• O passado que volta disfarçado: Salazarismo, nostalgia e o sucesso do CHEGA

    Numa sociedade onde a ditadura foi muitas vezes empurrada para os cantos da memória, e onde a democracia raramente se afirmou com confiança, o espaço para o regresso simbólico do autoritarismo manteve-se aberto. O CHEGA soube ler esse vácuo. Como se vê na análise de Luca Manucci, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, ou em estudos recentes como o divulgado pelo Expresso, há sinais claros de que esse passado, embora negado, nunca foi verdadeiramente ultrapassado.

    E como é que o CHEGA faz isso? Não com livros ou reflexão, mas com slogans, ressentimento e uma promessa simples: restaurar uma ordem que muitos sentem ter perdido.
    Mas que ordem é essa? E de onde vem o seu apelo?


    1. A ditadura que nunca se confrontou

    A transição democrática em Portugal foi pacífica, mas também profundamente evasiva.
    Ao contrário de outras nações que enfrentaram as suas feridas (como a Alemanha ou, com esforço desigual, a Espanha), Portugal nunca passou por um verdadeiro processo de deslegitimação simbólica do regime anterior. O Estado Novo foi sendo limado nos manuais escolares, relativizado nos cafés e lentamente esquecido nos média.

    Resultado? Uma geração inteira cresceu a ouvir que “Salazar roubava pouco” e que “naquele tempo havia respeito”.

    Essa ausência de confronto permitiu que o salazarismo se transformasse num mito de ordem: uma memória distorcida onde o medo, a censura e a repressão foram varridos para debaixo do tapete — restando apenas a ilusão de estabilidade e disciplina.


    2. O CHEGA como reciclagem emocional do autoritarismo

    Quando o CHEGA aparece, surge como voz dos “invisíveis”, dos “abandonados pelo sistema”. Mas a sua retórica é familiar:

    • Fala-se em “limpar Portugal”.
    • Defendem-se penas mais duras, castigos públicos, expulsões.
    • Exalta-se a autoridade como fim em si mesma.

    No fundo, é a mesma lógica do Estado Novo: o povo como massa a proteger, não a empoderar; a política como ferramenta de castigo, não de justiça.
    Mas agora, o discurso é mais teatral, feito de indignação e espetáculo. A nostalgia não se apresenta como doutrina — veste-se de “bom senso”, “valores antigos” e “não ter medo de dizer a verdade”.


    Mais do que saudade: o desejo de um mundo legível

    Não é Salazar — é a ânsia por um eixo fixo.

    A maioria das pessoas que hoje manifestam simpatia por certos valores do Estado Novo não está a pedir o regresso da censura ou da polícia política. Está à procura de uma referência, de uma sensação de ordem num mundo que parece cada vez mais caótico, precário e imprevisível.

    Há um conforto psicológico numa sociedade onde os papéis sociais estavam definidos, onde a autoridade era respeitada sem discussão, onde as fronteiras morais pareciam mais claras. A modernidade líquida, como diria Bauman, assusta — e o passado surge como âncora emocional, mesmo que ilusória.

    O CHEGA oferece essa âncora simbólica. Não é tanto um projeto político, mas um espelho emocional para quem sente que perdeu algo, mesmo que não saiba bem o quê.


    4. O conforto da ignorância: como a censura alimenta a nostalgia

    Há um fenómeno subtil, mas poderoso: a sensação de segurança do passado era, em parte, fruto da censura.

    Durante o Estado Novo, não se falava em crimes, violações, corrupção ou pobreza. A informação era filtrada, higienizada, domesticada. Quem cresceu nesse silêncio informativo guardou a memória de um país tranquilo — mesmo que a violência estivesse lá, escondida.

    Hoje, somos bombardeados com más notícias a toda a hora. Homicídios, escândalos, guerras, desastres. A perceção de insegurança aumentou exponencialmente — não porque o mundo esteja objetivamente pior, mas porque vemos tudo. A exposição permanente ao mal cria medo, ansiedade e uma sensação constante de ameaça.

    E assim, de forma inconsciente, nasce a comparação: \”Antigamente não se ouvia falar disto.\” Não se ouvia porque não deixavam. Mas essa ausência de ruído transformou-se, para muitos, na memória de um tempo seguro.


    5. A memória como terreno político

    A nostalgia é um campo fértil para discursos autoritários. Quando não se ensina bem o passado — ou quando se permite que ele seja moldado por afetos em vez de factos — abrem-se portas perigosas.

    • O sistema educativo raramente confrontou os horrores do Estado Novo de forma clara e consistente.
    • Faltam museus da memória, espaços de verdade, documentos vivos da repressão.
    • E os média, em vez de combaterem ativamente a idealização da ditadura, muitas vezes tratam-na com um paternalismo folclórico.

    Num país que nunca falou profundamente de si próprio, a política tornou-se terreno de mitos — e o CHEGA soube habitá-los.


    A ilusão da ordem e os seus perigos

    O desejo de ordem é compreensível. Mas o preço da ordem absoluta é a liberdade parcial — ou total ausência dela.

    O discurso do CHEGA promete castigos, limites, muros. E muitos aplaudem porque sentem que o caos já entrou pelas janelas. Mas esse “regresso à ordem” nunca é neutro: traz consigo a criminalização da diferença, a desconfiança dos direitos humanos e o culto da autoridade.

    É um terreno onde o passado não regressa apenas disfarçado — regressa com novos meios e nova linguagem, mas com a mesma tentação: calar para controlar.


    Conclusão

    O sucesso do CHEGA não se explica apenas com estatísticas ou desinformação. Explica-se com afetos mal resolvidos, com uma relação doentia com o passado, e com uma democracia que não soube contar a sua história.

    Talvez não estejamos a reviver o passado. Mas estamos, claramente, a lidar com os seus fantasmas — e eles aprenderam a usar redes sociais.

  • X: Um reflexo da era da polarização?

    O antigo Twitter, foi outrora uma plataforma de debate público, humor e partilha de ideias. Hoje, apresenta um cenário diferente. Desde a sua aquisição por Elon Musk, a rede tem vindo a transformar-se num espaço cada vez mais propício à disseminação de discurso de ódio, propaganda e estratégias de manipulação por parte da extrema-direita. Esta mudança não é apenas global – em Portugal, o fenómeno é palpável e alarmante.

    Porque é que o X se tornou este palco?

    1. Desregulação deliberada: Desde a compra por Elon Musk, assistimos a uma desmantelação sistemática dos mecanismos de moderação. Contas banidas por discurso de ódio foram restauradas, e o “engagement” (gostos, partilhas) passou a premiar polémica tóxica em vez de diálogo construtivo.

    2. Algoritmos que amplificam o extremismo: O conteúdo mais chocante, indignado ou ofensivo gera mais reações — e, por isso, mais visibilidade. Isto serve os interesses comerciais da plataforma, mas prejudica gravemente a saúde pública do espaço digital.

    3. Rede informal da extrema-direita: No caso português, há figuras bem conhecidas da política e do comentário público que usam o X para lançar provocações, criar inimigos fictícios (“os woke”, “a esquerda”, “os imigrantes”, etc.) e consolidar uma base radicalizada. Muitas vezes, fazem-no sob a capa de “liberdade de expressão”, quando na realidade estão a alimentar um ambiente tóxico e antidemocrático.

    4. Normalização do inaceitável: Quando discursos como o da publicação que mostraste se tornam virais ou passam impunes, o que antes seria considerado impensável torna-se apenas “mais uma opinião”. É assim que o ódio se normaliza.

    O ódio digital não é só ruído — é veneno. Atravessamos um tempo estranho, em que a fronteira entre liberdade de expressão e incitamento ao ódio se esbate cada vez mais. As redes sociais, outrora celebradas como ferramentas de democratização da palavra, tornaram-se terrenos férteis para a radicalização. E poucas plataformas ilustram isto com tanta clareza como o X (antigo Twitter).

    É o que o X amplifica hoje não é só desinformação. É ódio em estado puro, desumanização literal. E pior: é celebrado, partilhado, rido, e muitas vezes deixado impune. Comentários a festejar a desgraça alheia e nsultos não são incidentes isolados — são sintomas de uma doença social, alimentada por algoritmos que premiam o choque, o ruído e a violência simbólica.

    Em Portugal, este ambiente não é importado — é cultivado. Há uma rede cada vez mais coesa de contas associadas à extrema-direita, a perfis anónimos que vomitam insultos, e a políticos ou comentadores que sabem muito bem como manipular o ciclo de indignação para seu benefício. Usam o X como laboratório de provocação, saboreando cada reação como combustível para a sua máquina de ruído.

    Um breve regresso: a minha experiência pessoal

    Recentemente, decidi fazer uma breve incursão ao X por ocasião do período eleitoral. A minha intenção era perceber o estado da plataforma e a forma como o discurso político se desenrola neste novo ambiente. O que encontrei ultrapassou largamente qualquer expectativa negativa que pudesse ter. A toxicidade, o ódio desinibido, os apelos à violência e a presença activa de actores políticos da extrema-direita (muitas vezes com redes de perfis falsos e conteúdos coordenados) compõem uma paisagem quase distópica.

    O post que encontrei – e que partilho como exemplo – foi um momento-chave nesta exploração. Nele, um utilizador celebra a morte de bebés em Gaza e incita Israel a continuar os ataques, em resposta a uma informação partilhada por outro perfil sobre um alerta das Nações Unidas. A linguagem é explícita, violenta e desumanizadora, representando um dos níveis mais baixos daquilo que se tornou frequente no X.

    O X em Portugal e o papel da extrema-direita

    Em Portugal, o X tornou-se um dos principais instrumentos da extrema-direita digital. Através de memes, vídeos editados, manipulação de contexto e campanhas coordenadas, figuras políticas e os seus apoiantes alimentam um ecossistema onde a mentira se torna viral e o ódio é combustível para o engajamento.

    A impunidade é quase total. Conteúdos como o que incita ao genocídio continuam disponíveis dias depois da publicação. As denúncias são ignoradas ou tratadas com atraso. A sensação de descontrolo é agravada pela amplificação de contas verificadas que pagam por visibilidade e que, muitas vezes, são os principais disseminadores de desinformação.

    Não é por acaso que muitos utilizadores progressistas, activistas ou simplesmente pessoas comuns abandonaram a rede. O espaço tornou-se hostil para quem procura um debate minimamente informado ou ético.

    Onde fica a responsabilização?

    A Comissão Europeia já abriu um processo formal contra a X por violação da Lei dos Serviços Digitais. Investiga-se o funcionamento dos seus algoritmos, a ausência de moderação eficaz e o acolhimento de conteúdos ilegais. Mas os mecanismos de regulação são lentos e muitas vezes ineficazes perante a velocidade e escala da radicalização digital.

    Entretanto, a realidade é esta: o X tornou-se uma incubadora de ódio. E o silêncio — de quem consome, de quem não denuncia, de quem continua a tratar esta rede como espaço de “livre expressão” — contribui para a normalização da violência.

    Conclusão: que futuro para o X – e para nós?

    O X é hoje uma plataforma radicalizada, onde o engajamento é obtido através da violência simbólica (e por vezes literal). Em períodos eleitorais, isso torna-se ainda mais perigoso. Em Portugal, o crescimento da extrema-direita digital encontra ali um terreno fértil, reforçado por algoritmos que recompenqam a indignação e a polémica.

    Cabe-nos, enquanto cidadãos, reflectir sobre os espaços que frequentamos, o tipo de discurso que toleramos e o papel das redes sociais na nossa vida pública. E, sobretudo, recusar a normalização do ódio. Identificar, denunciar, afastar. Porque, como se comprova, aquilo que começa nas redes não fica nas redes.

  • Crónica de uma engrenagem anunciada
    Sobre “A Máquina de Ganhar Eleições”, de António Guerreiro

    No Público de 20 de maio, António Guerreiro ofereceu-nos mais do que uma crónica: ofereceu-nos um espelho. Intitula-se A Máquina de Ganhar Eleições, mas o que ali se disse vai muito além das urnas. É uma desmontagem fria — e literária — das explicações automáticas que seguem qualquer catástrofe eleitoral. Sempre a mesma promessa: uma “reflexão profunda”. Mas, como bem nota Guerreiro, ninguém parece disposto a verdadeiramente pensar — apenas a repetir diagnósticos gastos como se fossem novidade.

    É aí que o texto muda de plano e convida o leitor a sair da moldura. As explicações tradicionais — populismo, redes sociais, votos de protesto, “wokismo” — soam já a banda sonora de um filme velho. Em vez disso, Guerreiro aponta-nos um outro caminho: o livro La Machine à Faire Gagner les Droites, de Yves Citton, que nos propõe pensar a ascensão da direita não como fenómeno nacional, mas como parte de uma engrenagem transnacional profundamente mediática. A direita, diz Citton, aprendeu a operar dentro de uma “máquina” que molda públicos, não cidadãos.

    O conceito é inquietante: já não vivemos em democracia, mas em mediarquia — um regime em que o poder está nos media e nos algoritmos da atenção. Elegemos, não em nome do debate de ideias, mas da visibilidade mediática. Passámos da demos-cracia à publico-cracia. E os políticos, ao aceitarem expor-se nos grandes palcos do entretenimento televisivo, alimentam precisamente a lógica que os irá triturar enquanto representantes.

    Guerreiro não escreve com raiva, nem com cinismo. Escreve com uma lucidez quase melancólica — e com o olhar de quem lê mais do que jornais. Com alguma ironia, propõe à esquerda (e a quem quiser pensar para lá do óbvio) que comece por ler. Ler teoria. Ler de fora. Pensar para lá da análise politológica do costume.

    Mas também nos deixa num lugar desconfortável: o de quem percebe o problema mas não vê ainda como escapar-lhe. O que será uma contramáquina? Como resistir à lógica da atenção e do espetáculo? O texto não responde. Mas talvez o primeiro passo seja mesmo este: parar de aceitar como naturais as explicações prontas e começar a escavar a maquinaria que nos escolhe os vencedores.

    Talvez o que esteja em causa não seja ganhar eleições — mas recuperar a capacidade de as merecer.


    A outra engrenagem: os media como palco e parte do problema

    Se a crónica de Guerreiro nos convoca a pensar para lá das análises eleitorais apressadas, há um elemento que merece destaque próprio: a crítica implícita — mas corrosiva — aos meios de comunicação social. Não se trata apenas de um desvio de foco; trata-se de expor o mecanismo onde tudo se joga.

    Guerreiro, com apoio nas ideias de Yves Citton, descreve uma realidade em que o jornalismo já não informa, mas forma públicos — e fá-lo obedecendo à lógica do espetáculo, da atenção, da performance. A democracia deixa de ser o governo do povo para ser o governo dos públicos, moldados por algoritmos, emoções e fluxos de visibilidade. A “máquina de ganhar eleições” é também, então, uma máquina de fabricar consenso, distração e ruído.

    O papel do jornalista, outrora vigilante, tornou-se mais próximo do comentador automático, domesticado pelo ciclo noticioso e pela necessidade constante de opinião. São estes mesmos comentadores, amplificados por televisões e jornais, que ajudam a manter a ilusão de explicação enquanto o verdadeiro motor da política — o mediático — se mantém inquestionado.

    Mais inquietante ainda: os media deixaram de ser vigilantes do poder para se tornarem ele próprios uma forma de poder — silenciosa, naturalizada, omnipresente. Quando tudo é entretenimento, tudo é diluído. Até a política.

    A frase de encerramento da crónica é o verdadeiro diagnóstico: “uma Máquina que traduz toda a informação em propaganda.” O jornalismo, neste quadro, é absorvido pela lógica da atenção e torna-se mais propagandístico do que crítico — mais cúmplice do que resistente.

    Talvez seja esse o gesto mais político que esta crónica nos oferece: o de voltar a ler. Ler com tempo. Ler com crítica. Recusar a velocidade e o ruído. E, quem sabe, reinventar o jornalismo como lugar de fricção e pensamento — e não apenas como mais uma engrenagem na máquina de ganhar eleições.

  • Porque é que a social-democracia funciona na Suécia mas falhou em Portugal?
    Ou: como a confiança, o compromisso e a transparência fazem toda a diferença.

    Na semana passada, defendi porque considero a social-democracia um modelo mais justo e adequado para a sociedade do que o liberalismo económico, cuja influência tem vindo a crescer.

    Hoje, procuro identificar algumas das causas que contribuíram para o relativo fracasso da social-democracia em Portugal. Tomo como ponto de comparação a Suécia — um dos países onde este modelo social e económico mais bem-sucedido tem sido.

    Aponto também algumas soluções possíveis para reforçar o desempenho da nossa economia, com especial destaque para o fortalecimento do Estado social, peça-chave de qualquer projeto social-democrata consistente.


    PARTE I — As causas do fracasso português

    Introdução:

    Quantas vezes ouvimos dizer: “Na Suécia é que é!”? Serviços públicos de luxo, impostos altos mas justos, políticas sociais robustas, sindicatos fortes mas razoáveis, políticos sérios… e cá, em Portugal, uma versão encolhida, frágil e muitas vezes frustrante do que poderia ser um verdadeiro Estado social.

    Mas será que somos mesmo “pobres demais” para isso? Ou há algo mais profundo que nos impede de ter uma social-democracia à altura?

    Spoiler: não é só uma questão de dinheiro.

    1. A origem faz a diferença

    A social-democracia sueca nasceu de décadas de compromisso entre sindicatos, patrões e Estado. Sem revoluções, sem rutura, com estabilidade.

    Portugal saiu de quase meio século de ditadura através de uma revolução (25 de Abril) que, apesar de libertadora, mergulhou o país numa fase de instabilidade, nacionalizações caóticas e lutas ideológicas. Faltou tempo — e talvez cultura política — para construir uma social-democracia sólida e consensual.

    2. Sindicatos: o confronto acima do compromisso

    Na Suécia, os sindicatos são aliados da estabilidade. Em Portugal, muitos sindicatos (especialmente os próximos do PCP) seguiram uma linha de confronto. Greves constantes, resistência a reformas e pouca predisposição para o compromisso impediram avanços duradouros.

    Quando a luta sindical é vista como trincheira ideológica, perde-se o foco: melhorar concretamente a vida dos trabalhadores.

    3. Corrupção: o vírus invisível que destrói a confiança

    A social-democracia precisa de confiança. Confiança para pagar impostos, para acreditar nos serviços públicos, para aceitar regras.

    Em Portugal, a sucessão de escândalos — das PPPs às nomeações políticas, passando por negócios obscuros e ex-governantes a fazer carreira em grandes empresas — corroeu essa confiança. E sem ela, não há contrato social que resista.

    4. Demagogia: mais ruído, menos soluções

    Enquanto a política for feita de soundbites, ataques pessoais e jogos de poder, não há espaço para reformas sérias. Em vez de diálogo, temos confronto. Em vez de compromisso, temos espetáculo.

    A social-democracia exige capacidade de acordo, mesmo entre adversários. E Portugal não tem (ainda) essa cultura institucional.

    4.1. Instabilidade política: governos frágeis, reformas adiadas

    Portugal tem vivido uma sucessão de governos minoritários, alianças frágeis e dissoluções parlamentares. Esta instabilidade política compromete a capacidade de executar reformas estruturais de longo prazo — exatamente o tipo de medidas de que uma social-democracia precisa para vingar.

    Quando os ciclos políticos são curtos e marcados por incerteza, os governos tendem a privilegiar medidas populares de curto prazo em vez de investimentos estratégicos e reformas profundas, muitas vezes impopulares no imediato.

    Além disso, a alternância constante entre visões ideológicas contraditórias (com mudanças de rumo a cada legislatura) impede a construção de um modelo coerente e duradouro de Estado social. Sem continuidade, não há confiança; sem confiança, não há progresso.

    5. Uma economia limitada, mas não sem potencial

    A Suécia baseia-se em tecnologia, inovação e exportação. Portugal continua refém de setores com baixo valor acrescentado: turismo, serviços, construção.

    Menos riqueza produzida = menos margem para redistribuir. Mas mesmo dentro dessas limitações, seria possível fazer melhor — com visão e coragem política.

    6. O Estado que se encolhe

    Décadas de subfinanciamento deixaram os serviços públicos em erosão: hospitais com carências, escolas com falta de pessoal, transportes imprevisíveis.

    Perante isto, a perceção cresce: “o privado é que funciona”. E aí entra o próximo erro.

    7. PPPs: solução de curto prazo, problema a longo prazo

    As parcerias público-privadas, apresentadas como eficientes, muitas vezes beneficiaram interesses privados e comprometeram o futuro do Estado. Contratos opacos, lucros garantidos para empresas, riscos suportados pelo contribuinte.

    Resultado? O Estado perde força, autonomia e capacidade de resposta.


    PARTE II — Soluções para um Estado social sustentável com uma economia frágil

    1. Combate firme à evasão fiscal

    • Problema: Milhões por ano perdidos em impostos não pagos.
    • Solução: Investimento em tecnologia, fiscalização e cruzamento de dados.
    • Impacto: Recuperar receita sem sobrecarregar quem já paga.

    2. Revisão da despesa pública

    • Problema: Má gestão e contratos ruinosos.
    • Solução: Auditorias, transparência, avaliação de resultados.
    • Impacto: Eficiência e reinvestimento nos serviços cruciais.

    3. Reforma fiscal progressiva

    • Problema: Sistema injusto, penaliza rendimentos do trabalho.
    • Solução: Menor carga sobre salários baixos, maior tributação sobre os acima da classe média e especialmente sobre o capital especulativo.
    • Impacto: Maior justiça e redistribuição eficaz.

    4. Valor acrescentado na economia

    • Problema: Dependência de setores de baixa produtividade.
    • Solução: Inovação, Investigação e desenvolvimento, ensino técnico.
    • Impacto: Salários melhores, mais exportações, mais receita.

    5. Parcerias com o setor comunitário

    • Problema: PPPs favorecem o lucro em detrimento do serviço.
    • Solução: Apoio a cooperativas, IPSSs e associações locais.
    • Impacto: Serviços próximos e sustentáveis com controlo público.

    6. Planeamento de longo prazo

    • Problema: Medidas de curto prazo, focadas nas eleições.
    • Solução: Pactos sociais e políticos com metas partilhadas.
    • Impacto: Mais estabilidade e confiança institucional.

    Conclusão

    Um Estado social forte não exige um país rico — exige um país que saiba priorizar, distribuir e confiar. Portugal tem limitações, sim, mas também tem recursos humanos e institucionais para mais. O desafio está na coragem política, na cultura cívica e na exigência cidadã.

  • PS: Entre o legado e labirinto

    Há legados que se escrevem com vitórias e outros com equívocos. O de António Costa é um pouco dos dois. Estabilizou o país com a famosa “geringonça”, desafiando o modelo clássico de governação em Portugal. Mas esse movimento, que devolveu protagonismo à esquerda, afastou o PS do centro político, onde sempre soube construir maiorias e negociar consensos. A curto prazo, a estratégia resultou. A médio e longo prazo, revelou-se arriscada.

    A insistência em colocar o CHEGA no centro do debate foi outro erro. Costa achou que era útil confrontar diretamente a extrema-direita, mas acabou por lhe dar palco, estatuto e, paradoxalmente, normalização. O PSD, por sua vez, ficou encurralado entre a moderação e a sombra crescente de Ventura, perdendo a nitidez necessária para se afirmar como alternativa. Não por muito tempo.

    E chegamos então a Pedro Nuno Santos, herdeiro direto de uma máquina já desgastada. Trouxe energia e discurso ideológico claro, mas falhou no cálculo político. Ao votar contra a moção de confiança de Montenegro, precipitou novas eleições quando o mais sensato teria sido aguardar pelos resultados da comissão de inquérito ao caso SpinUnviva. Foi um gesto que soou mais a impulso do que a estratégia — e o país reagiu. Na campanha para as eleições o PNS andou perdido entre o radical (cuja imagem criou)  e o moderado (que tentou parecer). O PS sofreu uma derrota pesada e PNS saiu de cena de forma abrupta.

    Agora, perante a desorientação evidente, o PS tem de fazer uma escolha urgente: continuar num registo de confronto e incerteza, ou recentrar-se — ideológica e institucionalmente. Portugal precisa de estabilidade, de diálogo, de um partido socialista capaz de reconstruir confiança. Não é com ruído que se chega lá.

    O labirinto deixado por Costa e aprofundado por Pedro Nuno não se resolve com passos em falso. Resolve-se com bússola, paciência e humildade política. E com um urgente regresso ao centro.

  • Racismo e Genocídio: A Retórica dos Líderes Israelenses

    O artigo, cujos excertos transcrevo, é da autoria do insuspeito Le Monde e demonstra o ódio existente nas esferas políticas de Israel e a forma como desumanizam os palestinianos, de forma a “justificar” a destruição e assassinato em massa de civis.

    A linguagem desumanizante tem sido usada nos mais altos níveis do governo israelita, imediatamente após o ataque terrorista do Hamas que matou mais de 1.200 pessoas em Israel. Yoav Gallant, que era então o ministro da Defesa, até à sua demissão do governo em 2024, justificou o início do cerco declarando: “Estamos a lutar contra animais humanos e estamos a agir em conformidade.” O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, por sua vez, contrastou os “filhos da luz”, que estão sujeitos ao “barbarismo” e à “lei da selva”, com os “filhos das trevas”, e comparou o Hamas a “monstros”.

    Em várias ocasiões, o primeiro-ministro invocou a erradicação bíblica de Amalek, um povo nómada apresentado na Bíblia como inimigo dos “israelitas”, como uma analogia para o futuro de Gaza. O presidente Isaac Herzog, por sua vez, justificou um desejo de “erradicar o mal” do enclave, que está sob o controlo do Hamas desde 2007: “É uma nação inteira lá fora que é responsável. Essa retórica sobre civis não cientes, não envolvidos, é absolutamente não verdadeira.” O presidente, cujo papel é em grande parte simbólico, acrescentou: “Lutaremos até quebrar a espinha deles.”

    O extremismo reinante no seio do staff liderado por Netanyahu é bem demonstrado nas intervenções dos seus vários ministros.

    “Estamos agora a implementar a Nakba de Gaza”, declarou o ministro da Agricultura Avi Dichter em novembro de 2023, referindo-se ao deslocamento forçado da população palestiniana em 1948. O ministro do Património Amichai Eliyahu, conhecido por repetidamente pedir desde outubro de 2023 que uma bomba nuclear seja lançada sobre Gaza, voltou a ser notícia no início de maio ao sugerir que as últimas reservas de alimentos restantes em Gaza deveriam ser bombardeadas. “Eles precisam passar fome”, disse ele….

    Nissim Vaturi, vice-presidente do Knesset e membro do Likud, proferiu múltiplos discursos anti-palestinianos, chamando para “apagar Gaza da face da Terra”. Outros legisladores israelitas defenderam a necessidade de matar crianças e destruir o território — alguns, como Netanyahu, invocam Amalek para justificar a escala da destruição.

    A audiência, em 8 de maio, perante uma comissão do Knesset, da Dra. Sharon Shaul, chefe da ONG humanitária Natan, ilustrou a violência aberta da retórica dentro da maioria governante. “Acho que mesmo todos sentados à volta desta mesa não querem que uma criança sofrendo não possa receber analgésicos ou tratamento médico mínimo”, disse a Dra. Shaul, num diálogo relatado pelo jornal Haaretz. O deputado do Likud Amit Halevi retorquiu então: “Não tenho certeza se está a falar por nós quando diz que queremos tratar todas as crianças e todas as mulheres. Espero que também não apoie essa declaração. Quando se luta contra um grupo como este, as distinções que existem num mundo normal não existem.” Quando a médica insistiu no imperativo moral de fornecer tratamento a um jovem amputado, outra deputada, Limor Son Har-Melech do partido de extrema direita Otzma Yehudit (“Poder Judeu”), interrompeu-a: “O único tratamento necessário aqui é para si!”

    Esta retórica com tons genocidas também é repetida por altos oficiais militares, tanto ativos como reformados. Em seu caso perante o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), a África do Sul citou Ghassan Alian, coordenador das atividades governamentais nos territórios ocupados: “Animais humanos devem ser tratados como tal.” O ex-major-general Giora Eiland, também citado na queixa do TIJ e um frequente comentarista da mídia, chamou várias vezes para tornar o território inabitável: “O Estado de Israel não tem escolha a não ser transformar Gaza em um lugar que seja temporária ou permanentemente impossível de se viver.” O mesmo oficial justificou as mulheres serem vítimas de ataques: “Quem são as ‘pobres’ mulheres de Gaza? Elas são todas as mães, irmãs ou esposas dos assassinos do Hamas.”

    A retórica está presente inclusive nas redes sociais ou até mesmo em programas de televisão. O Canal 14, um orgão de média de extrema direita é autor inclusive de várias transmissões que incitam ao genocídio, à violência e ao racismo.

    “Na TV israelita, Bebés de Gaza a Passar Fome Não São um Problema. Desde que Não Haja Fotos Deles”, lia-se uma manchete do Haaretz na terça-feira, 20 de maio, refletindo um debate lançado por Yair Golan sobre crianças mortas pelo exército….

    As ONGs também apontam que esta retórica ultrarradical está agora a visar a Cisjordânia, onde mais de 900 palestinianos foram mortos desde outubro de 2023. Elas temem que tais declarações estejam a abrir caminho para uma ofensiva em larga escala no território, semelhante ao que está em curso em Gaza. Num longo discurso proferido em 27 de abril em Jerusalém, Netanyahu lançou o mesmo opróbrio sobre os residentes de ambos os territórios. “Eles continuam a dizer, ‘Queremos um Estado palestiniano, na nossa pátria ancestral, para destruir o Estado judeu.’ Eles dizem isso. Eles dizem isso em Ramallah. Eles dizem isso em Gaza. Eles ensinam isso em Ramallah às suas crianças. Eles ensinam isso em Gaza”, disse o primeiro-ministro.

    Um artigo que vale a pena ler na íntegra para quem tiver uma assinatura ativa no jornal francês. 

  • Por uma liberdade positiva

    A democracia só é plena quando a liberdade é também positiva: quando o Estado cria condições para que todos, e não apenas alguns, possam realmente escolher. Isso inclui acesso universal à saúde, educação, proteção social e habitação. Sem esses pilares, a liberdade torna-se um privilégio.

    Os liberais esquecem-se, ou escolhem ignorar, que o mercado por si só tende a reproduzir desigualdades. Deixar a saúde ou a educação nas mãos do lucro é aceitar que quem tem mais meios viverá melhor, e quem tem menos viverá pior. Essa não é uma sociedade livre: é uma sociedade estratificada.

    A posição da Iniciativa Liberal, ainda que coerente do ponto de vista ideológico, falha na compreensão das realidades sociais. Um Estado ausente não é sinónimo de eficiência: é sinónimo de exclusão.

    Liberdade sim. Mas uma liberdade que não ignore as condições materiais que moldam a vida dos cidadãos.

  • O país onde a esperança perdeu voz

    Não foi um choque. Quem anda atento já sabia. Não era preciso ser analista, nem adivinhar cartas em mesas redondas de domingo à noite. Bastava ouvir. Estar onde poucos estão. Escutar, com paciência, o que o ruído mediático costuma varrer para debaixo do tapete. O resultado das eleições de ontem não nasceu do acaso — cresceu no silêncio, adubado por anos de desprezo, regado pela raiva de quem já não acredita em nada, mas ainda acredita no castigo.

    O CHEGA voltou a subir. Cresceu nas franjas e cresceu no centro. Ganhou votos onde a memória já se esqueceu de como era viver com dignidade e também onde nunca se soube. Não é só ódio, nem só ignorância. É desilusão tornada linguagem política. É o protesto que se transforma em voto, porque é o único sítio onde ainda se pode bater com a porta sem partir a casa.

    E enquanto os números subiam nos ecrãs, via-se no rosto de muitos o espanto forçado de quem finge não perceber. À esquerda, contorce-se o discurso, esconde-se o fracasso atrás da pureza ideológica. Continua-se a confundir o país real com a bolha lisboeta. Acredita-se que ter razão é suficiente para convencer quem não tem sequer pão. À direita, disfarça-se o contágio. Finge-se sobriedade enquanto se herdam palavras, temas e tiques do partido que se diz combater. Moderação, sim — mas só no tom, nunca no conteúdo.

    O jornalismo, por sua vez, pagou o preço do espetáculo. Gastaram-se horas em diretos e polémicas vazias, enquanto o país profundo continuava sem reportagem. Nas câmaras, nos microfones, nos títulos, foi-se normalizando o absurdo, amplificando o populismo com populismo. Não por convicção, mas por cliques. E o que se ganhou em audiências perdeu-se em decência.

    Os que ontem votaram no CHEGA não são, na maioria, fascistas. São pessoas. Com contradições, com medos, com ressentimentos reais. Muitas erram, outras assustam. Mas há também as que apenas querem ser vistas, reconhecidas, consideradas parte de um país que as empurrou para a margem. E enquanto continuarmos a falar sobre elas em vez de falar com elas, os resultados só irão numa direção.

    Sim, o discurso do ódio deve ser combatido. Mas não se combate com desprezo nem com memes. Combate-se com alternativa, com coragem e, sobretudo, com trabalho sério onde ninguém quer ir. Combate-se com verdade — mesmo quando ela incomoda.

    O país que ontem falou nas urnas é o mesmo de sempre: dividido, desigual, cansado. Mas agora, talvez mais do que nunca, sem esperança. E sem esperança, qualquer coisa serve. Até o abismo.

  • O País Escrito na Margem

    Não foi profecia nem vaticínio,
    nem cartas lançadas sobre pano velho —
    foi andar por aí, calcorrear silêncio,
    e ouvir a raiva a fazer-se conselho.

    Não são vinte por cento de sombras do passado,
    não são todos fantasmas de botas e fado.
    Há quem grite porque ninguém escutou,
    quem tropece na dor que o tempo calou.

    Confundem-se causas com monstros de feira,
    misturam-se mágoas com a poeira
    dos dias vividos sem voz nem chão —
    e ninguém estende a mão.

    O insulto fácil, a rima certeira,
    o post partilhado sem bandeira,
    a sátira burra que alimenta o cão
    que depois morde a razão.

    Do púlpito urbano, fala-se em nome da moral,
    mas não se vê a aldeia real.
    Zombam dos ventres que não lêem jornais,
    mas nunca lhes perguntam o que ficou para trás.

    Na escola, a saudação erra o tempo,
    nas redes, o algoritmo é templo.
    E os jovens, órfãos da palavra justa,
    fazem eco da raiva mais robusta.

    A esquerda sonha com manuais vencidos,
    a direita pisca olhos aos ressentidos.
    Uns com cartilhas, outros com gravatas,
    todos esquecem as mãos que ficaram vazias nas matas.

    Não confundas o grito com o grilhetar,
    nem o voto com vontade de matar.
    Talvez só queiram existir no mapa,
    ver que alguém os escapa.

    Mas o jornal, cão de outrora,
    ladra hoje para a câmara e vai embora.
    E a reportagem que devia ser pão,
    é só circo, eco, confusão.

    Há um país que não cabe na capital,
    que se escreve em cadernos marginais.
    E se não o lermos com olhos atentos,
    veremos crescer os tormentos.

    Reconciliar não é calar,
    mas escutar sem julgar.
    Trazer para o centro quem ficou de lado,
    dar voz a quem foi silenciado.

    Não se constrói a democracia de esporas calçadas,
    nem se vence o ódio com gargalhadas.
    É preciso descer da burra,
    falar com o Shrek da rua escura.

    Há um país para conquistar, sim,
    mas começa no fim:
    onde ninguém olha, onde ninguém chega —
    aí onde o desespero se achega.

  • Desinformação e a Crise do Jornalismo de Referência

    O jornalismo, especialmente o de referência, tem desempenhado ao longo da sua história um papel fundamental numa sociedade democrática e informada. A sua importância revela-se nos seguintes termos:

    • Teve sempre um papel fiscalizador do poder, zelando pelo funcionamento da democracia. Investigando e denunciando abusos por parte do Estado, empresas e outras instituições:
    • Informação rigorosa e contextualizada: Ao contrário de fontes não verificadas, o jornalismo de referência baseia-se em factos confirmados, múltiplas fontes e análise crítica, permitindo aos cidadãos formar opiniões fundamentadas.
    • Formação da opinião pública: É através de um jornalismo sério que se promovem debates públicos sobre temas importantes — como saúde, justiça, economia ou ambiente.
    • Combate à desinformação: Num tempo de redes sociais e “fake news”, o jornalismo profissional ajuda a separar o que é verdadeiro do que é manipulado ou falso.

    Nas últimas décadas o jornalismo tem vindo a perder força com as pessoas a afastarem-se. Os fatores foram vários.

    • Perda de confiança: Casos de sensacionalismo, parcialidade percebida ou erros em grandes meios de comunicação levaram muitas pessoas a desconfiar dos jornalistas.
    • Gratuitidade e superficialidade online: Muitos consumidores preferem conteúdos rápidos e gratuitos (muitas vezes menos fiáveis), em vez de investir em jornais pagos e mais profundos.
    • Sobrecarga de informação: Com tantos canais e redes sociais, as pessoas sentem-se saturadas e têm dificuldade em distinguir fontes credíveis.
    • Polarização política: Em contextos polarizados, os media são frequentemente vistos como estando “do lado oposto”, levando grupos inteiros a rejeitar o jornalismo tradicional.

    Ou seja, com a evolução tecnológica a forma das pessoas “consumirem” informação mudou e nem sempre o jornalismo conseguiu acompanhar. Com o fácil acesso à informação (nem sempre rigorosa) o jornalismo (especialmente o de referência) entrou em crise e ainda hoje se encontra com dificuldades em dar a volta.

    Atendendo à facilidade de acesso à informação as pessoas perderam a noção de que o jornalismo (clássico e que se segue por critérios éticos) acarreta elevados custos e o financiamento destes foi mudando e, acima de tudo, encurtando. A crise é natural.

    É fácil criticar o estado do jornalismo mas menos fácil é contribuir para a melhoria deste. Quantos dos que criticam contribuem com a compra de um jornal ou pagam uma assinatura digital?

    Com o enfraquecimento do jornalismo sai enfraquecida a democracia e ganham os populistas e extremistas.

    Os resultados são claros:

    • Maior desinformação: Sem acesso a jornalismo rigoroso, as pessoas tornam-se mais vulneráveis a teorias da conspiração e manipulações.
    • Debilidade da democracia: Cidadãos mal informados votam com base em mentiras ou emoções, o que fragiliza o processo democrático.
    • Diminuição do escrutínio público: Menor atenção dos media significa menos pressão sobre os poderosos — o que pode facilitar corrupção, abuso de poder ou decisões sem transparência.
    • Fragmentação social: Cada pessoa vive na sua “bolha” informativa, criando uma sociedade mais dividida e menos capaz de dialogar.

    Basta atentar aos resultados dos Estados Unidos e perceber o papel das redes sociais para a popularidade de Trump. Muitas vezes com o recurso a “fake news” e manipulação. A relação de muitos com o jornalismo é demonstrativa da forma como estão na sociedade. Enquanto uns procuram uma sociedade mais justa outros usam o ódio e o medo como combustível.

    Dito de outra forma. Diz-me como vês o jornalismo atual e eu te direi como votas.