• Sombras com Luz – Uma playlist para atravessar o tempo

    Entre o silêncio e o ruído, entre o peso e a leveza, há uma paisagem sonora feita de delay, distorção e memória.

    Esta playlist é um mapa emocional. Inspirada em Ludovico Einaudi e Nils Frahm, mas alargando-se ao post-rock, ao ambient e ao metal progressivo, Sombras com Luz propõe uma viagem interior através de composições cinematográficas que não precisam de voz para contar histórias.

    Faixa a faixa

    Explosions in the Sky – “Your Hand in Mine”
    The Earth Is Not a Cold Dead Place (2003)
    Crescendo emocional. Guitarras limpas que parecem lembrar-nos algo esquecido.

    Mono – “Ashes in the Snow”
    Hymn to the Immortal Wind (2009)
    Melodia arrastada como uma memória. Do silêncio à catarse em 10 minutos.

    Alcest – “Sur l’océan couleur de fer”
    Septembre et Ses Dernières Pensées (2010)
    Melancolia francesa com aura marítima. Shoegaze com alma neoclássica.

    Cloudkicker – “Let Yourself Be Huge”
    Let Yourself Be Huge (2011)
    Pequena peça ambiental. Peso emocional sem levantar a voz.

    Russian Circles – “Mládek”
    Empros (2011)
    Riffs que constroem muralhas. Uma viagem épica e instrumental.

    Jakob – “Blind Them with Science”
    Solace (2006)
    Peso elegante com guitarra emocional. Evocativo e intenso.

    A Winged Victory for the Sullen – “Steep Hills of Vicodin Tears”
    A Winged Victory for the Sullen (2011)
    Textura aérea e sagrada. Cordas sobre névoa interior.

    Ólafur Arnalds – “Saman”
    re:member (2018)
    Piano íntimo com beleza delicada. Uma conversa quase sussurrada.

    Ólafur Arnalds – “Near Light”
    Living Room Songs (2011)
    Minimalismo emotivo com um toque nórdico. Intimista e reflexivo.

    Hammock – “Turn Away and Return”
    Everything and Nothing (2016)
    Guitarras em suspensão. Luz e sombra em equilíbrio perfeito.

    Federico Albanese – “By the Deep Sea”
    By the Deep Sea (2018)
    Composição cinematográfica submersa em melancolia.

    Long Distance Calling – “Black Paper Planes”
    Avoid the Light (2009)
    Metal instrumental com estrutura progressiva. Carregado de tensão contida.

    The Ocean (Collective) – “The Quiet Observer”
    Pelagial (2013)
    Música subaquática e opressiva. Conceitual e densa.

    Solstafir – “Fjara”
    Svartir Sandar (2011)
    Metal islandês com alma folk. Melancolia que rasga.

    Nils Frahm – “Says”
    Spaces (2013)
    Minimalismo repetitivo com electrónica subtil. Cresce lentamente.

    Kiasmos – “Looped”
    Kiasmos (2014)
    Electrónica com emoção e estrutura clássica. Pulsante e envolvente.

    Ben Lukas Boysen – “Golden Times 1”
    Spells (2016)
    Piano e texturas digitais que evocam calor e nostalgia.

    Rival Consoles – “Unfolding”
    Overflow (2021)
    Batida densa com camadas melódicas. Dança introspectiva.

    Daniel Avery – “Endless Hours”
    Ultra Truth (2022)
    Ambiente escuro com loops emocionais. Ideal para noites longas.

  • The Summer Portraits: como Einaudi pinta o verão com melancolia

    Quando Ludovico Einaudi lança um novo álbum, sabemos que não estamos apenas perante um conjunto de peças musicais, mas diante de uma experiência emocional. Com The Summer Portraits (2025), o compositor italiano regressa com um ciclo de 13 peças que são, mais do que nunca, retratos sonoros: evocações da luz, da liberdade e da nostalgia que o verão nos deixa.

    A villa, os quadros, a memória

    O álbum nasceu da estadia de Einaudi numa villa numa ilha mediterrânica, onde passou o verão anterior. Ao chegar, descobriu que a casa estava decorada com 30 a 40 quadros a óleo — todos aparentemente da mesma autora. Após alguma investigação, ficou a saber que a casa pertencera a uma mulher que ali veraneava todos os anos com a família e que deixava, a cada verão, novas pinturas como testemunho desse tempo.

    Inspirado por esse gesto silencioso e criativo, Einaudi mergulhou nas suas próprias memórias de verão: “o tempo em que a vida estava ligada aos sentidos, em que os dias pareciam meses, os meses como anos, e eu era livre do amanhecer ao anoitecer… a natureza era parte de nós, nós éramos natureza”. Foi esse sentimento que o levou a criar os seus próprios retratos — mas com música. “Este álbum é dedicado a todas as nossas memórias dos verões intermináveis, a todos os momentos belos que vivemos”, explicou.

    Entre a leveza e a profundidade

    Em The Summer Portraits, Einaudi continua fiel à sua identidade: piano minimalista, melodias circulares, uso delicado da repetição. Mas desta vez junta a isso os arranjos orquestrais gravados com a Royal Philharmonic Orchestra, elevando a textura emocional das composições. A leveza do piano encontra contraponto nas cordas, que sugerem a densidade da memória.

    O tempo como paisagem

    Tal como em discos anteriores, o tempo é o grande tema. Aqui, o verão é mais do que uma estação: é uma ideia. Uma lembrança do que foi vivido, do que poderia ter sido, ou do que já não volta. Em faixas como “In Memory of a Dream” ou “Santiago”, somos convidados a percorrer caminhos interiores. Não são paisagens que se vêm, são paisagens que se sentem.

    Cinematografia sonora

    Não é de admirar que a música de Einaudi continue a ser escolhida por realizadores e publicitários. Neste álbum, cada tema soa a uma curta-metragem emocional. “Rose Bay” poderia ser a abertura de um filme sobre reencontros. “Maria Callas”, com o seu dramatismo contido, seria perfeita para uma sequência de memórias apagadas.

    Um verão amadurecido

    Aos 69 anos, Einaudi olha para o verão não com a impetuosidade da juventude, mas com a serenidade de quem sabe que os dias longos também acabam. É um disco que não celebra a estação, mas a saudade que ela deixa. E talvez por isso nos toque tanto.

    The Summer Portraits é, mais do que um disco, um espelho de sensações. Uma memória musical do verão que, como todas as boas lembranças, sabe misturar luz e sombra com uma elegância silenciosa.

    Um convite à escuta

    Convido-lhe a escutar The Summer Portraits com tempo e silêncio — talvez ao fim da tarde, com uma luz morna a entrar pela janela. Deixe que cada faixa lhe leve de volta aos seus próprios verões: aqueles que viveu, sonhou ou perdeu. Pode começar por “Rose Bay”, “In Memory of a Dream” e “Santiago” — e deixar que o resto lhe encontre.

    Disponível nas principais plataformas de streaming, ouça-o como quem folheia um velho álbum de fotografias. Mas aqui, as imagens são som.

  • Imigração em Portugal: Novas Regras, Excepções e a Criação de Emigrantes de Primeira e de Segunda

    O Governo português aprovou recentemente, em Conselho de Ministros, um conjunto de propostas que visam alterar profundamente a legislação relativa à imigração, nacionalidade e reagrupamento familiar. Estas medidas, ainda sujeitas à aprovação parlamentar, representam uma viragem significativa na forma como Portugal regula a entrada, permanência e integração de estrangeiros.

    Novas Regras para o Reagrupamento Familiar

    • Apenas é possível requerer o reagrupamento após dois anos de residência legal em Portugal.
    • O familiar a reagrupar não pode estar em Portugal, com excepção dos filhos menores.
    • Requisitos mantidos:
      • Habitação adequada;
      • Meios de subsistência próprios;
      • Não dependência de apoios sociais.
    • Obrigatoriedade de aprendizagem da língua portuguesa e valores constitucionais por parte dos familiares.
    • A AIMA poderá abrir ou fechar vagas consoante a sua capacidade.

    Excepções: Quem Escapa às Restrições

    Estão isentos das novas restrições:

    • Titulares de Vistos Gold (Autorização de Residência para Investimento);
    • Detentores do Cartão Azul UE (profissionais altamente qualificados);
    • Trabalhadores com residência como altamente qualificados (a regulamentar).

    Estes grupos podem pedir reagrupamento familiar logo no início, trazer familiares de qualquer idade e estão isentos de provas linguísticas ou culturais.

    Alterações à Lei da Nacionalidade

    • Residência mínima aumentada:
      • De 5 para 10 anos (imigrantes em geral);
      • Para 7 anos (países de língua oficial portuguesa).
    • Novos critérios:
      • Conhecimento da cultura, organização política e valores democráticos;
      • Declaração solene de adesão aos princípios da República.
    • Filhos de estrangeiros nascidos em Portugal: só serão portugueses se um dos pais tiver 3 anos de residência legal (em vez de 1 ano de presença).

    Conclusão

    Os Vistos Gold, uma criação do PSD, voltam a ganhar nova força e dividem os imigrantes em duas classes.

    • Privilegiados (investidores e quadros qualificados), com acesso facilitado;
    • Comuns, com prazos mais longos, obstáculos e maior exigência. Em suma, um inferno burocrático e desumanidade.

    Dado o boom migratório, que ocorreu especialmente devido ao facilitismo dado no tempo dos executivos de António Costa, era imperativo um maior controlo, mas o PSD – como é seu apanágio – vai sempre além. Passar de 5 para 10 anos de espera para naturalização é absurdo.

    Além disto, se aprovadas, estas leis irão reforçar um modelo que valoriza o capital sobre a condição humana, e que arrisca transformar Portugal num país que escolhe os seus imigrantes não com base na solidariedade e no princípio de igualdade, mas com base na carteira e no potencial de mercado de cada um.

  • Crise na habitação: Causas, mitos e possíveis soluções

    Cidades para viver ou para vender? A crise da habitação em Portugal expõe contradições profundas entre o direito à casa e a lógica do mercado.

    A crise da habitação em Portugal é hoje um dos temas mais quentes do debate público. Com rendas incomportáveis para a maioria, jovens sem possibilidade de sair de casa dos pais, e um mercado onde quem compra não são os residentes mas sim investidores, fundos ou turistas, muitos começam a perguntar: ainda é possível viver nas nossas cidades?

    A resposta é complexa, mas o problema é claro: o direito à habitação está hoje subjugado à lógica do mercado e da especulação.

    Causas da crise em Portugal

    O mito da imigração como causa da crise

    Muitos discursos públicos, nomeadamente de cariz populista, têm tentado associar o aumento dos preços da habitação ao crescimento da imigração em Portugal. No entanto, essa relação é profundamente simplista e não resiste à análise.

    A população estrangeira residente tem crescido de forma significativa, devendo ultrapassar os 1,6 milhões até ao final deste ano. Se é verdade que alguns imigrantes — como muitos cidadãos britânicos — têm maior poder de compra, também é certo que a maioria ocupa nichos de mercado habitacional abandonados ou degradados, frequentemente em condições indignas e localizados em zonas periféricas.

    A verdadeira causa da crise da habitação não está no número de imigrantes, mas na ausência de políticas públicas eficazes, no enorme défice de construção de habitação acessível, na especulação imobiliária, e na falta de regulação eficaz do arrendamento e do alojamento local.

    Culpar a imigração pela crise é uma distração conveniente que encobre os verdadeiros interesses económicos e decisões políticas que estão na origem do problema.

    Embora muito se fale da imigração como causa do boom habitacional, essa é apenas uma parte mínima do problema. A raiz da crise em Portugal está noutros fatores mais profundos e estruturais:

    • Oferta insuficiente: a construção nova não acompanha a procura, especialmente nas cidades mais pressionadas. Os solos urbanos são escassos e mal geridos.
    • Especulação imobiliária: muitos imóveis são comprados por investidores ou fundos para arrendamento de curta duração ou simples valorização futura.
    • Turismo e alojamento local: Lisboa passou de 13 para 55 milhões de dormidas anuais em menos de duas décadas. Muitas casas deixaram de estar acessíveis às populações locais.
    • Políticas públicas insuficientes: Portugal tem um dos parques habitacionais públicos mais reduzidos da Europa. As autarquias venderam terrenos e não os usaram para construir habitação acessível.
    • Crédito e fiscalidade: durante anos, o crédito barato e a falta de regulação incentivaram a compra para lucro e não para residência.

    A crise que bate recordes: dados de 2025

    Segundo dados divulgados pelo INE e noticiados pelo jornal Público, os preços das casas em Portugal subiram mais de 16% nos primeiros cinco meses do ano — o maior aumento desde que há registos.

    Este aumento coincide com a entrada em vigor da garantia pública para jovens na compra da primeira casa, uma medida lançada pelo Governo que veio fomentar a procura. Mas este fenómeno não pode ser dissociado das causas estruturais já identificadas: oferta insuficiente, pressão turística, especulação internacional, falhas regulatórias e ausência de habitação pública em escala.

    Um problema global, com soluções locais

    A crise não é exclusiva de Portugal. Berlim, Barcelona, Paris, Toronto ou Auckland vivem problemas semelhantes. Mas lá fora, muitos países começaram a agir.

    Exemplos a seguir:

    Medidas que Portugal pode adotar

    1. Limitar investimento estrangeiro especulativo: com impostos adicionais ou restrições à compra em zonas de pressão urbana.
    2. Controlar o alojamento local: limitar o número de licenças, criar zonas de exclusão, fiscalizar o cumprimento da lei.
    3. Reabilitar e penalizar casas devolutas: aplicar efetivamente os impostos previstos na lei e reforçar o levantamento de imóveis vazios.
    4. Investir em habitação pública e cooperativa: aumentar drasticamente o parque de habitação acessível, com novas construções e parcerias público-comunitárias.
    5. Reformar o urbanismo e o ordenamento do território: com quotas obrigatórias de habitação acessível em cada novo empreendimento.

    Conclusão

    A crise da habitação é o resultado de décadas de ausência de estratégia, de uma economia centrada no turismo e de uma visão que tratou a casa como mercadoria e não como direito.

    Mas há alternativas. O que falta é coragem política, planificação e vontade de colocar o bem comum à frente do lucro.

    Portugal tem de decidir: cidades para viver ou para vender?

  • Escolhi o KDE Plasma… e deixei tudo como está
    Um elogio ao equilíbrio entre liberdade e simplicidade

    Sou utilizador de GNU/Linux há cerca de 20 anos. Durante muito tempo adorei — e continuo a adorar — a liberdade que o Linux me dá. Sempre foi essencial poder moldar o sistema à minha medida: mudar temas, ajustar o painel, substituir menus, afinar fontes, configurar atalhos, instalar docks, remover efeitos… enfim, adaptar tudo ao meu gosto.

    Mesmo quando os ambientes gráficos by default deixavam a desejar em comparação com os sistemas mainstream, bastavam alguns ajustes para corrigir isso. E eu investia esse tempo com gosto.

    Mas hoje sou um utilizador diferente.

    Não deixei de gostar de personalizar um sistema instalado de raiz, mas tenho menos disponibilidade para o fazer. Tenho menos tempo, chego mais cansado. E, para ser honesto, já não preciso de configurar tudo como antes.

    Ambientes de trabalho como o KDE Plasma — e também o GNOME, entre outros — oferecem atualmente uma experiência surpreendentemente equilibrada logo à partida. São limpos, elegantes, leves e funcionais. Para o meu perfil, o Plasma faz mais sentido (ainda que consiga usar o GNOME sem grandes stresses).

    O painel está no sítio certo. Os ícones são discretos mas reconhecíveis. O compositor é fluido sem distrair. As aplicações nativas integram-se de forma coesa. Tudo flui com uma naturalidade que, honestamente, há uns anos seria impensável no mundo Linux.

    Claro que o Plasma continua a ser o ambiente gráfico para quem quer personalizar até ao último pixel. Mas o que mais me impressiona hoje é outra coisa:

    Hoje, um desktop Linux não me pede nada.
    Posso mudar um pormenor ou outro mas são coisas mínimas. No geral, o Plasma limita-se a deixar-me trabalhar. A deixar-me estar.

    Ironicamente, foi esta liberdade de não ter de mexer em tudo que me prendeu. A sensação de estar a usar algo feito com gosto, com atenção ao detalhe — mas que respeita a minha escolha de não fazer escolhas.

    Sim, podia instalar uma dock ao estilo macOS.
    Podia aplicar um tema ao estilo Windows 11.
    Podia transformar isto tudo num laboratório gráfico.

    Mas não vou.

    Porque hoje, o KDE Plasma já é, por defeito, tudo o que preciso.

  • Da alma à festa: fado, pimba e o palco roubado pela televisão

    Artigo em atualização

    Durante décadas, o fado foi a expressão mais profunda da alma portuguesa. Cantava-se a saudade, o destino, a dor e a beleza melancólica da vida. Mas, com o passar dos anos, esse canto solene e contido cedeu o palco a um novo protagonista: a música pimba. Ruidosa, festiva, provocadora e por vezes tosca, a pimba tornou-se a banda sonora das massas. Como se deu esta mudança? E o que nos diz sobre o país e a forma como os media moldaram o nosso imaginário?

    Fado: património de um povo, mas não da televisão

    O fado foi, durante o século XX, uma forma de expressão visceral de um povo resignado, introspectivo, pobre. Acompanhava o Portugal do Estado Novo, ecoando nos becos de Lisboa e nos salões universitários de Coimbra. No entanto, após o 25 de Abril, o fado viu-se associado ao passado e ao regime. Passou a ser visto como algo antigo, triste, e elitista.

    A urbanização, o fim da censura, o desejo de festa e de ruptura com o passado empurraram o fado para os bastidores. Hoje, mesmo sendo Património Imaterial da Humanidade, o fado é mais reverenciado do que vivido. Vive em casas de fado, museus, roteiros turísticos. Mas já não é a voz da maioria.

    Pimba: da marginalidade ao coração do povo

    A música pimba nasceu no seio da cultura popular oral, bebeu da tradição dos cantares ao desafio, da rádio local, das festas de aldeia. Nos anos 80 e 90, ganhou forma como linguagem musical das massas: fácil, repetitiva, emotiva, com duplos sentidos e um apelo à alegria descomprometida.

    Com temas como o amor sofrido, a emigração, a sexualidade travestida de piada ou a saudade à moda do povo, a pimba não pediu licença para entrar nos lares portugueses. Foi aclamada porque era “a nossa música”, livre de filtros ou pretensões.

    Os media: do culto à audiência

    Foi a televisão generalista que transformou a pimba em fenómeno nacional. Programas como o Big Show SIC, apresentado por João Baião, deram palco constante a artistas como Ágata, Emanuel, Quim Barreiros ou Toy. A televisão dos anos 90 trocou a missão cultural pelo entretenimento imediato. O que contava era a audiência, não a elevação cultural.

    Neste novo paradigma, a música pimba encaixava como uma luva: alegre, barata, colorida, simples. O fado? Muito lento. A música erudita? Muito aborrecida. O jazz? Ninguém percebe. Os media tornaram-se os curadores de uma cultura que deixou de lado a exigência e abraçou o imediatismo.

    A exclusão da cultura e o gueto da RTP2

    Os estilos musicais com maior valor artístico e histórico foram varridos da televisão. Quando muito, encontram refúgio na RTP2 — canal que cumpre simbolicamente a função cultural do Estado, mas que é ignorado pelas massas. A RTP2 tornou-se o gueto da cultura: só lá se vê fado tradicional, cante alentejano, jazz, ou documentários sobre música portuguesa.

    Esta exclusão tem consequências: empobrecimento do imaginário coletivo, distanciamento da população face à sua própria diversidade musical, e perpetuação de um analfabetismo estético. O fado tornou-se património sem palco. A pimba, o palco sem património.

    As vozes que se calaram: da canção de intervenção ao rock esquecido

    Antes da ascensão meteórica da música pimba, houve outras formas de expressão musical profundamente relevantes em Portugal. A música de intervenção, nos anos 60 e 70, foi a voz da revolução e da consciência coletiva. Zeca Afonso, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Sérgio Godinho ou Vitorino não cantavam para entreter: cantavam para acordar, para resistir, para educar. Eram poetas da liberdade.

    Nos anos 80, deu-se o boom do rock português. Bandas como Xutos & Pontapés, GNR, Heróis do Mar ou UHF trouxeram irreverência, urbanidade e uma nova linguagem estética. Houve inclusive espaço na televisão de talentos emergentes de géneros menos mediáticos como o Hard”n’Heavy (Ferro e Fogo, Ibéria,, A criatividade nacional parecia renovar-se. Mas esse fogo foi apagado pelos ventos da indiferença mediática e pelo peso crescente da cultura ligeira.

    O caso de José Cid é especialmente simbólico: nos anos 70, gravou álbuns de rock progressivo altamente sofisticados, como 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. Mas cedo percebeu que esse tipo de criação não teria espaço no mercado nacional. Reinventou-se como cantor de baladas românticas e temas populares. Não por falta de talento, mas porque a própria estrutura cultural do país não acolhia o risco nem a experiência.

    Um espelho do país

    A ascensão da música pimba não é só um facto musical. É um sintoma de um país que deixou de lado o aprofundamento cultural em nome do consumo rápido. A televisão, em vez de educar ou enriquecer, optou por entreter com o mínimo comum denominador.

    Portugal é um país onde o fado chora, mas é a pimba que se ouve. Entre a alma e o bailarico, escolheu-se o riso. Talvez porque a dor, quando cantada com solenidade, se torne insuportável. E a pimba, com o seu riso fácil e a sua batida repetitiva, oferece um consolo leve. Um alívio. Uma festa. Mesmo que breve.

    Mas não deixemos que a leveza se torne vazio. É tempo de devolver à televisão, e ao povo, o direito a um palco que celebre não só o divertimento, mas também a riqueza e complexidade da nossa cultura musical.

  • Netanyahu, Gaza e a radicalização da política israelita: uma revisão crítica

    Desde o início da ofensiva israelita sobre Gaza, a 7 de outubro de 2023, muito mudou na política interna de Israel — e quase tudo para pior. O artigo recentemente publicado no eldiario.es traça um retrato inquietante da deriva autoritária e ultranacionalista do governo de Benjamin Netanyahu, hoje cada vez mais dependente e alinhado com a extrema-direita israelita.

    Da coligação desconfortável à assimilação ideológica

    O primeiro ponto a destacar é a transformação do Likud, o partido de Netanyahu, que de conservador nacionalista passou a adotar abertamente teses radicais sobre ocupação, limpeza étnica e rejeição de qualquer solução de dois Estados.

    Segundo o cientista político Dani Filc, esta radicalização tem duas origens: o temor de Netanyahu de perder o apoio da coligação, e uma mudança ideológica real no seio do partido, cujos deputados e ministros proferem hoje frases que antes se associavam exclusivamente a grupos como o Otzma Yehudit, de Itamar Ben Gvir.

    “O Likud está a tornar-se um partido fascista”, afirma Filc. A frase é forte — mas difícil de desmentir.

    Uma guerra sem fim como estratégia de sobrevivência

    O artigo traça também uma ligação entre a continuação da guerra em Gaza e a estratégia de sobrevivência política de Netanyahu. A recusa em aceitar investigações sobre o 7 de outubro, a oposição a negociações para libertar os reféns, e a insistência na destruição total da Faixa de Gaza, parecem servir menos uma lógica de segurança e mais uma de poder pessoal.

    Yossi Beilin, antigo ministro da Justiça, diz sem rodeios: o prolongamento da guerra “é o preço da obsessão de Netanyahu com o poder”.

    É neste ponto que a questão se torna ainda mais preocupante: a guerra não é apenas uma consequência da radicalização — é o seu instrumento. Enquanto o conflito se mantém, a atenção pública dispersa-se, as divisões internas são sufocadas e o governo avança com a sua agenda ideológica sem grandes escrutínios.

    Colonização acelerada e destruição da solução dos dois Estados

    Na Cisjordânia, os factos falam por si: 49 novos assentamentos desde 2022, legalização de postos ilegais e 87 novos avanços coloniais desde o início da guerra. A organização Peace Now denuncia ainda a expulsão de dezenas de comunidades palestinianas, num processo de limpeza territorial a céu aberto.

    Segundo Lior Amihai, diretor executivo da ONG israelita, estamos perante “a maior campanha de colonização desde os Acordos de Oslo”.

    A conclusão parece inevitável: Netanyahu está a destruir ativamente qualquer hipótese de criação de um Estado palestiniano. Seja por convicção ou conveniência, a sua política converge hoje com a de figuras como Ben Gvir ou Smotrich, que defendem abertamente a anexação da Cisjordânia e a reocupação de Gaza.

    Um governo sem rumo — mas com um destino perigoso

    O paradoxo atual é gritante: o governo mais radical da história de Israel governa contra a opinião pública. A maioria dos israelitas, segundo o Pew Research Center, quer o fim da guerra em troca da libertação dos reféns. No entanto, Netanyahu resiste — e radicaliza.

    A sua coligação mantém-se viva graças a um equilíbrio instável entre ultranacionalistas militaristas e ultraortodoxos religiosos, estes últimos agora a exigir a continuação da isenção do serviço militar obrigatório — algo que começa a gerar fraturas internas num país em guerra prolongada.

    Notas finais

    Israel vive hoje uma crise existencial não apenas com os seus vizinhos, mas consigo próprio. O que está em causa não é apenas a paz, mas a natureza do regime israelita: será uma democracia liberal ou um Estado etnocrático autoritário? Netanyahu parece ter feito a sua escolha.

    Mas o futuro continua em aberto. A crescente oposição interna, as pressões internacionais e o cansaço da população perante uma guerra sem fim poderão, ainda, alterar o curso dos acontecimentos. Por agora, porém, o cenário é sombrio — e exige vigilância crítica.

  • A esquerda que deixou de saber para quem fala

    Durante décadas, a esquerda foi o campo político onde se debatiam projetos de futuro: mais justiça, mais igualdade, mais liberdade. Em Portugal e na Europa, esse campo está hoje em perda — não apenas porque perdeu eleições, mas porque perdeu enraizamento social, ambição programática e, acima de tudo, clareza sobre a quem se dirige.

    O caso do PS: do reformismo à gestão

    O Partido Socialista português é o exemplo acabado desta crise. Em tempos, foi um partido reformista, capaz de combinar estabilidade com transformação social. Mas há muito que deixou de o ser. Sob a liderança de António Costa, tornou-se um partido de manutenção: fixado na estabilidade orçamental, resistente a reformas estruturais e alérgico ao risco político.

    A “geringonça” prometeu uma nova forma de governar à esquerda, mas rapidamente revelou os limites do PS. O partido travou quase todas as reformas propostas pelos seus parceiros, recusou reverter a legislação laboral da troika, e optou por subfinanciar os serviços públicos em nome de um excedente orçamental. O PS tornou-se um gestor do status quo — e um gestor sem visão não mobiliza ninguém.

    Pedro Nuno Santos tentou aparecer como um novo rosto. Mas, para além de ter chegado tarde, foi um erro de casting. Apesar da retórica combativa e do ar de renovação, era uma figura próxima de António Costa e fazia parte da ala mais à esquerda do PS. Isso afastou o eleitorado do centro e impediu que o partido reconstruisse pontes com sectores moderados e urbanos, cada vez mais tentados a votar Iniciativa Liberal ou PSD. Sem uma rutura clara com o legado e sem capacidade de alargar a sua base, Pedro Nuno revelou-se incapaz de travar a maré descendente.

    Nem o centro, nem a margem: a esquerda a desaparecer

    Mas o declínio da esquerda não se limita ao PS. Também a esquerda radical — que durante anos se afirmou como alternativa, ainda que muitas vezes no registo do protesto — está em queda, tanto em Portugal como no resto da Europa. O Bloco de Esquerda perdeu capacidade de mobilização e foi-se deixando prender por debates identitários e simbólicos, afastando-se das preocupações materiais de grande parte do eleitorado. Além disso, nunca recuperou da penalização política sofrida após a queda da geringonça. Já o PCP atravessa um ocaso prolongado, marcado pela rigidez ideológica, pelo envelhecimento da base social e por uma crescente desconexão com as dinâmicas do mundo contemporâneo.

    Lá fora, o cenário é semelhante. Em França, Jean-Luc Mélenchon perdeu tração. Na Grécia, o Syriza caiu para 17,8% nas legislativas de 2023, levando à saída de Alexis Tsipras. Em Espanha, o Podemos implodiu, fragmentando-se após anos de desgaste e sendo eclipsado pelo crescimento da extrema-direita. E na Alemanha, embora o Die Linke tenha registado um surpreendente regresso em 2025 — alcançando 9% e garantindo 64 lugares no Parlamento, impulsionado pelo voto de mulheres jovens —, o partido atravessou anos de irrelevância e profundas divisões internas.

    Afinal, para quem fala a esquerda?

    A grande pergunta que se impõe é esta: para quem está hoje a falar a esquerda?

    Se fala apenas para as cidades, para os mais escolarizados, para os debates culturais de nicho, esquece a base que lhe deu origem: os trabalhadores, os jovens precários, as famílias das periferias, os reformados esquecidos.

    Essa desconexão é um presente para os populismos de direita. Quando a esquerda deixa de oferecer soluções materiais, de curto e longo prazo, outros preenchem esse vazio com slogans fáceis, ressentimento e promessas de um passado que nunca existiu.

    Ou a reconstrução, ou a irrelevância

    Não se trata de “radicalizar” ou de “moderar”. Trata-se de voltar a ligar a política à vida concreta das pessoas, com propostas credíveis e transformadoras. Habitação, salários, justiça fiscal, serviços públicos, ambiente, participação democrática — são estas as trincheiras do presente. E não basta falar delas: é preciso fazer delas causas populares.

    A esquerda não desapareceu porque perdeu o povo. Perdeu o povo porque se esqueceu de o ouvir — e de o representar.

  • Da liberdade ao radicalismo? A metamorfose da Iniciativa Liberal em Portugal

    Quando nasceu, a Iniciativa Liberal (IL) apresentava-se como um partido diferente: liberal nos costumes, defensor da economia de mercado, pró-europeu e transparente. Era uma lufada de ar fresco no espectro partidário português, dominado por dinossauros ideológicos e estruturas envelhecidas. A sua promessa era simples e clara: mais liberdade, menos Estado, mas sem deixar ninguém para trás. Um partido à imagem dos liberais do norte da Europa.

    Mas algo mudou.

    Com a saída de João Cotrim de Figueiredo da liderança e a ascensão de Rui Rocha, a IL começou a ganhar um novo tom. Não houve uma rutura formal com o passado, mas sim uma reconfiguração ideológica. Aos poucos, o discurso tornou-se mais agressivo, os alvos mais ideológicos, e a liberdade passou a significar algo mais próximo do “cada um por si” do que da inclusão plural que marcava o liberalismo fundacional.

    Essa transição ficou ainda mais evidente com a ascensão de figuras como Mariana Leitão. Jovem, combativa, mediática, Leitão é hoje um dos rostos mais visíveis da IL e simboliza uma nova ortodoxia: o Estado é visto como um obstáculo, os impostos como roubo, e a solidariedade como dependência. É também uma admiradora assumida de Javier Milei, o presidente argentino que quer “dinamitar o Estado”. O elogio a Milei, aprovado na última convenção do partido, marca um ponto de não retorno: a IL aproxima-se agora, não do liberalismo clássico, mas do libertarismo radical.

    Mas o que é, afinal, o libertarismo? Trata-se de uma corrente política que defende a mínima intervenção do Estado na vida dos cidadãos, tanto na economia como nas relações sociais. Em teoria, valoriza ao máximo a liberdade individual. Na prática, recusa quase todos os instrumentos de proteção social, regulação económica e redistribuição fiscal. Não se trata de reformar o Estado: é uma tentativa de o substituir por um mercado puro.

    Essa transição está patente nas propostas concretas da IL: um sistema de pensões parcialmente privatizado, com contas individuais de capitalização; um modelo de vouchers para a educação, permitindo que o financiamento público seja usado em escolas privadas; o “SUA-Saúde“, que abre espaço à subcontratação extensiva de serviços de saúde (Wikipedia – Iniciativa Liberal). E, claro, uma reforma fiscal agressiva, com menos progressividade e menos impostos sobre o capital.

    Não se trata apenas de propostas técnicas. Estas ideias revelam uma mudança de paradigma: o Estado Social, tal como o conhecemos em Portugal desde a Constituição de 1976, passa a ser visto como problema, não como conquista.

    Ao mesmo tempo, cresce a influência de redes internacionais como a Atlas Network ou a Heritage Foundation, conhecidas por apoiar movimentos anti-Estado e por promover uma agenda ultraliberal e conservadora. O Instituto +Liberdade, fundado por Carlos Guimarães Pinto, antigo presidente da IL, é parceiro da Atlas Network. Membros do partido participaram em formações e eventos promovidos por estas organizações, que incluem financiamento e partilha de estratégias comunicacionais e legislativas. Um artigo do Esquerda.net destaca, inclusive, o apoio financeiro de indústrias do petróleo e tabaco a projetos ligados a essas redes.

    Apesar disto, a IL continua a apresentar-se como liberal. Mas a diferença entre liberalismo e libertarismo não é apenas semântica. É uma diferença de modelo de sociedade: num, o Estado garante condições para o exercício da liberdade; noutro, o Estado é apenas tolerado enquanto não interfere.

    Esta metamorfose da IL pode não ter impacto eleitoral imediato, mas terá, certamente, impacto discursivo. Se as suas ideias ganharem centralidade na direita portuguesa, podemos assistir à normalização de uma agenda que, em nome da liberdade, pode fragilizar ainda mais os mais vulneráveis.

    O debate está aberto. E é urgente.

  • Quando a arte não grita, mas resiste: Estética contra a nova vaga autoritária

    Introdução: a arte como ameaça

    Todo regime quer uma história que possa controlar. Em todo o mundo, governos autoritários aprenderam que controlar a arte é um atalho para moldar a percepção. A arte, na sua forma mais verdadeira, recusa-se. Não marcha em formação. Desvia-se, questiona, sonha, distorce – e o pior de tudo para os autoritários: ouve as margens.

    Por isso, ao longo da história, governos repressivos – de fascistas a fundamentalistas – atacaram artistas, cortaram apoios, censuraram imagens e queimaram livros. Porque mesmo quando frágil ou obscura, a arte remodela a percepção – e a percepção é o campo de batalha da ideologia.

    Neste artigo, exploramos por que a cultura independente se torna um alvo privilegiado para forças autoritárias, nacionalistas e economicamente conservadoras. E porque a guerra contra a cultura nunca é apenas sobre cultura: é sobre controlo.

    Por que a arte é perigosa para o poder

    A arte não obedece. Um poema pode significar cinco coisas ao mesmo tempo. Uma pintura pode ser ferida, prece e grito. Uma performance pode confundir, assombrar, encantar – e nunca se explicar.

    • Cria ambiguidade onde o poder exige clareza.
    • Amplifica o indizível.
    • Torna visível o que devia permanecer invisível.
    • Gera emoção onde a propaganda apenas instrui.

    Arte sancionada vs. arte dissidente

    Nem toda a arte é bem-vinda. O poder adora a arte – desde que obedeça. Ao longo da história, regimes autoritários promoveram uma estética oficial: heróica, sentimental, inequívoca.

    • Realismo socialista soviético
    • “Jardim Nacional de Heróis Americanos” (Trump)
    • Festivais folclóricos nacionalistas (Orbán)
    • Estética hindutva (Modi)

    A mensagem é clara: podes criar, desde que te conformes.

    Quando a história se recusa a obedecer

    Os regimes autoritários não temem apenas o futuro. Temem também o passado. A história é rebelde. Não se alinha com mitos patrióticos. Contém massacres, resistências, colonizadores e colonizados. Quando a história se recusa a obedecer, o poder tenta reescrevê-la.

    Artistas, escritores e curadores fazem perguntas que nenhum manual escolar quer enfrentar:

    • Quem é lembrado?
    • Quem decide o que é motivo de orgulho nacional?
    • Quem desaparece quando a história é higienizada?

    A arte cria contra-monumentos. Memoriais para o negado. Obras que mantêm viva a memória dos que foram silenciados. E uma memória viva não pode ser controlada: vagueia, protesta, contradiz. E prepara a resistência que vem.

    IV. Exemplos de resistência estética

    • Paula Rego: enfrentou a ditadura portuguesa com desenhos que davam “cara ao medo”.
    • Crack Rodríguez: artista salvadorenho que usa performance como forma de protesto.
    • Banksy: transforma as ruas em telas de subversão com humor e crítica social.

    O caso português: ataque à cultura crítica

    Com o crescimento do CHEGA, temos assistido a uma ofensiva simbólica contra a cultura progressista. O partido acusa a arte contemporânea de ser “woke”, “elitista” ou “ideológica”. Defende o fim de apoios públicos a projectos que não celebrem valores “tradicionais”.

    Esta retórica tem efeitos reais: pressão sobre câmaras municipais, deslegitimação de artistas, cortes de financiamento. Tudo isto num contexto em que a esquerda cultural perdeu parte do seu enraizamento social.

    Organizar a resistência: passado e futuro

    Durante o salazarismo, movimentos como o neo-realismo e o MUD Juvenil reuniram artistas, intelectuais e militantes em torno da resistência cultural. Hoje, apesar da existência de estruturas como a CENA-STE, a maioria dos artistas continua dispersa e desprotegida.

    Reorganizar a resistência cultural exige redes, consciência de classe e alianças com movimentos sociais. E exige lembrar o passado: o que se conquistou, o que se perdeu, e o que ainda pode ser feito.

    Conclusão: o gesto que sobrevive ao ruído

    A arte pode não mudar governos. Mas muda percepções. E isso, para quem quer um povo obediente, é insuportável.

    Quando a arte não grita, resiste. E quando resiste, oferece outra forma de ver o mundo. E isso basta para ser perigosa. Porque toda visão nova carrega em si a semente da mudança.

    Referências