• Jardins murados e a promessa da liberdade digital

    Há algo de irónico na forma como as grandes empresas tecnológicas falam de liberdade. Prometem simplicidade, segurança e privacidade, mas fazem-no à custa de barreiras cada vez mais altas. A Apple é talvez o exemplo mais visível: decide que aplicações podemos instalar, que acessórios são válidos e que serviços se podem usar. O argumento é sempre o mesmo — proteger o utilizador. Mas que tipo de liberdade é essa, quando só existe dentro de um espaço cuidadosamente vigiado?

    A União Europeia, através da Digital Markets Act (DMA), tenta abrir brechas nesses muros. Obriga os chamados gatekeepers a permitir alternativas: outras lojas de aplicações, escolhas de software pré-instalado, interoperabilidade real entre dispositivos. Não é apenas uma questão legal, mas cultural: quem deve ter a última palavra sobre os nossos aparelhos — nós ou as empresas que os fabricam?

    Como escreve David Bollero no Publico.es, a Apple tem vendido incompatibilidade disfarçada de exclusividade.


    A tentação do controlo

    O caso da Apple é paradigmático, mas não está sozinha. A Google, que durante anos se apresentou como alternativa mais aberta com o Android, começa a seguir o mesmo caminho. Avisos intimidatórios ao instalar aplicações externas, bloqueios do Play Protect, dependências técnicas que tornam os serviços quase indispensáveis. Passo a passo, o jardim aberto transforma-se num espaço cercado.

    É sempre a mesma narrativa: restringe-se em nome da proteção. Mas proteger o utilizador significa também decidir por ele — e isso, levado ao extremo, transforma cidadãos em clientes cativos.


    Liberdade e risco

    A liberdade digital nunca foi isenta de perigos. Instalar uma aplicação fora da loja oficial pode trazer problemas de segurança. Mas a ausência de liberdade traz outro risco: o da infantilização tecnológica. Se não podemos decidir sobre o que corre nos nossos próprios dispositivos, até que ponto eles são verdadeiramente nossos?

    A história repete-se: nos anos 90 discutia-se se os computadores deveriam ser fechados ou abertos à personalização. Hoje, o palco é o dos smartphones, mas a disputa é a mesma — liberdade criativa contra comodidade controlada.


    O gesto europeu

    É revelador que seja a União Europeia a colocar limites a este poder privado. Muitas vezes acusada de burocrática, é agora a voz que insiste na abertura, na concorrência e na possibilidade de escolha. As multas e investigações contra a Apple e a Google não são apenas atos de regulação, mas declarações políticas: a tecnologia deve servir os cidadãos, não o inverso.


    Entre muros e janelas

    O futuro digital decide-se nesta tensão entre muros e janelas. Muros que confinam, janelas que abrem possibilidades. Os tribunais ditarão parte do resultado, mas outra parte dependerá de nós, utilizadores: aceitamos o conforto do jardim murado ou reclamamos o direito de arriscar a nossa própria liberdade?

    Talvez esta seja a verdadeira questão: se queremos ser tratados como adultos capazes de decidir ou como crianças a quem se oferece apenas a ilusão da escolha.

  • Portugal: entre a social-democracia perdida e o liberalismo contido

    Um dos maiores mitos repetidos pela direita portuguesa é o de que “há Estado a mais” em Portugal. A frase ecoa nas campanhas eleitorais e nos debates televisivos, servindo de justificação para cortes, privatizações e promessas de “modernização”. Mas, ao olhar para os números e para a realidade dos serviços públicos, a narrativa cai por terra.

    A verdade, como lembra Ricardo Paes Mamede num recente artigo no Público, é que a despesa pública em Portugal está entre as mais baixas da União Europeia — tanto em percentagem do PIB como em despesa por habitante ajustada ao custo de vida. Não só não temos “Estado a mais”: temos cada vez menos Estado, cada vez menos social-democracia.


    Portugal na cauda da despesa pública

    Entre 2013 e 2024, a despesa pública portuguesa caiu de cerca de 50% para 42,8% do PIB. No mesmo período, a média da União Europeia pouco se alterou (50% → 49,2%). Hoje, Portugal é o 6.º país da UE com menor despesa do Estado em proporção da riqueza nacional.

    Em paridade de poder de compra, há apenas seis países onde o Estado gasta menos por habitante do que em Portugal: Bulgária, Letónia, Grécia, Roménia, Estónia e Lituânia — quase todos com rendimentos médios mais baixos. Ou seja: Portugal financia os seus cidadãos como os países mais pobres da União, apesar de estar acima deles em riqueza relativa.


    O custo da disciplina orçamental

    Este recuo do papel do Estado tem uma explicação: a redução acelerada do rácio da dívida pública, de mais de 130% do PIB em 2013 para menos de 95% em 2024. Um feito orçamental notável — mas alcançado à custa de investimento público historicamente baixo, congelamento de salários e progressões na função pública, e degradação dos serviços coletivos.

    O preço está à vista: filas intermináveis no SNS, escolas sobrelotadas, ausência de políticas sérias de habitação, serviços administrativos sem resposta.


    O mito da eficiência e a ilusão liberal

    Sempre que surgem críticas ao Estado social, a resposta é a mesma: “o problema é a ineficiência”. Claro que há margem para melhorias — digitalização, melhor gestão de recursos humanos, combate ao desperdício. Mas acreditar que é possível aumentar a eficiência e, ao mesmo tempo, reduzir ainda mais a despesa pública é uma ilusão.

    O exemplo português mostra o contrário: mais cortes, mais privatizações e mais pressão sobre trabalhadores públicos têm resultado em menos capacidade de resposta e maior desigualdade no acesso a serviços básicos.


    A transição em curso

    Portugal não é (ainda) uma sociedade liberal ao estilo americano, onde o Estado se demite quase por completo da saúde ou da educação. Mas está claramente numa fase de transição:

    • Do lado social-democrata, mantém pilares universais como o SNS e a escola pública.
    • Do lado liberal, assiste-se a uma transferência gradual de responsabilidades para o setor privado, acompanhado de uma retórica de “menos Estado, mais liberdade económica”.

    O resultado é um hibridismo instável: um Estado mínimo para os mais pobres, e um mercado privado para quem pode pagar.


    Conclusão

    A insistência em reduzir a despesa pública como percentagem do PIB está a transformar Portugal num país cada vez menos social-democrata, cada vez mais liberalizado.

    A pergunta, afinal, não é se temos “Estado a mais”.
    A pergunta é: até quando queremos viver num país onde o Estado social se aproxima mais dos padrões dos países mais pobres da Europa do que dos países mais ricos?

  • Laundos – Férias 2025

    Aproveitei as férias para um retiro em Laundos, uma pequena aldeia do concelho de Póvoa de Varzim. Um retiro longe da confusão da cidade. Laundos permitiu, acima de tudo, um descanso mental.

    Alojado no monte de S. Félix, aproveitei o conforto das excelentes comodidades do hotel, o sossego permitido por uma localização envolta em natureza e explorei um pouco a aldeia e o monte.

    Agora o regresso à normalidade. Mas as memórias ficam.

  • Espinho, uma cidade adiada: entre promessas enterradas e falta de visão

    Durante grande parte do século XX, Espinho cultivou uma identidade única: era cidade balnear, era cidade industrial, era cidade de passagem — onde o som dos comboios se confundia com a brisa do mar e o bulício do comércio local. Mas as últimas décadas transformaram-na. E não para melhor.

    Hoje, Espinho é o espelho de um fracasso silencioso. A cidade perdeu quase toda a sua indústria, viu partir gerações de jovens e tornou-se dependente de um comércio frágil e de serviços sazonais, altamente expostos ao turismo e à conjuntura. A sua transformação urbanística — vendida como um salto em frente — acabou por traduzir-se numa descaracterização dolorosa. E o mais grave: quem cá vive continua a pagar um custo de vida elevado, sem que isso se reflita na qualidade do espaço urbano, das oportunidades ou dos serviços públicos.

    O fim da indústria, o vazio da alternativa

    Quando Espinho perdeu o seu tecido industrial — não apenas os têxteis como a Corfi, mas também unidades como a Fosforeira, a fábrica de plásticos Hércules, a fundição metalomecânica e outras pequenas e médias empresas — o impacto foi brutal. Eram estruturas que garantiam emprego estável, com especialização técnica, e que alimentavam o comércio local, a classe média e o sentido de comunidade produtiva.

    Nada as substituiu verdadeiramente. Houve promessas. Houve slogans. Mas não houve estratégia. A cidade passou a depender cada vez mais do verão, das segundas habitações, dos cafés de domingo à tarde. Fora da época alta, o centro esvaziou-se. O comércio perdeu alma. Os empregos tornaram-se precários. E os jovens partiram.

    A crise económica de 2011 a 2014 expôs essa fragilidade de forma brutal. Nesses anos, Espinho chegou a ser o concelho com maior taxa de desemprego do país. A cidade que antes tinha fábricas e dignidade laboral passou a ter filas no centro de emprego. E mesmo depois da saída da troika, nunca recuperou verdadeiramente o fôlego.

    O enterramento da linha férrea: promessa que se afundou

    A grande obra dos tempos modernos foi o enterramento da linha férrea. Defendida por José Mota como forma de unir a cidade, eliminar as passagens de nível e dar uma nova centralidade urbana a Espinho. A promessa era grande. O resultado, dececionante.

    Com a linha enterrada, ficou um enorme vazio à superfície. Literal e figurado. O espaço que se abriu no coração da cidade foi mal pensado, mal tratado e pior aproveitado. O traçado é árido, sem sombra, sem cor, sem vida. Uma “avenida” onde ninguém se quer sentar. Onde o comércio não pegou. Onde a cidade, em vez de se unir, parece ter perdido a sua espinha dorsal.

    José Mota sonhou a obra, mas Pinto Moreira, seu sucessor, teve tempo mais do que suficiente para a corrigir. Não o fez. Limitou-se a gerir o vazio, a pintar por cima, a empurrar com a barriga. A oportunidade de transformar aquele espaço num verdadeiro fórum cívico e cultural morreu à nascença.

    Lideranças que se sucedem sem romper com o passado

    José Mota, Pinto Moreira, Miguel Reis. PS, PSD, depois PS outra vez. Todos eles falharam. Todos eles prometeram mudar o rumo da cidade. Nenhum o fez. Pior: todos eles foram ou são arguidos em processos judiciais, por suspeitas diversas — desde corrupção a favorecimento pessoal. Nenhum projeto político sobrevive quando está contaminado por esta promiscuidade entre cargos públicos e interesses privados.

    O que deveria ser alternância tornou-se continuidade. E Espinho ficou no meio: órfã de ideias, órfã de visão, órfã de esperança.

    Uma cidade cara para viver, pobre em retorno

    E como se não bastasse tudo isto, viver em Espinho é caro. Muito caro. Os preços da habitação rivalizam com os de cidades vizinhas muito mais dinâmicas. As rendas são incomportáveis para quem ganha salários locais. E até os pequenos consumos — supermercado, cafés, restauração — se fazem notar na carteira de quem aqui vive o ano inteiro. É um paradoxo cruel: uma cidade estagnada… que custa como se estivesse em expansão.

    O que resta?

    Resta a memória. Resta o mar. Resta uma localização invejável. E, acima de tudo, resta a possibilidade de fazer diferente. Mas para isso é preciso mais do que obras. É preciso visão, coragem e um profundo respeito pela cidade e pelos que cá vivem o ano inteiro.

    Espinho não precisa de ser Dubai. Nem Porto. Nem Lisboa. Precisa apenas de ser Espinho — com alma, com história, com identidade. Isso exige pensar a cidade de forma integrada, criar espaços vivos e acessíveis, apoiar quem quer empreender e cuidar de quem aqui envelhece.

    As promessas já não chegam. É tempo de exigir mais. Muito mais.

    Nota de autor

    Escrever sobre Espinho custa. Porque é a cidade onde nasci, onde cresci, onde vivo. Conheço-lhe os cantos e os silêncios, os nomes e os gestos. Talvez por isso mesmo, não consigo calar o que vejo e o que falta.

    Esta crítica não nasce de mágoa, nem de superioridade. Nasce do desejo de ver Espinho melhor, mais viva, mais justa. De a ver com futuro — e não apenas com passado.

    Escrevo com a proximidade de quem aqui caminha todos os dias. E com a esperança teimosa de que ainda é possível fazer diferente.

  • As palavras que salvam: como a leitura muda o mundo

    Há livros que não se leem — acontecem-nos. Entram-nos pela pele, atravessam as fissuras do quotidiano e fixam morada num canto da memória. Não mudam o mundo com estrondo, mas com persistência. E, às vezes, é o suficiente.

    Ler pode salvar. Não no sentido romântico da redenção fácil, mas na possibilidade real de nos resgatar da apatia, da solidão, da ignorância. Há quem tenha sido salvo da morte por uma página lida na cela. Há quem tenha sobrevivido ao exílio, ao luto, à doença, graças às palavras que encontrou — ou que o encontraram — num livro.

    “A leitura é, provavelmente, uma outra maneira de estar em lugar nenhum” — José Saramago

    A leitura é um acto íntimo, mas não inócuo. Não se trata apenas de decifrar letras, mas de estabelecer ligações com mundos que se abrem no silêncio. Cada leitor carrega dentro de si uma biblioteca invisível, feita de sublinhados mentais, de frases que ficaram a ecoar, de personagens que se tornaram companhia.

    Mas ler é também, inevitavelmente, um acto político. Os regimes autoritários sabem-no bem. Censuram, queimam, proíbem livros porque sabem que o pensamento se torna mais difícil de controlar quando nasce alimentado por ideias que desafiam. No Chile de Pinochet, liam-se poemas escondidos em sacos de arroz. Na ditadura portuguesa, os livros proibidos passavam de mão em mão, como contrabando de liberdade.

    Também hoje, de forma mais subtil, há quem deseje uma população que não leia — ou que leia apenas o que entretém e não perturba. A literacia crítica é incompatível com o conformismo.

    Leitura e metamorfose

    Recordo-me de livros que me transformaram — não com grandes lições morais, mas com a lenta infiltração de uma nova sensibilidade. O livro certo no momento certo é como uma conversa que chega quando mais precisamos. E às vezes nem sabemos disso à partida.

    Ler Primo Levi, Ildefonso Falcones, Leïla Slimani ou João Tordo não me tornou uma pessoa melhor por si só. Mas deixou-me menos confortável com a ignorância, menos tolerante com o silêncio cúmplice, mais disposto a escutar o outro — e a mim próprio.

    Mas salvar… de quê?

    Salvar da solidão, da alienação, da superficialidade. Salvar do ruído. A leitura dá-nos um espaço interior que o mundo parece querer extinguir com distrações constantes. Ao ler, recuperamos o tempo. A pausa. A dúvida. E é nesses intervalos que a consciência respira.

    Não é um gesto heroico. Mas é, talvez, o mais persistente dos gestos transformadores. Quando não temos voz, lemos a de outros. E assim, pouco a pouco, vamos encontrando a nossa.

    O acesso desigual ao livro

    Claro, seria ingénuo ignorar que nem todos têm o privilégio de ler. O tempo, os meios, a educação, o acesso — tudo isso ainda determina quem pode (e como pode) ler. Mas resistem as bibliotecas públicas, os clubes de leitura de bairro, os audiolivros, os projectos comunitários que distribuem livros por caixas de correio ou bancas improvisadas.

    Ler continua a ser, paradoxalmente, um gesto revolucionário e frágil. Mas é nas mãos de quem lê que o mundo se escreve de novo.

    As palavras que ficam

    No fim, talvez o mais importante sejam as palavras que nos ficam. Que ecoam quando o ruído pára. Que nos lembram que a dor é partilhável, que a beleza é possível, que o pensamento é uma forma de acção.

    Ler é, talvez, a forma mais silenciosa de gritar que ainda acreditamos.

    Leituras complementares

  • Sombras com Luz – Uma playlist para atravessar o tempo

    Entre o silêncio e o ruído, entre o peso e a leveza, há uma paisagem sonora feita de delay, distorção e memória.

    Esta playlist é um mapa emocional. Inspirada em Ludovico Einaudi e Nils Frahm, mas alargando-se ao post-rock, ao ambient e ao metal progressivo, Sombras com Luz propõe uma viagem interior através de composições cinematográficas que não precisam de voz para contar histórias.

    Faixa a faixa

    Explosions in the Sky – “Your Hand in Mine”
    The Earth Is Not a Cold Dead Place (2003)
    Crescendo emocional. Guitarras limpas que parecem lembrar-nos algo esquecido.

    Mono – “Ashes in the Snow”
    Hymn to the Immortal Wind (2009)
    Melodia arrastada como uma memória. Do silêncio à catarse em 10 minutos.

    Alcest – “Sur l’océan couleur de fer”
    Septembre et Ses Dernières Pensées (2010)
    Melancolia francesa com aura marítima. Shoegaze com alma neoclássica.

    Cloudkicker – “Let Yourself Be Huge”
    Let Yourself Be Huge (2011)
    Pequena peça ambiental. Peso emocional sem levantar a voz.

    Russian Circles – “Mládek”
    Empros (2011)
    Riffs que constroem muralhas. Uma viagem épica e instrumental.

    Jakob – “Blind Them with Science”
    Solace (2006)
    Peso elegante com guitarra emocional. Evocativo e intenso.

    A Winged Victory for the Sullen – “Steep Hills of Vicodin Tears”
    A Winged Victory for the Sullen (2011)
    Textura aérea e sagrada. Cordas sobre névoa interior.

    Ólafur Arnalds – “Saman”
    re:member (2018)
    Piano íntimo com beleza delicada. Uma conversa quase sussurrada.

    Ólafur Arnalds – “Near Light”
    Living Room Songs (2011)
    Minimalismo emotivo com um toque nórdico. Intimista e reflexivo.

    Hammock – “Turn Away and Return”
    Everything and Nothing (2016)
    Guitarras em suspensão. Luz e sombra em equilíbrio perfeito.

    Federico Albanese – “By the Deep Sea”
    By the Deep Sea (2018)
    Composição cinematográfica submersa em melancolia.

    Long Distance Calling – “Black Paper Planes”
    Avoid the Light (2009)
    Metal instrumental com estrutura progressiva. Carregado de tensão contida.

    The Ocean (Collective) – “The Quiet Observer”
    Pelagial (2013)
    Música subaquática e opressiva. Conceitual e densa.

    Solstafir – “Fjara”
    Svartir Sandar (2011)
    Metal islandês com alma folk. Melancolia que rasga.

    Nils Frahm – “Says”
    Spaces (2013)
    Minimalismo repetitivo com electrónica subtil. Cresce lentamente.

    Kiasmos – “Looped”
    Kiasmos (2014)
    Electrónica com emoção e estrutura clássica. Pulsante e envolvente.

    Ben Lukas Boysen – “Golden Times 1”
    Spells (2016)
    Piano e texturas digitais que evocam calor e nostalgia.

    Rival Consoles – “Unfolding”
    Overflow (2021)
    Batida densa com camadas melódicas. Dança introspectiva.

    Daniel Avery – “Endless Hours”
    Ultra Truth (2022)
    Ambiente escuro com loops emocionais. Ideal para noites longas.

  • The Summer Portraits: como Einaudi pinta o verão com melancolia

    Quando Ludovico Einaudi lança um novo álbum, sabemos que não estamos apenas perante um conjunto de peças musicais, mas diante de uma experiência emocional. Com The Summer Portraits (2025), o compositor italiano regressa com um ciclo de 13 peças que são, mais do que nunca, retratos sonoros: evocações da luz, da liberdade e da nostalgia que o verão nos deixa.

    A villa, os quadros, a memória

    O álbum nasceu da estadia de Einaudi numa villa numa ilha mediterrânica, onde passou o verão anterior. Ao chegar, descobriu que a casa estava decorada com 30 a 40 quadros a óleo — todos aparentemente da mesma autora. Após alguma investigação, ficou a saber que a casa pertencera a uma mulher que ali veraneava todos os anos com a família e que deixava, a cada verão, novas pinturas como testemunho desse tempo.

    Inspirado por esse gesto silencioso e criativo, Einaudi mergulhou nas suas próprias memórias de verão: “o tempo em que a vida estava ligada aos sentidos, em que os dias pareciam meses, os meses como anos, e eu era livre do amanhecer ao anoitecer… a natureza era parte de nós, nós éramos natureza”. Foi esse sentimento que o levou a criar os seus próprios retratos — mas com música. “Este álbum é dedicado a todas as nossas memórias dos verões intermináveis, a todos os momentos belos que vivemos”, explicou.

    Entre a leveza e a profundidade

    Em The Summer Portraits, Einaudi continua fiel à sua identidade: piano minimalista, melodias circulares, uso delicado da repetição. Mas desta vez junta a isso os arranjos orquestrais gravados com a Royal Philharmonic Orchestra, elevando a textura emocional das composições. A leveza do piano encontra contraponto nas cordas, que sugerem a densidade da memória.

    O tempo como paisagem

    Tal como em discos anteriores, o tempo é o grande tema. Aqui, o verão é mais do que uma estação: é uma ideia. Uma lembrança do que foi vivido, do que poderia ter sido, ou do que já não volta. Em faixas como “In Memory of a Dream” ou “Santiago”, somos convidados a percorrer caminhos interiores. Não são paisagens que se vêm, são paisagens que se sentem.

    Cinematografia sonora

    Não é de admirar que a música de Einaudi continue a ser escolhida por realizadores e publicitários. Neste álbum, cada tema soa a uma curta-metragem emocional. “Rose Bay” poderia ser a abertura de um filme sobre reencontros. “Maria Callas”, com o seu dramatismo contido, seria perfeita para uma sequência de memórias apagadas.

    Um verão amadurecido

    Aos 69 anos, Einaudi olha para o verão não com a impetuosidade da juventude, mas com a serenidade de quem sabe que os dias longos também acabam. É um disco que não celebra a estação, mas a saudade que ela deixa. E talvez por isso nos toque tanto.

    The Summer Portraits é, mais do que um disco, um espelho de sensações. Uma memória musical do verão que, como todas as boas lembranças, sabe misturar luz e sombra com uma elegância silenciosa.

    Um convite à escuta

    Convido-lhe a escutar The Summer Portraits com tempo e silêncio — talvez ao fim da tarde, com uma luz morna a entrar pela janela. Deixe que cada faixa lhe leve de volta aos seus próprios verões: aqueles que viveu, sonhou ou perdeu. Pode começar por “Rose Bay”, “In Memory of a Dream” e “Santiago” — e deixar que o resto lhe encontre.

    Disponível nas principais plataformas de streaming, ouça-o como quem folheia um velho álbum de fotografias. Mas aqui, as imagens são som.

  • Imigração em Portugal: Novas Regras, Excepções e a Criação de Emigrantes de Primeira e de Segunda

    O Governo português aprovou recentemente, em Conselho de Ministros, um conjunto de propostas que visam alterar profundamente a legislação relativa à imigração, nacionalidade e reagrupamento familiar. Estas medidas, ainda sujeitas à aprovação parlamentar, representam uma viragem significativa na forma como Portugal regula a entrada, permanência e integração de estrangeiros.

    Novas Regras para o Reagrupamento Familiar

    • Apenas é possível requerer o reagrupamento após dois anos de residência legal em Portugal.
    • O familiar a reagrupar não pode estar em Portugal, com excepção dos filhos menores.
    • Requisitos mantidos:
      • Habitação adequada;
      • Meios de subsistência próprios;
      • Não dependência de apoios sociais.
    • Obrigatoriedade de aprendizagem da língua portuguesa e valores constitucionais por parte dos familiares.
    • A AIMA poderá abrir ou fechar vagas consoante a sua capacidade.

    Excepções: Quem Escapa às Restrições

    Estão isentos das novas restrições:

    • Titulares de Vistos Gold (Autorização de Residência para Investimento);
    • Detentores do Cartão Azul UE (profissionais altamente qualificados);
    • Trabalhadores com residência como altamente qualificados (a regulamentar).

    Estes grupos podem pedir reagrupamento familiar logo no início, trazer familiares de qualquer idade e estão isentos de provas linguísticas ou culturais.

    Alterações à Lei da Nacionalidade

    • Residência mínima aumentada:
      • De 5 para 10 anos (imigrantes em geral);
      • Para 7 anos (países de língua oficial portuguesa).
    • Novos critérios:
      • Conhecimento da cultura, organização política e valores democráticos;
      • Declaração solene de adesão aos princípios da República.
    • Filhos de estrangeiros nascidos em Portugal: só serão portugueses se um dos pais tiver 3 anos de residência legal (em vez de 1 ano de presença).

    Conclusão

    Os Vistos Gold, uma criação do PSD, voltam a ganhar nova força e dividem os imigrantes em duas classes.

    • Privilegiados (investidores e quadros qualificados), com acesso facilitado;
    • Comuns, com prazos mais longos, obstáculos e maior exigência. Em suma, um inferno burocrático e desumanidade.

    Dado o boom migratório, que ocorreu especialmente devido ao facilitismo dado no tempo dos executivos de António Costa, era imperativo um maior controlo, mas o PSD – como é seu apanágio – vai sempre além. Passar de 5 para 10 anos de espera para naturalização é absurdo.

    Além disto, se aprovadas, estas leis irão reforçar um modelo que valoriza o capital sobre a condição humana, e que arrisca transformar Portugal num país que escolhe os seus imigrantes não com base na solidariedade e no princípio de igualdade, mas com base na carteira e no potencial de mercado de cada um.

  • Crise na habitação: Causas, mitos e possíveis soluções

    Cidades para viver ou para vender? A crise da habitação em Portugal expõe contradições profundas entre o direito à casa e a lógica do mercado.

    A crise da habitação em Portugal é hoje um dos temas mais quentes do debate público. Com rendas incomportáveis para a maioria, jovens sem possibilidade de sair de casa dos pais, e um mercado onde quem compra não são os residentes mas sim investidores, fundos ou turistas, muitos começam a perguntar: ainda é possível viver nas nossas cidades?

    A resposta é complexa, mas o problema é claro: o direito à habitação está hoje subjugado à lógica do mercado e da especulação.

    Causas da crise em Portugal

    O mito da imigração como causa da crise

    Muitos discursos públicos, nomeadamente de cariz populista, têm tentado associar o aumento dos preços da habitação ao crescimento da imigração em Portugal. No entanto, essa relação é profundamente simplista e não resiste à análise.

    A população estrangeira residente tem crescido de forma significativa, devendo ultrapassar os 1,6 milhões até ao final deste ano. Se é verdade que alguns imigrantes — como muitos cidadãos britânicos — têm maior poder de compra, também é certo que a maioria ocupa nichos de mercado habitacional abandonados ou degradados, frequentemente em condições indignas e localizados em zonas periféricas.

    A verdadeira causa da crise da habitação não está no número de imigrantes, mas na ausência de políticas públicas eficazes, no enorme défice de construção de habitação acessível, na especulação imobiliária, e na falta de regulação eficaz do arrendamento e do alojamento local.

    Culpar a imigração pela crise é uma distração conveniente que encobre os verdadeiros interesses económicos e decisões políticas que estão na origem do problema.

    Embora muito se fale da imigração como causa do boom habitacional, essa é apenas uma parte mínima do problema. A raiz da crise em Portugal está noutros fatores mais profundos e estruturais:

    • Oferta insuficiente: a construção nova não acompanha a procura, especialmente nas cidades mais pressionadas. Os solos urbanos são escassos e mal geridos.
    • Especulação imobiliária: muitos imóveis são comprados por investidores ou fundos para arrendamento de curta duração ou simples valorização futura.
    • Turismo e alojamento local: Lisboa passou de 13 para 55 milhões de dormidas anuais em menos de duas décadas. Muitas casas deixaram de estar acessíveis às populações locais.
    • Políticas públicas insuficientes: Portugal tem um dos parques habitacionais públicos mais reduzidos da Europa. As autarquias venderam terrenos e não os usaram para construir habitação acessível.
    • Crédito e fiscalidade: durante anos, o crédito barato e a falta de regulação incentivaram a compra para lucro e não para residência.

    A crise que bate recordes: dados de 2025

    Segundo dados divulgados pelo INE e noticiados pelo jornal Público, os preços das casas em Portugal subiram mais de 16% nos primeiros cinco meses do ano — o maior aumento desde que há registos.

    Este aumento coincide com a entrada em vigor da garantia pública para jovens na compra da primeira casa, uma medida lançada pelo Governo que veio fomentar a procura. Mas este fenómeno não pode ser dissociado das causas estruturais já identificadas: oferta insuficiente, pressão turística, especulação internacional, falhas regulatórias e ausência de habitação pública em escala.

    Um problema global, com soluções locais

    A crise não é exclusiva de Portugal. Berlim, Barcelona, Paris, Toronto ou Auckland vivem problemas semelhantes. Mas lá fora, muitos países começaram a agir.

    Exemplos a seguir:

    Medidas que Portugal pode adotar

    1. Limitar investimento estrangeiro especulativo: com impostos adicionais ou restrições à compra em zonas de pressão urbana.
    2. Controlar o alojamento local: limitar o número de licenças, criar zonas de exclusão, fiscalizar o cumprimento da lei.
    3. Reabilitar e penalizar casas devolutas: aplicar efetivamente os impostos previstos na lei e reforçar o levantamento de imóveis vazios.
    4. Investir em habitação pública e cooperativa: aumentar drasticamente o parque de habitação acessível, com novas construções e parcerias público-comunitárias.
    5. Reformar o urbanismo e o ordenamento do território: com quotas obrigatórias de habitação acessível em cada novo empreendimento.

    Conclusão

    A crise da habitação é o resultado de décadas de ausência de estratégia, de uma economia centrada no turismo e de uma visão que tratou a casa como mercadoria e não como direito.

    Mas há alternativas. O que falta é coragem política, planificação e vontade de colocar o bem comum à frente do lucro.

    Portugal tem de decidir: cidades para viver ou para vender?

  • Escolhi o KDE Plasma… e deixei tudo como está
    Um elogio ao equilíbrio entre liberdade e simplicidade

    Sou utilizador de GNU/Linux há cerca de 20 anos. Durante muito tempo adorei — e continuo a adorar — a liberdade que o Linux me dá. Sempre foi essencial poder moldar o sistema à minha medida: mudar temas, ajustar o painel, substituir menus, afinar fontes, configurar atalhos, instalar docks, remover efeitos… enfim, adaptar tudo ao meu gosto.

    Mesmo quando os ambientes gráficos by default deixavam a desejar em comparação com os sistemas mainstream, bastavam alguns ajustes para corrigir isso. E eu investia esse tempo com gosto.

    Mas hoje sou um utilizador diferente.

    Não deixei de gostar de personalizar um sistema instalado de raiz, mas tenho menos disponibilidade para o fazer. Tenho menos tempo, chego mais cansado. E, para ser honesto, já não preciso de configurar tudo como antes.

    Ambientes de trabalho como o KDE Plasma — e também o GNOME, entre outros — oferecem atualmente uma experiência surpreendentemente equilibrada logo à partida. São limpos, elegantes, leves e funcionais. Para o meu perfil, o Plasma faz mais sentido (ainda que consiga usar o GNOME sem grandes stresses).

    O painel está no sítio certo. Os ícones são discretos mas reconhecíveis. O compositor é fluido sem distrair. As aplicações nativas integram-se de forma coesa. Tudo flui com uma naturalidade que, honestamente, há uns anos seria impensável no mundo Linux.

    Claro que o Plasma continua a ser o ambiente gráfico para quem quer personalizar até ao último pixel. Mas o que mais me impressiona hoje é outra coisa:

    Hoje, um desktop Linux não me pede nada.
    Posso mudar um pormenor ou outro mas são coisas mínimas. No geral, o Plasma limita-se a deixar-me trabalhar. A deixar-me estar.

    Ironicamente, foi esta liberdade de não ter de mexer em tudo que me prendeu. A sensação de estar a usar algo feito com gosto, com atenção ao detalhe — mas que respeita a minha escolha de não fazer escolhas.

    Sim, podia instalar uma dock ao estilo macOS.
    Podia aplicar um tema ao estilo Windows 11.
    Podia transformar isto tudo num laboratório gráfico.

    Mas não vou.

    Porque hoje, o KDE Plasma já é, por defeito, tudo o que preciso.