem o passado — ou quando se permite que ele seja moldado por afetos em vez de factos — abrem-se portas perigosas.
- O sistema educativo raramente confrontou os horrores do Estado Novo de forma clara e consistente.
- Faltam museus da memória, espaços de verdade, documentos vivos da repressão.
- E os média, em vez de combaterem ativamente a idealização da ditadura, muitas vezes tratam-na com um paternalismo folclórico.
Num país que nunca falou profundamente de si próprio, a política tornou-se terreno de mitos — e o CHEGA soube habitá-los.
A ilusão da ordem e os seus perigos
O desejo de ordem é compreensível. Mas o preço da ordem absoluta é a liberdade parcial — ou total ausência dela.
O discurso do CHEGA promete castigos, limites, muros. E muitos aplaudem porque sentem que o caos já entrou pelas janelas. Mas esse “regresso à ordem” nunca é neutro: traz consigo a criminalização da diferença, a desconfiança dos direitos humanos e o culto da autoridade.
É um terreno onde o passado não regressa apenas disfarçado — regressa com novos meios e nova linguagem, mas com a mesma tentação: calar para controlar.
Conclusão
O sucesso do CHEGA não se explica apenas com estatísticas ou desinformação. Explica-se com afetos mal resolvidos, com uma relação doentia com o passado, e com uma democracia que não soube contar a sua história.
Talvez não estejamos a reviver o passado. Mas estamos, claramente, a lidar com os seus fantasmas — e eles aprenderam a usar redes sociais.













