• Stephen Miller: o ideólogo que transformou o trumpismo num método

    Durante anos, o debate público sobre os Estados Unidos concentrou-se quase exclusivamente em Donald Trump. A sua figura dominou o espaço mediático, absorveu atenções e tornou-se sinónimo de tudo o que parecia ameaçar a democracia liberal americana. Esse foco, porém, teve um efeito colateral: obscureceu quem, longe dos holofotes, transformou o impulso caótico do trumpismo num projeto político estruturado.

    Hoje, no segundo mandato de Trump, essa distinção tornou-se impossível de ignorar. As políticas são mais rápidas, mais duras e menos improvisadas. As resistências institucionais são menores. A exceção tornou-se rotina. E, no centro desse processo, surge uma figura que raramente procura protagonismo, mas cuja influência atravessa a imigração, a política interna, a política externa e o próprio funcionamento do Estado.

    Este texto não é sobre Donald Trump.
    É sobre Stephen Miller — e sobre o método que ajudou a normalizar.

    Não é Trump — é pior do que isso

    Durante quase uma década, a política americana habituou-se a olhar para Donald Trump como o centro de gravidade de tudo o que correu mal: o ruído constante, a imprevisibilidade, a quebra de normas, o desprezo pela linguagem institucional. Essa leitura, embora compreensível, tornou-se confortável. Personalizou o problema. Deu-lhe um rosto excessivamente visível.

    Stephen Miller é o contrário disso.

    Se Trump é instinto e espetáculo, Miller é método e persistência. Onde Trump improvisa, Miller sistematiza. Onde Trump reage, Miller prepara. E é precisamente por isso que a sua ascensão representa algo mais profundo do que a simples radicalização de um líder populista: representa a transformação do trumpismo numa doutrina operacional.

    Miller não depende do caos. Pelo contrário, aprende com ele. Retira-lhe as lições, elimina os obstáculos, corrige os erros de execução e constrói algo mais durável. Um poder menos ruidoso, mas mais eficaz. Menos personalista, mas mais institucionalizado.

    Durante o primeiro mandato de Trump, Miller foi frequentemente visto como um assessor extremista entre muitos outros. Hoje, é um dos poucos sobreviventes — e o mais influente. Não porque se tenha moderado, mas porque compreendeu melhor do que ninguém como funciona o poder num sistema que ainda se apresenta como democrático, mas já opera à base da exceção.

    Reduzir Stephen Miller a “o homem da imigração” é cometer o mesmo erro que, durante anos, levou muitos a subestimar o trumpismo: confundir o tema com o método. A imigração é apenas o campo onde Miller começou. O que ele construiu desde então é um modelo de governação.

    Um modelo que não precisa de tanques nem de golpes clássicos. Basta-lhe tempo, lealdade e a normalização progressiva do inaceitável.

    Uma ideologia antiga à espera de poder

    A tentação de explicar Stephen Miller como produto de Trump falha logo no ponto de partida. A sua visão do mundo estava formada muito antes de 2016 — e, mais importante, manteve-se extraordinariamente estável ao longo do tempo.

    Crescido em Santa Monica, num dos bastiões liberais da Califórnia, Miller construiu desde cedo uma identidade política por oposição. No liceu, fez-se notar como provocador conservador num ambiente maioritariamente progressista, atacando políticas multiculturais, denunciando o que chamava de complacência institucional e cultivando uma narrativa de decadência moral e social. Não era apenas rebeldia juvenil: era já uma leitura totalizante da sociedade.

    Na universidade, essa leitura ganhou densidade ideológica. Em Duke, Miller aproximou-se de círculos conservadores que viam a imigração não como um fenómeno económico ou humanitário, mas como um mecanismo de transformação política irreversível. A ideia era simples e obsessiva: sociedades que recebem imigração em larga escala deslocam-se inevitavelmente para a esquerda. A democracia, nesse quadro, deixa de ser um espaço de alternância e passa a funcionar como um sistema de “catraca”, sempre a rodar no mesmo sentido.

    É aqui que se forma o núcleo do pensamento de Miller: a democracia liberal só é aceitável enquanto produz os resultados “certos”. Quando deixa de o fazer, deve ser corrigida — não abolida, mas reprogramada.

    O encontro com Jeff Sessions, no Senado, deu-lhe finalmente um instrumento político. Como assessor, Miller começou a transformar convicções em linguagem administrativa: estatísticas selecionadas, narrativas de criminalidade, enquadramentos legais agressivos. O que muitos em Washington viam como exagero ou histeria ideológica era, na verdade, um ensaio geral. Miller estava a aprender a falar a língua do Estado.

    Quando Trump surge, não cria Miller. Reconhece-o. Encontra nele algo raro no seu ecossistema político: alguém capaz de dar forma coerente aos seus impulsos. Miller não precisava de ajustar a sua visão do mundo — precisava apenas de escala.

    Por isso, quando se fala hoje da radicalização do poder nos Estados Unidos, convém inverter a pergunta habitual. Não é até onde Trump foi levado por figuras como Miller. É até onde figuras como Miller conseguiram ir porque, finalmente, encontraram um presidente disposto a não lhes impor limites.

    Imigração como eixo absoluto

    Para Stephen Miller, a imigração nunca foi apenas uma política pública entre outras. É o ponto de articulação de toda a sua visão do mundo. Economia, cultura, segurança, identidade nacional e até legitimidade democrática convergem aqui. Tudo o resto é secundário.

    Ao contrário de muitos políticos que usam a imigração como bandeira eleitoral, Miller trata-a como um problema existencial. Não distingue de forma substantiva imigração legal e ilegal: ambas são vistas como mecanismos de transformação demográfica e, por consequência, política. A fronteira, neste enquadramento, não é apenas uma linha territorial — é uma linha civilizacional.

    Durante o primeiro mandato de Trump, Miller foi o principal arquiteto das políticas mais duras e controversas: a separação de crianças migrantes das famílias, a redução drástica do acesso ao asilo, o endurecimento dos critérios de imigração legal e a tentativa de banimento de cidadãos oriundos de países maioritariamente muçulmanos. Estas medidas foram muitas vezes apresentadas como respostas improvisadas a crises pontuais. Não eram. Faziam parte de um desenho coerente, ainda que juridicamente frágil.

    A resistência que encontrou — nos tribunais, na burocracia federal e até dentro da própria administração — ensinou-lhe uma lição fundamental: não bastava ter razão ideológica; era preciso controlar os instrumentos do Estado. Essa aprendizagem explica a diferença entre o Miller do primeiro mandato e o do segundo.

    No regresso ao poder, a abordagem tornou-se mais agressiva e mais sofisticada. O recurso a leis arcaicas, como o Alien Enemies Act de 1798, para justificar deportações sem garantias processuais, revela uma lógica clara: quando o direito contemporâneo impõe limites, procura-se no passado legal aquilo que permita contorná-los. A legalidade não é um quadro normativo a respeitar, mas um arsenal a explorar.

    Mais revelador ainda é o tom com que Miller fala da aplicação destas políticas. Não há ambiguidade, nem linguagem tecnocrática. Há entusiasmo. A imigração surge como o campo onde o Estado finalmente se liberta de constrangimentos morais e procedimentais e passa a agir com a dureza que, na sua visão, sempre lhe faltou.

    Neste ponto, Miller afasta-se até de Trump. Onde o presidente oscila entre impulsos contraditórios — endurecer, recuar, negociar — Miller insiste. Pressiona. Reverte recuos. A imigração é o terreno onde o seu poder se torna mais visível e onde a sua ideologia se impõe com maior clareza.

    Não é por acaso que tudo começa aqui. Para Miller, controlar quem entra é a condição prévia para controlar o que o país se torna. A partir daí, o resto segue quase naturalmente.

    Quando o Estado testa os seus próprios limites

    Há momentos em que o poder se revela não pelo que proclama, mas pelo que autoriza. O episódio envolvendo uma ativista que protestou junto à residência de Stephen Miller, nos subúrbios de Washington, é um desses momentos — não pela sua excecionalidade, mas pela sua banalidade administrativa.

    Uma ação de protesto local, envolvendo panfletos, palavras duras e gestos simbólicos, desencadeou uma resposta estatal que incluiu polícia local, polícia estadual, FBI e Secret Service. Um telemóvel foi apreendido. Seguiu-se uma disputa judicial complexa sobre liberdade de expressão, intimidação e segurança pessoal. Formalmente, tudo parecia enquadrado na legalidade. Substancialmente, algo mais profundo estava a acontecer.

    O caso não é relevante porque Stephen Miller tenha sido alvo de críticas — figuras públicas são-no todos os dias. É relevante porque mostra como o Estado reage quando o alvo é alguém como Miller. A máquina securitária move-se com uma rapidez e uma escala desproporcionadas, testando até onde pode ir sem provocar resistência institucional significativa.

    Nada disto exige ordens explícitas. Não há memorandos assinados, nem instruções diretas. Basta o enquadramento discursivo: protestos passam a ser lidos como ameaças; ativismo como potencial terrorismo; crítica política como risco à segurança nacional. A linguagem faz o trabalho antes da lei.

    É aqui que se percebe a verdadeira eficácia de Miller. Ele não precisa de suspender direitos — basta tornar ambígua a fronteira entre o legítimo e o suspeito. Quando essa fronteira se esbate, o efeito disciplinador instala-se. Outros ativistas observam. Jornalistas tomam nota. Instituições locais aprendem a antecipar o que é esperado delas.

    Este é um ponto crucial para compreender o autoritarismo contemporâneo. Não se trata de repressão massiva, mas de exemplos cirúrgicos. Casos suficientemente visíveis para enviar um sinal, suficientemente complexos para evitar uma reação imediata. O custo de protestar sobe. O risco jurídico aumenta. A autocensura faz o resto.

    O mais significativo é que este episódio encaixa perfeitamente na visão de mundo de Miller. Um mundo permanentemente ameaçado, onde a dissidência não é um elemento constitutivo da democracia, mas uma vulnerabilidade a explorar. A segurança deixa de ser uma função do Estado e passa a ser o seu argumento supremo.

    Quando o Estado começa a testar os seus próprios limites em nome da proteção de figuras do poder, não está apenas a reagir a um contexto de polarização. Está a ensaiar um novo normal. Um normal onde a exceção deixa de ser exceção — e onde figuras como Stephen Miller não apenas beneficiam desse processo, mas o aceleram.

    O mundo governado pela força

    A entrada de Stephen Miller no centro da política externa americana não representa uma rutura com o seu percurso anterior. Representa a sua extensão lógica. A mesma visão que molda a imigração e a repressão interna passa agora a organizar a forma como os Estados Unidos se posicionam no mundo.

    Quando Miller afirma, sem rodeios, que o mundo é governado pela força, não está a recorrer a uma hipérbole televisiva. Está a enunciar uma ontologia política. Para ele, normas internacionais, alianças multilaterais e compromissos diplomáticos não são pilares de estabilidade, mas ilusões confortáveis que escondem a verdadeira natureza das relações internacionais: hierarquia, coerção e dominação.

    Nesta leitura, a política externa deixa de ser um espaço de mediação entre interesses divergentes e passa a ser um instrumento de imposição. Países aliados são avaliados em termos de utilidade imediata. Instituições como a NATO ou a ONU surgem como constrangimentos, não como ativos estratégicos. O direito internacional transforma-se num obstáculo a contornar, não numa referência a respeitar.

    Os episódios envolvendo a Gronelândia e a Venezuela são particularmente reveladores. A ideia de anexar ou controlar territórios de aliados, ou de intervir militarmente para garantir acesso a recursos naturais, é apresentada não como exceção extrema, mas como opção legítima. A linguagem é deliberadamente crua. Não há esforço para disfarçar ambições com retórica humanitária ou democrática. A força é assumida como princípio organizador.

    Importa sublinhar que isto não corresponde a um isolacionismo clássico. Miller não defende o recuo americano do mundo, mas a sua reconfiguração imperial. Os Estados Unidos não devem retirar-se — devem impor-se. A seletividade substitui o compromisso: envolvimento quando há ganhos claros, abandono quando os custos superam os benefícios.

    Esta visão externa reforça, por espelhamento, a lógica interna. Um Estado que se vê como permanentemente ameaçado no exterior tende a justificar a compressão de direitos no interior. Um mundo descrito como hostil legitima um poder executivo fortalecido, pouco paciente com dissenso e avesso a limitações legais.

    Ao projetar para fora a sua visão de conflito permanente, Miller fecha o círculo ideológico. A política externa deixa de ser um domínio separado e passa a funcionar como continuação da guerra cultural por outros meios. O inimigo muda de nome e de geografia, mas a lógica permanece intacta.

    Neste quadro, o mais inquietante não é a brutalidade da linguagem, mas a sua coerência. Stephen Miller não improvisa uma política externa agressiva. Ele aplica ao mundo a mesma grelha mental que já aplicou às fronteiras, às instituições e à própria sociedade americana.

    O método: inundar, contornar, sobreviver

    Se a ideologia explica o que Stephen Miller quer, o método explica como consegue avançar apesar das resistências. E é aqui que o seu papel se torna verdadeiramente decisivo. Miller não é apenas um ideólogo convicto — é um operador burocrático altamente eficaz, que aprendeu a usar o próprio sistema contra si mesmo.

    A primeira regra é simples: inundar. Em vez de uma grande rutura frontal, Miller privilegia uma sucessão rápida de decisões, decretos, anúncios e ameaças legais. A lógica é a da saturação. Tribunais, media, organizações civis e até a própria burocracia federal têm recursos limitados. Quando tudo acontece ao mesmo tempo, torna-se impossível reagir a tudo com igual intensidade. O excesso cria cansaço. O cansaço cria normalização.

    A segunda regra é o contorno. Sempre que possível, Miller evita os mecanismos clássicos de escrutínio. Reduz a produção de registos escritos, trabalha através de intermediários, recorre a equipas jurídicas externas e mantém distância deliberada de estruturas como o Office of Legal Counsel. Não se trata de ignorar a lei, mas de escolher o terreno onde a lei é mais frágil, mais ambígua ou mais lenta.

    Este método não procura vitórias jurídicas limpas. Procura tempo. Mesmo quando uma medida é bloqueada, o simples facto de ter sido implementada — ainda que temporariamente — produz efeitos reais: deportações realizadas, fundos congelados, programas interrompidos, comportamentos alterados. A reversão judicial chega sempre tarde demais para quem já sofreu as consequências.

    A terceira regra é a sobrevivência política. Miller aprendeu cedo que, num sistema personalista como o de Trump, a lealdade vale mais do que a coerência momentânea. Nunca confronta o presidente em público. Ajusta-se taticamente quando necessário. Sacrifica aliados quando estes deixam de ser úteis. O objetivo não é ter razão em cada batalha, mas permanecer no centro do poder.

    Fora do governo, o método mantém-se. A criação de uma máquina jurídica e mediática paralela permite-lhe pressionar a partir de fora, preparar o regresso e moldar o terreno político antes mesmo de voltar a ocupar cargos formais. A fronteira entre Estado, partido e sociedade civil torna-se deliberadamente difusa.

    Este é talvez o traço mais subestimado de Stephen Miller: a sua paciência estratégica. Enquanto outros capitalizam a notoriedade imediata, ele constrói infraestruturas. Enquanto o debate público se fixa em polémicas diárias, ele consolida precedentes. O poder, para Miller, não é um momento — é um processo.

    É por isso que a sua influência resiste às mudanças de ciclo, às derrotas temporárias e até ao desgaste do próprio Trump. O método não depende do carisma. Depende da repetição, da ambiguidade e da erosão lenta das barreiras institucionais.

    Quando se olha para o conjunto, torna-se claro que o maior perigo não reside numa medida específica, mas na rotina que o método instala. Uma rotina onde a exceção é constante, o escrutínio é tratado como entrave e a sobrevivência do poder se torna o critério supremo da ação política.

    Millerismo é mais coerente do que Trumpismo

    Comparar Stephen Miller a Donald Trump é inevitável, mas insuficiente. A relação entre ambos não é de mera influência ou dependência. É uma relação funcional, em que cada um fornece ao outro aquilo que lhe falta. Trump oferece legitimidade eleitoral, instinto político e capacidade de mobilização emocional. Miller oferece coerência, continuidade e execução.

    Trump é, por natureza, contraditório. Oscila entre posições, reage ao momento, negocia consigo próprio. Pode endurecer num dia e recuar no seguinte, tanto por cálculo como por cansaço. Miller, pelo contrário, é persistente. Mantém o rumo mesmo quando o ambiente político muda. Pressiona quando há recuos. Reaparece quando o tema parece esgotado. A sua visão do mundo não depende do ciclo noticioso.

    É por isso que, em vários momentos, o impulso mais radical não parte de Trump, mas de Miller. Na imigração, sobretudo, o padrão repete-se: Trump hesita perante custos económicos ou eleitorais; Miller insiste, enquadra, dramatiza e empurra a decisão para o limite. Onde Trump vê uma negociação, Miller vê uma oportunidade perdida.

    Esta diferença é fundamental para compreender o risco político que representa. Trump pode ser contido por tribunais, por eleições ou pelo seu próprio desinteresse. Miller não. Ele trabalha com horizontes longos. Aprende com derrotas. Ajusta o método sem abandonar o objetivo. O que hoje parece excessivo pode amanhã parecer apenas mais uma etapa.

    Neste sentido, faz sentido falar de millerismo como algo distinto do trumpismo. Um corpo de ideias mais consistente, menos dependente do carisma pessoal e mais adaptável às engrenagens institucionais. Um projeto que sobrevive a Trump porque nunca dependeu inteiramente dele.

    Isso não significa que Miller seja independente do presidente. Pelo contrário: a sua força reside precisamente na capacidade de se fundir com a vontade de Trump, de a antecipar e de a radicalizar sem nunca a desafiar frontalmente. A lealdade é absoluta, mas instrumental. Serve para preservar acesso, não para abdicar de ambição.

    O paradoxo é este: ao tornar o trumpismo mais coerente, Miller torna-o também mais perigoso. Retira-lhe o caráter errático que permitia resistências pontuais e substitui-o por uma lógica de acumulação gradual. O caos deixa de ser um acidente. Passa a ser uma ferramenta.

    Quando se olha para o conjunto, percebe-se que o verdadeiro legado de Trump pode não ser Trump. Pode ser a consolidação de um método político que outros, mais disciplinados e menos visíveis, poderão continuar a aplicar. Stephen Miller é, hoje, o exemplo mais acabado desse processo.

    Conclusão: o autoritarismo sem tanques

    O autoritarismo contemporâneo raramente chega de rompante. Não precisa de tanques nas ruas, de parlamentos dissolvidos ou de constituições rasgadas em direto. Chega de forma mais discreta, mais eficiente e, por isso mesmo, mais difícil de identificar enquanto ainda é reversível.

    Stephen Miller encarna esse modelo.

    Nada no seu percurso aponta para a rejeição explícita da democracia. Pelo contrário, ele opera dentro das suas formas, usando leis, cargos, procedimentos e linguagem institucional. O que muda não é o vocabulário, mas o conteúdo. Direitos tornam-se condicionais. Regras transformam-se em obstáculos. A exceção deixa de ser resposta a uma crise e passa a ser método de governação.

    O perigo não está numa medida isolada, por mais dura que seja. Está na acumulação. Na repetição. Na normalização progressiva do que antes seria impensável. Cada passo, tomado isoladamente, pode ser explicado, justificado ou relativizado. O conjunto, porém, revela uma transformação profunda da relação entre o Estado, o cidadão e a lei.

    Miller não precisa de destruir instituições. Basta-lhe habituá-las a funcionar de outra maneira. Um pouco menos de escrutínio aqui. Um pouco mais de força ali. Um desvio legal temporário que se prolonga. Um precedente criado “em nome da segurança”. Com o tempo, o sistema adapta-se. E quando se adapta, já não regressa facilmente ao ponto de partida.

    É por isso que o foco exclusivo em Donald Trump é insuficiente. Trump pode sair de cena, perder eleições ou simplesmente cansar-se. O método que figuras como Stephen Miller ajudaram a consolidar não desaparece com a mesma facilidade. Fica. Aprende. Espera.

    O autoritarismo moderno não se anuncia como tal. Apresenta-se como eficiência, ordem, realismo. Mantém as palavras da democracia enquanto esvazia o seu sentido. E é precisamente por isso que exige vigilância não apenas sobre os líderes visíveis, mas sobre os engenheiros silenciosos do poder.

    Stephen Miller não quer destruir a democracia americana. Quer torná-la irreconhecível — preservando-lhe o nome, mas alterando-lhe a substância. É nesse terreno, mais do que no espetáculo diário da política, que se decide o futuro.


    Referências

  • Irão: um regime que resiste, mas já não integra

    O Irão voltou às ruas. Mais uma vez, a faísca foi económica: inflação galopante, colapso do rial, salários incapazes de acompanhar o custo de vida. Mais uma vez, a resposta foi previsível: repressão, detenções em massa, mortos, apagões quase totais da Internet. E, como tantas vezes desde 1979, o que começou como protesto social rapidamente se transformou em contestação política frontal.

    Nada disto é novo. O que é novo — ou, pelo menos, cada vez mais evidente — é o esgotamento estrutural da relação entre o regime e a sociedade iraniana.

    Da crise económica à rejeição política

    A economia iraniana vive há anos sob pressão extrema, resultado de sanções internacionais, má gestão interna e de um modelo profundamente capturado por interesses político-religiosos e militares. A inflação deixou de ser um indicador macroeconómico para se tornar uma experiência quotidiana de empobrecimento acelerado. Quando o preço dos alimentos e dos medicamentos dispara, a política deixa de ser abstracta.

    Mas o padrão repete-se: a contestação económica não encontra canais institucionais de mediação. Não há mecanismos credíveis que permitam absorver o conflito social. E, quando isso acontece, a crítica deixa de ser dirigida às políticas e passa a ser dirigida ao próprio regime.

    Os slogans ouvidos nas ruas já não pedem reformas. Pedem o fim do sistema. Em alguns casos, rejeitam não apenas a teocracia, mas qualquer forma de autoritarismo — sinal de uma sociedade que perdeu a fé não apenas nos governantes, mas no modelo de poder.

    A repressão como método — e como corrosão

    A resposta do Estado iraniano continua a assentar num guião conhecido: força bruta, controlo da informação, isolamento do país do exterior. O corte da Internet não é um detalhe técnico; é um instrumento político central. Impede a coordenação dos protestos, dificulta a circulação de imagens e protege o regime do escrutínio internacional.

    Mas há aqui um paradoxo que se repete: cada vaga de repressão salva o regime no curto prazo e enfraquece-o no longo prazo. Ao esmagar protestos sucessivos, o poder não resolve o conflito — apenas o adia, acumulando ressentimento e deslegitimação.

    É por isso que o Irão vive num ciclo quase permanente de contestação. O regime sobrevive, mas fá-lo à custa de se tornar cada vez mais estranho à sociedade que governa.

    Uma clivagem geracional irreversível

    Talvez o factor mais decisivo seja geracional. A maioria dos jovens iranianos nasceu muito depois da Revolução de 1979. Não viveu a queda do xá, nem o momento fundacional da República Islâmica. Cresceu, isso sim, sob sanções, vigilância moral, restrições sociais e ausência de perspectivas económicas.

    Para esta geração, a teocracia já não é um projecto político — é um obstáculo. A religião, em si, não está necessariamente em causa; o que está em causa é a sua instrumentalização como sistema de poder fechado, incapaz de oferecer futuro, prosperidade ou liberdade mínima.

    Quando um regime deixa de conseguir integrar as novas gerações, deixa também de conseguir renovar a sua legitimidade.

    A dimensão feminista — e o desconforto no Ocidente

    Há ainda uma dimensão incontornável nestes protestos que o debate internacional tende a tratar com cautela excessiva: a centralidade das mulheres. Desde 2022, e de forma ainda mais clara agora, são elas que desafiam directamente o coração simbólico da teocracia — o controlo do corpo, da aparência, da vida privada. Não se trata apenas de direitos civis; trata-se de autonomia existencial.

    É por isso que alguns falam numa das mais significativas revoltas feministas contemporâneas. Não porque use a linguagem académica do feminismo ocidental, mas porque é vivida no terreno, sob risco real, contra um poder que se legitima precisamente em nome da “proteção” das mulheres. E é aqui que surge um desconforto visível em parte do feminismo ocidental: o caso iraniano obriga a confrontar a opressão quando ela não vem disfarçada de patriarcado liberal, mas de tradição, religião e soberania cultural.

    Não houve silêncio absoluto — houve solidariedade, protestos, palavras. Mas houve também hesitação, ambiguidade, dificuldade em integrar esta luta em quadros ideológicos habituais. Apoiar plenamente as mulheres iranianas implica rejeitar tanto o paternalismo externo como o relativismo cultural. Implica aceitar que a libertação não é um conceito ocidental exportável, mas também não pode ser negada em nome da autenticidade cultural. As mulheres iranianas não pedem para ser salvas; pedem para não serem silenciadas.

    Um regime que resiste, mas já não governa

    A República Islâmica do Irão não está à beira de cair. Controla os aparelhos de segurança, domina os mecanismos de repressão e não enfrenta uma oposição organizada capaz de capitalizar o descontentamento popular.

    Mas há algo que parece cada vez mais claro: o regime já não governa no sentido pleno do termo. Administra, reprime, sobrevive — mas não integra, não convence, não mobiliza.

    Cada protesto esmagado deixa menos espaço para a reconciliação entre Estado e sociedade. Cada apagão informativo revela medo, não força. Cada jovem que sai à rua sabendo o risco que corre é um sinal de que a obediência deixou de ser automática.

    O factor externo e o paradoxo da intervenção

    A este quadro junta-se ainda um factor externo potencialmente decisivo: a retórica de intervenção vinda de Washington. As ameaças do presidente Donald Trump, surgidas após a intervenção americana na Venezuela, não enfraquecem automaticamente o regime iraniano — podem, pelo contrário, reforçá-lo. A história mostra que a pressão militar ou a promessa de “salvação externa” tende a reactivar reflexos nacionalistas e a oferecer às teocracias um argumento poderoso: o da defesa da soberania contra o inimigo estrangeiro.

    Para um regime que já governa mais pelo medo do que pelo consentimento, essa narrativa é um recurso precioso. O paradoxo é claro: quanto mais o Irão é ameaçado de fora, mais fácil se torna para o poder justificar a repressão interna. Se a República Islâmica vier a mudar, dificilmente será por imposição externa; será porque, a prazo, já não consegue reconciliar repressão permanente com uma sociedade que deixou de aceitar o silêncio como destino.

  • Entre a soberania abstrata e a libertação ilusória

    O debate em torno da intervenção norte-americana na Venezuela cristalizou rapidamente em dois campos opostos, ambos convictos da sua superioridade moral e ambos, paradoxalmente, incompletos. De um lado, os que condenam a ação dos Estados Unidos em nome da soberania e do direito internacional, muitas vezes reproduzindo — conscientemente ou não — narrativas alinhadas com o regime venezuelano ou com a propaganda russa. Do outro, os que defendem a intervenção como imperativo moral, relativizando regras, processos e consequências em nome da libertação de um povo oprimido.

    Ambas as leituras contêm elementos de verdade. Ambas falham por ausência de contrapeso.

    A crítica à intervenção americana não é ilegítima. A ação foi unilateral, sem mandato internacional, contornando mecanismos institucionais internos nos próprios Estados Unidos e assumindo abertamente interesses económicos estratégicos. A normalização deste método enfraquece a ordem internacional baseada em regras e cria precedentes que outras potências — menos escrutinadas e menos constrangidas — podem explorar. Ignorar este risco é fechar os olhos ao mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse.

    Mas esta crítica transforma-se em cinismo quando reduz a tragédia venezuelana a um detalhe secundário. Defender a soberania como escudo absoluto, abstraindo fome, repressão, fraude eleitoral e exílio em massa, é inverter o sentido do direito internacional. A soberania existe para proteger sociedades, não regimes. Quando se torna argumento para a inércia, deixa de ser princípio e passa a ser álibi.

    Do lado oposto, a defesa da intervenção como libertação moral incorre num erro simétrico. Reconhecer que a soberania não é absoluta não equivale a legitimar qualquer ação que a viole. A história recente mostra que a força externa pode derrubar líderes, mas raramente cria legitimidade política. No caso venezuelano, não há mudança de regime, não há alívio imediato da tragédia humanitária, não há abertura política visível. O aparelho repressivo mantém-se, agora sob nova tutela. A promessa de libertação não encontrou, até agora, confirmação nos factos.

    Além disso, minimizar o peso dos interesses económicos é um erro de escala. Eles não são acessórios; são estruturantes. Quando a extração de recursos e a governação prolongada são assumidas como horizonte, a intervenção deixa de ser exceção humanitária e passa a ser exercício de poder. A pureza das intenções nunca foi critério suficiente no direito internacional — e não o pode ser agora.

    O problema central deste debate não é escolher um lado, mas recusar a falsa alternativa que ele propõe. Não se trata de optar entre soberania abstrata e força libertadora. Trata-se de reconhecer que sem regras, a força corrói; sem política, a libertação é ilusória; sem contrapesos, a moral transforma-se em instrumento de poder.

    A equidistância ideológica não é neutralidade moral. É exigência analítica. Significa recusar tanto a complacência com regimes autoritários quanto a absolvição automática de intervenções unilaterais. Significa olhar para os efeitos no terreno, para o tempo longo e para os precedentes criados — não apenas para as intenções declaradas ou para os alinhamentos ideológicos.

    A Venezuela não precisa de ser instrumentalizada por nenhuma narrativa externa. Precisa de política, legitimidade e alívio humano real. Enquanto o debate continuar sequestrado por leituras sem contrapeso, continuará a falhar exatamente aquilo que diz defender.


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    A promessa da libertação vs. a realidade no terreno

    A captura de Nicolás Maduro foi apresentada como um momento de rutura. Para muitos, dentro e fora da Venezuela, abriu-se a expectativa de que um ciclo autoritário chegara finalmente ao fim. As primeiras reações internacionais — sobretudo na Europa — refletiram essa cautelosa esperança: falou-se em oportunidade, em transição possível, em libertação adiada mas finalmente ao alcance.

    Mas os factos no terreno contam uma história menos otimista.

    Nos dias que se seguiram à saída de Maduro, não houve sinais claros de abertura política. Pelo contrário, foi decretado um estado de emergência, a presença das forças de segurança intensificou-se e multiplicaram-se relatos de detenções arbitrárias, vigilância sobre jornalistas e intimidação de cidadãos que celebraram publicamente a queda do antigo líder. O aparelho repressivo não foi desmontado; foi reconfigurado.

    Ao mesmo tempo, a crise social que há anos marca o quotidiano venezuelano manteve-se intacta. A maioria da população continua a ter dificuldade em garantir alimentação básica, o mercado de trabalho permanece profundamente informal e a degradação dos serviços públicos — eletricidade, água, transportes — não conheceu qualquer melhoria imediata. Para quem vive no país, a mudança no topo do poder não se traduziu numa mudança na vida.

    Este desfasamento entre discurso e realidade é crucial. A narrativa da “operação benigna” assenta na ideia de que remover um líder autoritário cria, quase automaticamente, espaço para a liberdade e para a reconstrução. Mas a experiência venezuelana sugere algo diferente: a operação alterou a hierarquia do poder, não a natureza do regime.

    É a partir daqui que a análise se torna inevitável. Porque, se a promessa de libertação não encontra confirmação nos factos mais imediatos, então a questão central deixa de ser quem caiu — e passa a ser o que realmente mudou.

    Quando a força substitui a política

    A tentação de ler a Venezuela como um caso excecional é grande. Um regime isolado, uma economia em colapso, uma crise humanitária prolongada — tudo parece justificar medidas fora do comum. Mas a história recente mostra que este tipo de intervenção segue um padrão conhecido, testado e repetidamente falhado.

    No Afeganistão, a intervenção liderada pelos Estados Unidos derrubou rapidamente o regime talibã após os ataques de 11 de setembro. Seguiram-se duas décadas de construção institucional apoiada por forças externas, investimento massivo e presença militar permanente. Ainda assim, quando essas forças se retiraram, o edifício político colapsou quase de imediato. O problema não foi a falta de recursos, mas a ausência de uma ordem política enraizada no consentimento interno.

    O Iraque oferece uma variação diferente do mesmo erro. Após a invasão de 2003, os Estados Unidos assumiram responsabilidades que iam muito além da segurança: eletricidade, água, emprego, administração e reconciliação política. A lógica era simples — e profundamente equivocada: a coerção, combinada com gestão tecnocrática, seria suficiente para produzir uma transição democrática rápida. O resultado foi previsível. Ao assumir a governação, a potência ocupante tornou-se o foco natural da resistência, independentemente das suas intenções declaradas.

    A Líbia mostrou um terceiro modo de falhar. A intervenção internacional removeu o ditador, mas não foi seguida por qualquer estrutura de governação funcional. O vazio de poder abriu caminho à fragmentação, ao domínio de milícias e a um conflito prolongado sobre soberania e recursos que ainda hoje não encontrou solução.

    O fio comum entre estes casos não é a má execução de boas ideias, mas uma ilusão recorrente: a crença de que a força externa pode substituir a política interna. Derrubar um regime é um ato militar; criar legitimidade é um processo social e histórico. Confundir um com o outro tem sido uma das constantes mais caras da política internacional das últimas décadas.

    É neste contexto que a Venezuela deve ser lida. Não como um desvio trágico, mas como mais um capítulo de uma lógica que privilegia a ação rápida e visível sobre a construção lenta e incerta da legitimidade. A questão, portanto, não é se a força pode alterar o equilíbrio de poder — isso é evidente. A questão é se pode criar uma ordem política estável. A experiência acumulada sugere que não.

    Quando a política falha, é o futuro que fica em suspenso.
    Por Alex dos Santos

    A Venezuela como novo manual (não como exceção)

    O erro mais comum na leitura da intervenção na Venezuela é tratá-la como um caso extremo, ditado por circunstâncias igualmente extremas. Essa leitura é confortável, mas enganadora. O que está em causa não é uma resposta improvisada a uma crise singular, mas a aplicação de um método que começa a repetir-se com variações mínimas.

    Na Venezuela, esse método tornou-se particularmente visível. A decisão foi tomada de forma unilateral, à margem de qualquer mandato internacional claro e contornando mecanismos de escrutínio interno. As instituições multilaterais surgem apenas como cenário secundário, não como espaço de decisão. A legalidade deixa de ser condição prévia e passa a ser um argumento instrumental, usado quando convém e ignorado quando atrapalha.

    Ao mesmo tempo, a linguagem adotada abandona qualquer ambiguidade. O controlo de recursos — em particular do petróleo — deixa de ser subtexto e passa a ser texto. A governação externa é assumida como possibilidade prolongada, não como exceção temporária. A soberania transforma-se numa variável negociável, dependente da cooperação com os interesses da potência interveniente.

    Este conjunto de elementos define algo novo. Não estamos perante uma intervenção justificada por um quadro normativo partilhado, nem por uma coligação alargada que dilua responsabilidades e imponha limites. Estamos perante um manual operacional: agir rápido, agir sozinho, garantir recursos estratégicos, estabilizar pela força e adiar indefinidamente a questão da legitimidade política.

    É por isso que a Venezuela não pode ser lida como um desvio. Ela cristaliza uma lógica que já estava em formação: a substituição das regras por precedentes, do multilateralismo pela demonstração de poder, da política pela gestão coerciva. O facto de esta lógica ser agora assumida de forma explícita — e não disfarçada por retórica humanitária — torna-a ainda mais relevante.

    Neste quadro, a pergunta deixa de ser se a intervenção foi bem-sucedida no curto prazo. A pergunta passa a ser outra: que tipo de ordem internacional se constrói quando a exceção se transforma em método. A resposta não está apenas na Venezuela, mas no precedente que ela estabelece — e no silêncio, ou aceitação tácita, de quem poderia contestá-lo.

    A Europa perante o espelho

    A reação europeia à intervenção na Venezuela foi marcada por prudência e ambiguidade. Em vez de uma condenação clara ou de uma avaliação baseada em princípios, surgiram declarações cautelosas sobre oportunidades, transições possíveis e a necessidade de acompanhar os desenvolvimentos no terreno. Essa linguagem não é acidental. Reflete uma dificuldade mais profunda da União Europeia em lidar com violações da ordem internacional quando estas partem de aliados estratégicos.

    A União Europeia tem sido firme — e corretamente — na condenação da invasão russa da Ucrânia. Invoca o direito internacional, a soberania dos Estados e a inadmissibilidade do uso da força para alterar fronteiras ou impor vontades políticas. Esse posicionamento foi acompanhado por sanções, apoio político e uma narrativa consistente sobre a defesa de regras comuns.

    O contraste com a Venezuela é evidente. Perante uma intervenção unilateral, sem mandato internacional e com intenções de governação prolongada assumidas, a resposta europeia foi hesitante. A linguagem jurídica deu lugar a fórmulas vagas, e a defesa de princípios universais cedeu espaço à conveniência diplomática. A regra manteve-se no discurso; a sua aplicação tornou-se seletiva.

    Este duplo critério tem custos. Quando a União Europeia aplica as regras de forma desigual, fragiliza a sua própria autoridade normativa. A crítica à violação da soberania perde força quando depende do autor da violação. E a ordem internacional baseada em regras transforma-se, aos olhos de muitos, num sistema de exceções toleradas.

    É aqui que emerge um dos dilemas centrais do projeto europeu. A União foi construída para conciliar interesses, gerir divergências e evitar conflitos internos. Mas essa vocação conciliadora torna-se um problema quando se estende à negociação implícita de princípios fundamentais. Conciliar no método não pode significar negociar as regras.

    A Venezuela coloca a Europa perante um espelho desconfortável. A questão já não é apenas o que os Estados Unidos fazem, mas o que a União Europeia está disposta a aceitar em silêncio. E esse silêncio, mais do que qualquer declaração, ajuda a definir o tipo de ator internacional que a Europa se tornou — e o tipo de ordem que está disposta a tolerar.

    O erro fatal: confundir intervenção com governação

    Intervir é um ato de força. Governar é um processo político. A confusão entre estas duas dimensões está no centro das falhas mais graves das intervenções externas das últimas décadas — e a Venezuela não parece escapar a esse padrão.

    O país parte de uma situação particularmente frágil. A infraestrutura encontra-se degradada, os serviços públicos funcionam de forma intermitente e a economia informal tornou-se o principal meio de sobrevivência para grande parte da população. Neste contexto, qualquer poder que assuma funções de governação herda automaticamente um conjunto de responsabilidades impossíveis de cumprir a curto prazo.

    A consequência é previsível. Cada apagão, cada escassez de alimentos, cada falha administrativa deixa de ser atribuída ao passado e passa a ser imputada a quem governa no presente. A distinção entre herança estrutural e gestão atual perde relevância quando a vida quotidiana continua marcada pela precariedade. O que começa como libertação rapidamente se transforma em ocupação aos olhos da população.

    Este mecanismo não depende de intenções. Mesmo uma intervenção bem financiada e tecnicamente competente enfrenta o mesmo problema de base: a ausência de legitimidade interna. Sem consentimento político, a governação externa cria resistência simplesmente por existir. Quanto mais funções assume, mais alvos gera; quanto mais tenta corrigir falhas sistémicas, mais se torna responsável por elas.

    Além disso, a governação prolongada acarreta custos estratégicos que vão muito além do caso venezuelano. Normaliza a tutela externa como solução aceitável, enfraquece a distinção entre ajuda e controlo e torna cada vez mais difícil defender princípios como soberania e autodeterminação noutros contextos. O precedente pesa mais do que a intenção.

    É por isso que a questão central não é apenas se a intervenção pode estabilizar a Venezuela no curto prazo. A questão é se pode fazê-lo sem se tornar prisioneira das mesmas dinâmicas que minaram experiências anteriores. A história recente sugere que, quando a força substitui a política, o fracasso não é uma possibilidade remota — é uma consequência provável.

    Imagem em domínio público — Retrato presidencial oficial de Donald J. Trump (2025), por Daniel Torok. Fonte: White House / Wikimedia Commons.

    O que realmente está em jogo

    A intervenção na Venezuela não é apenas um episódio latino-americano nem um caso isolado de política externa agressiva. O que está em jogo é algo mais profundo: a normalização de uma ordem internacional onde a força deixa de ser exceção e passa a ser método, e onde a soberania se torna condicional.

    Quando uma grande potência assume abertamente o direito de intervir, governar e explorar recursos de outro Estado sem mandato internacional, não está apenas a resolver um problema específico. Está a estabelecer um precedente. Esse precedente não se limita à Venezuela. Ele ecoa noutras regiões, noutras crises e noutras ambições.

    Num sistema assim, as regras deixam de ser universais. Passam a depender de quem age, de quem observa e de quem decide reagir — ou não. A distinção entre legalidade e conveniência dilui-se, e o direito internacional transforma-se num instrumento seletivo, invocado contra adversários e relativizado perante aliados.

    Este deslizamento tem consequências cumulativas. Enfraquece os mecanismos multilaterais, incentiva respostas simétricas por parte de outras potências e reduz o espaço para soluções negociadas. Quando a exceção se torna prática recorrente, o sistema deixa de oferecer previsibilidade — e a instabilidade torna-se estrutural.

    Para a Europa, este cenário é particularmente problemático. Sem autonomia estratégica suficiente para impor alternativas e sem coesão política para falar a uma só voz, a União vê-se empurrada para um papel reativo. Defende regras que já não consegue garantir e valores que aplica de forma desigual. O resultado não é apenas perda de influência, mas perda de credibilidade.

    No fundo, a Venezuela expõe uma verdade desconfortável: a ordem internacional não está a ser substituída por outra mais justa ou mais eficaz. Está a ser esvaziada. E num mundo onde as regras se tornam opcionais, a força não cria estabilidade — apenas redistribui a insegurança.

    Conclusão

    A questão colocada pela intervenção na Venezuela não é apenas se ela foi eficaz, nem sequer se era necessária. A questão mais profunda é que tipo de mundo se constrói quando a força substitui as regras, quando a governação externa se normaliza e quando a legitimidade passa a ser tratada como um detalhe técnico.

    A experiência recente mostra que derrubar regimes é mais fácil do que construir ordens políticas estáveis. Mostra também que a tutela prolongada não liberta sociedades, apenas transfere responsabilidades — e ressentimentos. O libertador transforma-se rapidamente no ocupante, não por intenção, mas por função.

    Ao agir de forma unilateral, contornando instituições nacionais e internacionais e assumindo abertamente interesses materiais como motor da intervenção, os Estados Unidos não apenas alteraram o destino imediato da Venezuela. Contribuíram para enfraquecer um sistema já frágil de regras comuns. E ao reagir com ambiguidade, a Europa confirmou a sua dificuldade em defender princípios quando estes se tornam incómodos.

    A Venezuela, assim, não é um desvio trágico nem um acidente histórico. É um sinal. Um sinal de uma ordem internacional em erosão, onde a exceção se transforma em método e a força ocupa o espaço deixado pela política.

    A história sugere que este caminho não conduz à estabilidade nem à segurança. Conduz, isso sim, a um mundo mais imprevisível, mais desigual e mais propenso ao conflito. Reconhecer isso não é um exercício de pessimismo — é uma condição mínima para voltar a pensar a política internacional com seriedade.

  • A Venezuela não é um desvio. É o novo manual.

    A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, em janeiro de 2026, foi apresentada como uma operação cirúrgica contra um regime autoritário. Mas lida à luz dos próprios documentos estratégicos dos Estados Unidos — e da reação internacional — torna-se evidente que não estamos perante um episódio isolado.

    Estamos perante a consolidação de um novo padrão de atuação das grandes potências: um manual onde capacidade, interesse e precedentes substituem soberania, regras e legitimidade internacional.


    O precedente explícito

    Segundo o New York Times, a intervenção na Venezuela foi justificada pela chamada Trump Corollary, inscrita na mais recente National Security Strategy, que afirma o direito dos Estados Unidos a “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.

    “The precedent he has set, which is that larger powers move in on smaller powers and then command their resources, is something you could easily imagine Xi Jinping or Vladimir Putin exploiting in Taiwan or Ukraine.”

    — New York Times

    Este ponto é crucial: precedentes estratégicos não são morais — são imitáveis. Ao normalizar a lógica de que potências maiores podem intervir em Estados menores para controlar recursos e governos, Washington redefine as regras para todos.


    → New York Times — Global Implications of the Venezuela Intervention


    De Caracas a Copenhaga: o tabuleiro alarga-se

    No mesmo momento em que a Venezuela era apresentada como caso resolvido, a ameaça norte-americana de anexar a Gronelândia desencadeava uma crise diplomática com a Dinamarca — um aliado da NATO.

    A primeira-ministra dinamarquesa foi clara: um ataque dos EUA a um país da NATO significaria o colapso da aliança e da própria arquitetura de segurança europeia.

    O New York Times sublinha o ponto mais perturbador: se os Estados Unidos reclamam uma esfera exclusiva no Hemisfério Ocidental, não esclarecem por que razão China e Rússia não poderiam fazer o mesmo noutras regiões.


    → New York Times — Trump, Greenland and the NATO Crisis


    Cuba: pressão sistémica em vez de invasão

    O Washington Post acrescenta uma terceira peça ao tabuleiro. Com a queda de Maduro, os EUA avançam para uma estratégia de estrangulamento energético e político de Cuba, explorando a dependência histórica da ilha do petróleo venezuelano.

    Sem invasão direta, a lógica é clara: colapso económico, pressão social e eventual mudança de regime — não por via democrática, mas por exaustão estrutural.


    → Washington Post — Cuba Enters the Crosshairs


    Conclusão: o novo manual

    A Venezuela não é um desvio tático nem uma exceção circunstancial. É a aplicação prática de uma doutrina que abandona a linguagem das regras universais e assume, sem disfarce, a lógica das esferas de influência.

    Quando o poder deixa de fingir que obedece a normas, a soberania torna-se condicional. E quando os precedentes substituem o direito internacional, a pergunta deixa de ser quem tem razão e passa a ser quem tem capacidade.

    A Venezuela não é um desvio. É o novo manual.

  • Controlo, confiança e colaboração: três vias para o desktop moderno

    Durante anos, a discussão em torno dos sistemas operativos foi dominada por comparações técnicas: desempenho, estabilidade, compatibilidade, design. Mas há um plano mais profundo — e mais decisivo — onde estas escolhas se tornam verdadeiramente políticas e filosóficas: que relação estabelece o sistema com o utilizador e quem detém o poder último de decisão.

    A evolução recente do desktop moderno pode ser lida através de três vias distintas: controlo, confiança e colaboração. Não são apenas opções técnicas; são visões diferentes sobre autonomia, erro e responsabilidade.


    A via do controlo

    Na via do controlo, o sistema assume a responsabilidade quase total pelo bom funcionamento da experiência. As decisões estruturais são tomadas a montante, os caminhos possíveis são cuidadosamente delimitados e o utilizador é protegido de erros potencialmente graves.

    Esta abordagem oferece vantagens claras: estabilidade elevada, previsibilidade, integração profunda entre componentes e uma experiência geralmente polida. O custo é igualmente claro: liberdade estrutural reduzida. O utilizador pode escolher dentro de um perímetro bem definido, mas raramente pode redefinir esse perímetro. A Apple é o exemplo paradigmático.

    Aqui, a integração não é neutra — é um mecanismo de governação. Funciona porque limita, e limita porque desconfia da falibilidade humana.


    A via da confiança

    Na via da confiança, o sistema parte de um pressuposto oposto: o utilizador é competente ou, pelo menos, responsável pelas consequências das suas escolhas. O sistema oferece ferramentas, não proteções excessivas. A liberdade é ampla, mas o risco também.

    Historicamente, esta foi a cultura dominante no mundo Unix e Linux: sistemas transparentes, configuráveis, moldáveis. O utilizador ganha soberania total, mas também assume o peso da manutenção, da coerência e da recuperação quando algo corre mal.

    Esta abordagem valoriza a autonomia e o conhecimento, mas pode tornar-se hostil para quem não quer — ou não pode — viver permanentemente em modo administrativo. A confiança absoluta, quando não é acompanhada de suporte, transforma-se facilmente em abandono.

    A System76 é um dos melhores exemplos desta via, porque faz algo raríssimo:

    • vende hardware para Linux
    • desenvolve firmware aberto (coreboot)
    • cria o seu próprio desktop (COSMIC)

    Mas não fecha portas.

    A estabilidade não depende de obediência, mas sim de engenharia sólida.


    Uma possível terceira via: colaboração

    Entre o controlo absoluto e a confiança total começa a desenhar-se uma terceira possibilidade: a colaboração. Um modelo em que o sistema não decide tudo pelo utilizador, mas também não o deixa sozinho.

    Na via colaborativa, a liberdade mantém-se, mas é acompanhada de suporte estruturado: validações claras, zonas seguras para experimentar, recuperação simples quando algo corre mal. O erro deixa de ser uma falha moral ou técnica e passa a ser parte normal do uso.

    Ainda não existe um desktop que encarne plenamente esta filosofia, mas surgem sinais claros dessa transição: sistemas com rollback integrado, modelos declarativos, ambientes que preferem orientar em vez de proibir. A colaboração não substitui a autonomia; torna-a sustentável.


    Mais do que técnica, uma escolha política

    Estas três vias não competem apenas no plano da eficiência. Competem no plano da visão sobre o utilizador.

    • O controlo protege, mas infantiliza.
    • A confiança emancipa, mas pode isolar.
    • A colaboração procura equilibrar liberdade e cuidado.

    À medida que os sistemas se tornam mais integrados, mais imutáveis e mais resistentes ao erro, a questão deixa de ser se funcionam. Passa a ser como funcionam e para quem.

    Talvez o futuro do desktop não esteja em escolher um vencedor definitivo, mas em reconhecer que a tecnologia também expressa modelos de poder. E que perguntar quem decide os limites da nossa liberdade digital continua a ser uma questão essencial.


    Este texto não é um manifesto contra empresas ou tecnologias específicas. É uma reflexão sobre diferentes formas de organizar a relação entre sistemas e utilizadores. Num tempo em que a estabilidade é frequentemente comprada à custa da autonomia, vale a pena perguntar: quem decide até onde podemos ir?

  • O verdadeiro teste: Venezuela, soberania e o mundo que está a emergir

    A queda de Nicolás Maduro abriu uma janela de esperança para muitos venezuelanos. Depois de anos de colapso económico, repressão política e emigração forçada, é compreensível que o fim de um regime autoritário seja vivido como um alívio. Mas a história ensina-nos que a queda de um homem não equivale, automaticamente, à libertação de um país. O verdadeiro teste começa sempre depois.

    Neste momento, a grande interrogação não é apenas interna à Venezuela. É também externa. As declarações de Donald Trump — anunciando que os Estados Unidos irão governar o país durante uma “transição adequada” e que empresas norte-americanas assumirão o controlo das instalações petrolíferas — colocam uma questão central: quem decide o futuro da Venezuela, e em nome de quem?

    Este ponto é decisivo porque ultrapassa largamente o caso venezuelano. Insere-se num contexto internacional marcado por uma instabilidade crescente e pela erosão de princípios que, durante décadas, foram apresentados como pilares da ordem global. A chamada “ordem internacional baseada em regras” volta a revelar-se frágil, seletiva e profundamente condicionada pelos interesses das grandes potências.

    Os Estados Unidos invocam o direito internacional para condenar a invasão russa da Ucrânia — e com razão — mas ignoram-no quando intervêm diretamente noutros países, seja no Médio Oriente, seja agora na América Latina. Esta aplicação seletiva das regras não é nova, mas torna-se cada vez mais explícita. E cada exceção normalizada abre precedentes difíceis de fechar.

    É neste quadro que a Venezuela deve ser analisada. Não como um caso isolado, mas como parte de um mundo em transição. Um mundo onde:

    • a Rússia normalizou a guerra de conquista na Europa;
    • a China observa atentamente os limites da resposta ocidental, com Taiwan como ponto crítico;
    • os Estados Unidos recuperam uma lógica de força e tutela direta, visível não apenas na Venezuela, mas também em discursos sobre a Gronelândia ou alianças tratadas como relações de subordinação.

    Para muitos venezuelanos, esta leitura geopolítica pode parecer distante face à urgência do quotidiano. A esperança imediata é legítima. Mas, noutros pontos do globo, o sinal é lido de forma diferente. O que na Venezuela pode ser visto como libertação, em Taiwan é observado com apreensão. Porque a mensagem implícita é simples: quando as regras atrapalham, são contornadas.

    Nada disto equivale a defender Maduro ou relativizar o caráter autoritário do regime que caiu. Pelo contrário. Reconhecer a legitimidade do desejo de mudança não obriga a aceitar sem reservas o método nem os termos dessa mudança. A soberania, apesar de imperfeita e frequentemente violada, continua a ser um princípio central da estabilidade internacional. Quando é substituída por tutelas externas indefinidas, o risco não desaparece — apenas muda de forma.

    A Venezuela encontra-se, por isso, num ponto de bifurcação. Pode iniciar um processo real de reconstrução política, com protagonismo interno e instituições legítimas. Ou pode tornar-se mais um exemplo de transição controlada externamente, onde o fim de um regime não conduz necessariamente a uma democracia funcional, mas a uma nova dependência.

    Não é sobre quem caiu.
    É sobre o que vem a seguir.

    E, num mundo cada vez mais instável, essa resposta interessa não apenas aos venezuelanos, mas a todos nós.

  • Venezuela: esperança, geopolítica e a fatura que ainda não chegou

    Durante anos, a Venezuela foi o retrato de um país suspenso no tempo: autoritarismo, colapso económico, repressão política e um êxodo humano de proporções históricas. Para muitos venezuelanos, a queda de Nicolás Maduro representa finalmente uma rutura — não apenas com um regime, mas com uma década de asfixia.

    Essa esperança é real. E merece ser reconhecida.

    Mas a forma como essa rutura aconteceu levanta uma questão inevitável: que futuro nasce quando a libertação vem de fora?


    A libertação vista de dentro

    Para quem viveu:

    • escassez alimentar,
    • colapso dos serviços públicos,
    • perseguição política,
    • censura e medo,

    A queda de Maduro é, antes de mais, um alívio psicológico e simbólico. Há um sentimento legítimo de fim de ciclo, sobretudo entre os mais jovens, nas grandes cidades e na diáspora.

    Ignorar essa dimensão humana seria tão errado como romantizar o regime deposto.

    Mas a política não se faz apenas de símbolos. Faz-se de condições estruturais — e é aí que a história começa a complicar-se.


    O que caiu… e o que ficou de pé

    A operação que levou à captura de Maduro foi rápida e cirúrgica.
    Mas foi, acima de tudo, uma decapitação do regime, não uma transformação profunda do sistema.

    O aparelho de poder venezuelano — forças armadas, serviços de inteligência, elites administrativas — permanece em grande parte intacto. Muitos dos rostos centrais do chavismo continuam no país e no sistema.

    Isto cria um paradoxo perigoso:
    o rosto caiu, mas a estrutura sobreviveu.

    E quando isso acontece, o risco não é apenas a instabilidade — é a reconfiguração autoritária sob nova legitimação.


    A Venezuela deixou de ser apenas um problema interno

    Durante muito tempo, os Estados Unidos toleraram:

    • o autoritarismo do regime,
    • a repressão interna,
    • o colapso económico e humanitário.

    O que mudou não foi a natureza do regime.
    Foi o seu enquadramento geopolítico.

    A crescente aproximação à Rússia e a dependência estrutural da China transformaram a Venezuela num activo estratégico de rivais globais.

    A partir desse momento, Caracas deixou de ser vista apenas como uma tragédia latino-americana. Passou a ser lida, em Washington, como uma plataforma de projeção de poder hostil no hemisfério ocidental.


    Rússia: presença simbólica e militar

    A relação entre a Venezuela e Moscovo não foi apenas diplomática. Incluiu:

    • cooperação militar,
    • assessoria estratégica,
    • presença de equipamentos e pessoal,
    • alinhamento político explícito contra os EUA.

    Num mundo marcado pela guerra na Ucrânia, isto foi interpretado como a normalização da presença russa no “quintal” americano.

    Não por representar uma ameaça militar direta, mas por quebrar um tabu geopolítico histórico.


    China: influência silenciosa, mas profunda

    A China jogou um jogo diferente — menos ideológico, mais estrutural.

    Pequim tornou-se:

    • credora central do regime,
    • parceira energética privilegiada,
    • investidora em infraestruturas estratégicas,
    • garante de sobrevivência económica quando o Ocidente fechou portas.

    O resultado foi uma dependência por dívida que condiciona decisões soberanas a longo prazo.

    Para Washington, isto significava algo simples e inaceitável:
    um país com as maiores reservas de petróleo do mundo fora da sua órbita económica e estratégica.


    Trump e a lógica da força

    A decisão de Donald Trump não foi movida por ideais democráticos nem por humanitarismo. Foi realpolitik pura.

    Trump não fala a linguagem dos valores. Fala a linguagem do poder:

    • contenção de rivais,
    • demonstração de força,
    • controlo de activos estratégicos,
    • reposicionamento global.

    A leitura foi simples:

    se não agirmos agora, a Venezuela consolida-se como posto avançado russo-chinês.

    E isso, para Trump, era uma linha vermelha.


    O petróleo: reconstrução ou nova dependência?

    A reconstrução venezuelana passará inevitavelmente pelo petróleo.
    A questão não é se, mas como.

    Há dois caminhos possíveis:

    1. usar os recursos para reconstruir o Estado e a sociedade;
    2. pagar a “libertação” com concessões assimétricas e perda de controlo estratégico.

    Na América Latina, a história mostra que o segundo caminho cobra sempre um preço político elevado.
    E quando a perceção de soberania é ferida, o nacionalismo regressa — muitas vezes sob formas autoritárias.


    Democracia sob tutela é democracia frágil

    Outro risco evidente é o da democracia instrumental:

    • eleições apressadas,
    • elites no exílio a regressar sem base social sólida,
    • dependência económica externa,
    • frustração popular se a vida não melhorar rapidamente.

    Quando a esperança não se traduz em melhoria concreta, o vazio é rapidamente ocupado — quase sempre por soluções simplistas e personalistas.


    Conclusão: esperança legítima, futuro em disputa

    A queda de Maduro é, para muitos venezuelanos, um momento de libertação real.
    Negá-lo seria desumano.

    Mas a forma como essa queda ocorreu condiciona profundamente o futuro do país.

    A Venezuela enfrenta agora o seu verdadeiro teste:

    • reconstruir sem perder soberania,
    • democratizar sem tutela permanente,
    • usar os seus recursos sem repetir ciclos de dependência.

    A fatura ainda não chegou.
    Mas vai chegar.

    E a pergunta decisiva não é quem derrubou o regime,
    mas quem vai decidir o preço da transição — e em nome de quem.

  • A Ucrânia, a Palestina e a ordem internacional em erosão

    Há momentos históricos que funcionam como testes de stress à ordem internacional. Não porque introduzam algo radicalmente novo, mas porque tornam visível aquilo que já vinha a degradar-se em silêncio. A guerra na Ucrânia é um desses momentos. O seu desfecho não dirá apenas algo sobre a relação entre Kiev e Moscovo; dirá, sobretudo, se o princípio fundamental do pós-guerra — o de que território não pode ser conquistado pela força — continua a ter validade prática no século XXI.

    Ucrânia: mais do que uma guerra, um precedente

    Desde 2022, a invasão russa tem sido descrita como uma violação clara do direito internacional. E é. A Rússia tentou redesenhar fronteiras através da força militar, num gesto que muitos acreditavam ter ficado enterrado com a Segunda Guerra Mundial. Mas o que está agora em causa não é apenas a agressão inicial — é a forma como o conflito poderá terminar.

    Um acordo que legitime ganhos territoriais obtidos pela violência, mesmo que disfarçado de “realismo” ou “compromisso inevitável”, criaria um precedente perigoso. Não apenas porque recompensaria a agressão, mas porque sinalizaria algo mais profundo: a fadiga do Ocidente em sustentar os seus próprios princípios quando o custo político se torna elevado.

    A diferença entre um cessar-fogo e um acordo de paz é crucial. Um cessar-fogo congela a violência; um acordo de paz redefine a ordem. Se a Ucrânia for empurrada para aceitar perdas territoriais sem garantias de segurança duradouras, o resultado não será estabilidade, mas apenas uma guerra adiada. Uma paz com prazo de validade anuncia, desde logo, a próxima guerra.

    Mais ainda: um acordo frágil inviabiliza a reconstrução económica, afasta investimento e mantém o país num limbo estratégico. Quem investe seriamente num Estado cuja soberania está contratualmente suspensa? Quem reconstrói sabendo que a ameaça regressa quando o calendário político o permitir?

    É por isso que o futuro da Ucrânia é observado com atenção muito para além da Europa. Em cada capital que vive sob a sombra de um vizinho mais poderoso, a pergunta é simples: vale a pena confiar na ordem internacional, ou é mais prudente preparar-se para a lógica do mais forte?

    Quando as regras são seletivas: o espelho palestiniano

    É aqui que o discurso ocidental começa a revelar uma fratura difícil de ignorar. Porque o princípio que se afirma defender na Ucrânia — a inadmissibilidade da conquista territorial pela força — é sistematicamente relativizado noutro contexto central da política internacional: a Palestina.

    Há décadas que Israel ocupa territórios que não lhe pertencem segundo o direito internacional. Na Cisjordânia, a expansão contínua de colonatos altera deliberadamente a realidade no terreno, tornando cada vez mais inviável uma solução política baseada em dois Estados. Em Gaza, a destruição em larga escala e o controlo territorial reforçam uma lógica de facto consumado: primeiro impõe-se a força, depois discute-se a política.

    O paralelismo com a Ucrânia não está nas circunstâncias históricas — que são distintas — mas na lógica estrutural: ocupar, normalizar, negociar a partir da posição de força. Em ambos os casos, a comunidade internacional acaba por exercer maior pressão sobre a parte mais fraca para aceitar o “realismo”, enquanto o ocupante enfrenta consequências limitadas ou meramente retóricas.

    A contradição é evidente. O Ocidente apresenta-se como defensor da ordem baseada em regras, mas aplica essas regras de forma seletiva. Condena — e bem — a agressão russa, mas tolera ou apoia a ocupação israelita. O resultado não é apenas hipocrisia moral; é erosão estratégica.

    Porque esta incoerência não passa despercebida. Nem em Moscovo, nem em Pequim, nem no chamado Sul Global. Quando as regras parecem existir apenas para adversários, deixam de ser regras e passam a ser instrumentos de conveniência.

    A ordem que se desfaz por dentro

    A ordem internacional não colapsa com discursos inflamados nem com declarações solenes. Colapsa por precedentes. Cada exceção justificada, cada violação tolerada, cada princípio relativizado em nome da conveniência política contribui para um mundo mais instável e mais cínico.

    Se a Ucrânia for forçada a aceitar uma paz que legitime a conquista pela força, isso não será um acidente isolado — será a confirmação de uma tendência. Mas essa tendência não começou em 2022. A Palestina é, há muito, o exemplo de como a normalização da exceção fragiliza o todo.

    Talvez por isso a verdadeira escolha não seja entre paz e guerra. Seja na Ucrânia, seja na Palestina, a escolha é entre uma paz que previne a próxima guerra e uma paz que apenas a agenda. O problema é que, quando as regras deixam de ser universais, a segunda opção torna-se a mais provável.

  • Dimash: ambição, humildade e a voz ao serviço de algo maior

    Há vozes que impressionam pela raridade.
    E há vozes que se constroem como um projecto consciente, pensado no tempo longo.

    A de Dimash Qudaibergen pertence claramente ao segundo grupo. Não apenas pela extensão vocal extraordinária ou pelo domínio de múltiplas técnicas — do pop ao clássico, do rock ao canto lírico — mas pela forma como tudo isso é organizado em função de sentido.

    Em Dimash, a ambição técnica é evidente e assumida. O alcance vocal é objectivamente fora da curva, e a capacidade de atravessar registos extremos com controlo e afinação não deixa margem para dúvidas. Ainda assim, essa ambição nunca se transforma em exibição vazia. A técnica não surge como fim, mas como meio expressivo. Como linguagem.

    A métrica não é tudo na música — mas não é irrelevante. Quando atinge este nível, deixa de ser fetiche e passa a ser dado estrutural. Em Dimash, a extensão vocal não serve para deslumbrar; serve para alargar o território narrativo. Cada grave, cada agudo extremo, cada transição abrupta de registo corresponde a uma necessidade dramática.

    Essa relação consciente com a técnica revela algo mais profundo: humildade. Dimash canta como alguém que sabe que a voz não lhe pertence inteiramente. É algo que se trabalha, que se respeita, que se pode perder se for usada com leviandade.

    As músicas como declaração artística

    A lista poderia ser interminável mas existe algumas músicas e atuações que marcam sua carreira.

    SOS marca o momento fundador: a revelação de um alcance vocal quase inacreditável, já articulado como narrativa. Stranger aprofunda essa lógica, usando a técnica como discurso e identidade fragmentada.

    Em Ikanaide, Dimash mostra contenção e respeito pelo silêncio. Já Ogni Pietra, no contexto olímpico, revela solenidade e sentido de responsabilidade: a voz não se impõe, serve.

    The Story of One Sky é talvez o momento mais revelador. Um projecto profundamente investido por Dimash, surgido pouco depois de um conflito armado entre países vizinhos. Aqui, o talento extraordinário é colocado deliberadamente ao serviço de algo maior do que o intérprete. Não há clímax fácil, mas contenção, pertença e consciência histórica.

    Ver playlist Youtube abaixo.

    Um espelho necessário: Sohyang

    A comparação com Sohyang ajuda a clarificar o lugar de Dimash. Em Sohyang sentimos convicção absoluta; em Dimash, humildade consciente. Um canta como quem se oferece. O outro canta como quem atravessa limites sabendo que eles não lhe pertencem.

    Para além da classificação

    Dimash é difícil de classificar porque não cabe nas categorias habituais. Não é apenas um prodígio vocal ou um fenómeno de crossover. É alguém que trata a voz como campo de exploração artística, sem perder o vínculo emocional nem a consciência do contexto.

    No fim, o que fica não é apenas a memória de notas impossíveis, mas a sensação de ter assistido a alguém que usa tudo o que tem — técnica, corpo e emoção — não para se colocar acima da música, mas ao serviço dela.