• Estabilidade, inovação e poder: BSD, Linux e macOS como três caminhos do Unix

    Há discussões técnicas que, na verdade, nunca são apenas técnicas. A forma como um sistema operativo é desenhado, governado e evolui diz tanto sobre código como sobre valores, prioridades e relações de poder.

    Um exemplo recente disso é o vídeo que circula no YouTube e que coloco no início deste artigo, dedicado a comparar Linux e BSD — não tanto numa lógica de competição, mas como expressões de duas tradições próximas e, ao mesmo tempo, distintas dentro do universo Unix. O vídeo evita a pergunta estéril do “qual é melhor” e aponta antes para algo mais interessante: diferenças de conceção, filosofia e contexto de uso.

    É precisamente aí que a discussão ganha profundidade. Porque, ao lado de Linux e BSD, existe um terceiro vértice frequentemente esquecido nestes debates: o macOS. Um sistema que é herdeiro direto do Unix e da tradição BSD, mas que seguiu um caminho filosófico radicalmente diferente — e que hoje é um dos sistemas operativos mais influentes do mundo.

    O que emerge, quando olhamos para estes três sistemas em conjunto, não é uma hierarquia nem uma resposta definitiva, mas um triângulo de conceções distintas:
    todas legítimas, todas eficazes nos seus contextos, todas com custos e benefícios próprios.


    Linux e Unix: inspiração não é filiação

    Convém esclarecer um ponto que surge frequentemente de forma confusa nestas discussões: o Linux não é Unix. Nem histórica, nem tecnicamente. O Linux inspira-se profundamente na tradição Unix, mas é um kernel criado de raiz, desenvolvido independentemente do código original da AT&T ou das linhagens BSD.

    Quando Linus Torvalds inicia o Linux, no início dos anos 90, fá-lo com o objectivo explícito de criar um sistema compatível com os princípios e a filosofia Unix — simplicidade conceptual, multitarefa, permissões claras, ferramentas pequenas e combináveis — mas sem reutilizar código Unix proprietário. O resultado não é uma continuação direta do Unix, mas uma reinterpretação funcional dos seus valores.

    É por isso que o Linux é frequentemente descrito como Unix-like: comporta-se como Unix, fala a sua linguagem e adopta os seus costumes, mas não pertence à sua genealogia histórica. Ao contrário do BSD ou do macOS, que descendem diretamente dessa linhagem, o Linux representa um gesto diferente: recriar o Unix sem herdar o Unix.

    Essa distinção é mais do que académica. Ela ajuda a perceber porque o Linux se tornou um ecossistema tão flexível e adaptável. Libertando-se da herança institucional do Unix clássico, pôde crescer como plataforma aberta, moldada por necessidades contemporâneas — da cloud aos containers, do embedded ao desktop moderno — sem a obrigação de preservar uma continuidade histórica estrita.


    Não há o melhor sistema — há filosofias diferentes

    Comecemos por uma ideia simples, mas frequentemente esquecida: não existe o melhor sistema operativo em abstrato.
    Existem sistemas que se adaptam melhor a determinados contextos porque foram pensados com pressupostos diferentes.

    BSD, Linux e macOS partilham raízes técnicas profundas. São Unix ou Unix-like. Um utilizador experiente sente-se rapidamente “em casa” nos três. Mas essa proximidade esconde algo mais profundo: uma divergência filosófica clara sobre estabilidade, inovação e controlo.


    BSD: estabilidade como princípio

    Nos sistemas BSD, a estabilidade não é um efeito colateral — é uma intenção fundacional.

    O sistema é concebido como um todo coerente:

    • kernel e userland evoluem em conjunto
    • a documentação corresponde fielmente ao sistema real
    • mudanças são ponderadas, graduais e raras

    Aqui, inovar significa melhorar sem quebrar.
    A previsibilidade é um valor em si mesma.

    Isso explica porque o BSD continua a ser uma escolha sólida para servidores críticos, redes, firewalls e infraestruturas onde o pior erro possível é o inesperado. Não é um sistema orientado para a novidade, mas para a confiança ao longo do tempo.


    Linux: estabilidade como resultado

    Associar o BSD à estabilidade não implica — nem pode implicar — que o Linux seja instável.
    Pelo contrário: o Linux para servidores é hoje um dos sistemas mais estáveis alguma vez criados.

    A diferença está no caminho.

    O Linux não constrói estabilidade pela imobilidade, mas pela gestão da complexidade:

    • ciclos de desenvolvimento claros
    • versões LTS
    • backports criteriosos
    • distribuições pensadas explicitamente para produção

    A estabilidade do Linux moderno é industrial. É resultado de escala, teste massivo e disciplina imposta pela necessidade. E essa necessidade surgiu sobretudo quando as empresas passaram a depender dele.


    O papel decisivo das empresas no Linux

    Sem romantismos: o Linux não teria atingido o seu nível atual sem investimento empresarial.

    Empresas moldaram o Linux de três formas essenciais:

    1. Impuseram previsibilidade — porque produção não tolera caprichos
    2. Profissionalizaram o ecossistema — suporte, certificação, segurança
    3. Normalizaram escolhas — reduzindo a fragmentação inicial

    Isso teve custos: decisões controversas, concentração de poder, perda de alguma diversidade espontânea.
    Mas também teve um efeito decisivo: transformou o Linux numa infraestrutura global confiável.

    E foi esse mesmo processo que, mais tarde, tornou o Linux uma alternativa real no desktop.


    Linux no desktop: viável por investimento, não por ideologia

    Durante muitos anos, o desktop Linux falhou não por razões técnicas profundas, mas por falta de prioridade.

    A viragem aconteceu quando empresas perceberam que:

    • developers usam desktop
    • desktop é porta de entrada para ecossistemas
    • UX importa

    Red Hat, Canonical, Valve, Google e outras financiaram:

    • ambientes gráficos modernos
    • Wayland, PipeWire
    • drivers, gaming, integração

    O Linux no desktop não venceu o mercado — mas tornou-se uma alternativa válida, algo impensável sem investimento estruturado.


    macOS: herdeiro do Unix, antítese filosófica

    É aqui que o triângulo se fecha.

    O macOS assenta numa base BSD real:

    • kernel XNU (Mach + BSD)
    • userland BSD
    • conformidade POSIX

    Tecnicamente, o macOS é mais próximo de um BSD do que de um Linux.
    Mas filosoficamente, segue o caminho oposto.

    Para a Apple:

    • Unix é infra-estrutura invisível
    • o sistema deve ser opaco ao utilizador
    • o controlo é centralizado

    Não há forks viáveis.
    Não há governação partilhada.
    Não há negociação comunitária.

    A estabilidade, a inovação e o poder estão alinhados numa única entidade.

    Funciona — e funciona muito bem. Mas à custa da liberdade do utilizador.


    Três caminhos, uma mesma herança

    O que este triângulo revela não é uma competição, mas uma escolha de prioridades:

    • BSD escolhe coerência e fidelidade técnica
    • Linux escolhe adaptação e escala
    • macOS escolhe controlo e experiência

    Todos partem do Unix (por tecnologia e/ou filosofia).
    Todos chegam a resultados impressionantes.
    Todos pagam preços diferentes.


    Conclusão: tecnologia como espelho da modernidade

    Talvez a conclusão mais honesta seja esta:

    O macOS prova que o Unix pode dominar o mercado.
    O Linux prova que se pode usar a filosofia Unix e ser livre e global.
    O BSD prova que o Unix pode permanecer fiel a si próprio.

    Não há vencedores absolutos.
    Há modelos diferentes de lidar com estabilidade, inovação e poder — na tecnologia, como na sociedade.

    E é por isso que estas discussões continuam a importar muito para lá do código.

  • Sohyang: quando a música se torna verdade

    Há artistas que nascem para o palco e outros que, de alguma forma, passam pelo palco como quem atravessa uma sala — sem esforço, sem arrogância, sem a obsessão da presença. E depois há uma categoria ainda mais rara, quase invisível na história da música moderna: aqueles que não nasceram para o palco, mas para algo muito mais profundo — a entrega. Sohyang pertence a esse grupo.

    Não é exagero afirmar que estamos perante uma das vozes mais extraordinárias do nosso tempo. Mas também seria um erro começar pela técnica, como fazem tantos textos sobre grandes cantores. A técnica dela, por mais impressionante que seja, não é a porta de entrada. O impacto de Sohyang não vem do que a voz consegue — vem do que a voz revela.

    E talvez seja por isso que, apesar de tão rara, continua praticamente desconhecida do grande público ocidental.

    A estranheza luminosa de alguém que não procura ser estrela

    Vivemos numa era em que a indústria musical tem talentos e máquinas de promoção a mais — e autenticidade a menos. Os artistas constroem personas, moldam discursos, produzem versões editadas de si próprios para serem consumidas, vendidas, replicadas. Nada disto é necessariamente mau; faz parte do tempo em que vivemos.

    Sohyang, porém, parece existir fora dessa lógica.

    Não porque recusa o palco, mas porque o palco não é o seu destino. Ela sobe, canta, toca alguém — e volta à sua vida como se nada tivesse acontecido. Não há glamour, não há culto da imagem, não há a narrativa do “fenómeno global” que tantas carreiras procuram encenar. E isto não é estratégia: é coerência.

    Durante anos, vários produtores tentaram “moldá-la” para o mercado internacional. Houve interesse real em levá-la ao Japão, aos Estados Unidos, ao tipo de exposição mediática que cria divas globais. Ela disse não. Não por medo, nem por falsa modéstia, mas porque a fama nunca esteve no horizonte interior dela.

    A música, para Sohyang, não é plataforma — é vocação. E uma vocação nunca se negocia.

    A fé como raiz: mais do que crença, identidade

    Falar de Sohyang sem falar do cristianismo é ignorar metade da sua existência. Não falo de religião como adereço cultural — falo de uma relação espiritual concreta, íntima, que moldou cada escolha que fez, cada música que cantou, cada forma de se apresentar ao mundo.

    Quando vemos o seu canal de YouTube — simples, quase caseiro, sem edição polida — percebemos imediatamente a diferença. Ali não está uma “artista”. Está uma mulher que conversa com a mesma naturalidade com que respira: sobre fé, fragilidade, medo, gratidão. O canal não serve para construir imagem, atrair patrocínios ou vender qualquer ideia de perfeição. Serve para falar de verdade.

    E talvez seja essa transparência espiritual que torna tão intenso o que ouvimos nas suas performances. Há artistas que interpretam emoções; ela não interpreta. Ela acredita. E essa crença — humana, vulnerável, às vezes trémula — dá-lhe uma profundidade que raramente se encontra num palco.

    A emoção que não se representa — vive-se

    Quando Sohyang canta Lean On Me, a sensação não é de estarmos a ver um cover. É outra coisa: é como se a canção ganhasse pela primeira vez aquilo que sempre pediu. Um tipo de luz interior que só existe quando alguém canta com a alma aberta.

    A progressão emocional dessa performance diz tudo sobre ela: começa com um sussurro, quase frágil, cresce com uma naturalidade desconcertante e explode num clímax que não é técnico — é espiritual.

    Everyone representa outro tipo de verdade. É talvez a performance mais humana, mais exposta, mais vulnerável. A meio da música, quando tudo pára, ela fala com o público num tom que não é performativo. Aquele instante não pertence ao espetáculo — pertence à vida.

    A técnica dela é impecável — mas a técnica nunca é o centro. O centro é essa verdade crua que poucos artistas conseguem permitir-se mostrar.

    A técnica que existe para servir a emoção, não o contrário

    Há quem chame a Sohyang de “vocalista perfeita”, “diva absoluta”, “fenómeno técnico”. São elogios verdadeiros, mas insuficientes.

    Sim, ela tem controlo de belting que rivaliza com Céline Dion.
    Sim, tem pureza vocal que lembra as grandes sopranos.
    Sim, improvisa com fluidez gospel, canta jazz com phrasing limpo, aborda música clássica com rigor.
    Sim, consegue transitar do pop para o lírico, do rap para o soul, como se mudasse de respiração.

    Mas a grande distinção é outra: ela usa a técnica para abrir caminhos emocionais, não para os ocultar.

    Onde outros artistas se resguardam atrás da perfeição, Sohyang expõe-se.
    Onde outros aplicam a técnica como escudo, ela usa-a como ponte.

    E isso é tão raro quanto difícil.

    Um tesouro escondido — não por acaso, mas por convicção

    A pergunta inevitável é: como é possível que uma artista assim não seja globalmente conhecida? A resposta é simples: porque não quis. Porque o mundo da música, tal como está, não combina com o modo como ela vive.

    Sohyang não cabe no molde.
    Não quer ser ícone.
    Não quer ser marca.
    Não quer entrar na lógica do olhar permanente.

    E essa recusa, longe de diminuir o impacto dela, amplifica-o. Porque não vemos nela uma estrela inacessível — vemos uma mulher inteira.
    E talvez seja essa integridade que tantas pessoas sentem, mesmo sem saber explicar.

    Ela canta como quem oferece algo.
    E oferece como quem acredita que a música pode curar, iluminar ou, pelo menos, acompanhar alguém no momento certo.

    Há quem procure multidões.
    E há quem procure propósito.
    Sohyang escolheu o segundo caminho — e ganhou algo que a indústria já não sabe produzir: verdade.

    Sohyang: a artista que redefine o que é ser artista

    No fim, talvez se possa resumir assim:

    A música comercial dá-nos estrelas.
    A música sincera dá-nos pessoas.
    A música de Sohyang dá-nos — por instantes — um reflexo do melhor que ainda conseguimos sentir.

    Num mundo saturado de espetáculo, a existência de alguém como ela parece quase um milagre.
    E talvez seja.

    Não porque canta mais alto.
    Não porque atinge notas impossíveis.
    Mas porque, quando canta, acredita.
    E essa crença, rara e luminosa, transforma o simples acto de cantar num gesto de graça.

    Sohyang não é apenas uma voz.
    É uma lembrança de que a música, quando verdadeira, não entretém — toca.

    E artistas assim merecem ser descobertos.

    Onde começar: performances que revelam a alma de Sohyang

    Falar sobre Sohyang é uma coisa.
    Vê-la — ouvi-la — é outra totalmente diferente.
    Há artistas que impressionam pela técnica e outros pela emoção; Sohyang faz ambas as coisas ao mesmo tempo.
    Mas há certos momentos em que isso transparece com uma clareza quase absoluta.
    Para quem quiser compreender realmente quem ela é, estes são os pontos de partida inevitáveis.


    1. Lean On Me — a luz interior

    Provavelmente o momento mais emblemático da carreira televisiva dela.
    Começa com a fragilidade de quem entra devagar numa sala escura e termina com a força de alguém que abre as janelas todas.
    Não é apenas canto: é uma viagem emocional.
    Uma mão estendida ao mundo.


    2. Everyone — a vulnerabilidade absoluta

    Se Lean On Me é luz, Everyone é verdade nua.
    O instante em que a música pára e ela fala com o público é um dos momentos mais humanos alguma vez transmitidos num palco.
    É raro ver alguém expor-se assim — sem filtro, sem cálculo, sem medo.
    É aqui que percebemos que a voz dela vem de um lugar interior, íntimo, inegociável.


    3. Amazing Grace — a fé transformada em som

    Não é preciso ser religioso para compreender a intensidade desta performance.
    O improviso não é técnico, é espiritual.
    O crescendo final não procura aplausos, procura libertação.
    É talvez o exemplo mais claro do que significa cantar não para o público, mas com algo maior do que o público.


    4. Bridge Over Troubled Water — a força de quem acolhe

    Há quem interprete esta canção como apelo, quem a interprete como promessa.
    Sohyang canta-a como abraço.
    O final — construído com improvisos curtos, densos, intensos — tem algo de profundamente humano, como se ela estivesse a carregar a dor de alguém consigo.


    5. Arirang Alone — a identidade que não se apaga

    Uma interpretação tradicional, mas carregada de história.
    Arirang é quase um hino emocional da Coreia; cantar esta canção é tocar numa memória coletiva.
    Sohyang honra essa memória com uma delicadeza que se transforma, no final, em força.
    É um dos momentos em que mais claramente vemos a relação dela com as próprias raízes.


    6. Mashup Lacrimosa × Gangsta’s Paradise — a ponte impossível

    Poucos artistas conseguiriam ligar Mozart a Coolio sem cair no absurdo.
    Sohyang não só liga — como faz parecer natural.
    Este mashup revela a versatilidade extrema, mas principalmente a inteligência emocional com que aborda cada género.
    É aqui que percebemos a dimensão artística que vai muito além da técnica.


    7. Misty (Ella Fitzgerald) — a humildade do jazz

    Jazz é território de risco: demasiada liberdade e perde-se o centro; pouca liberdade e perde-se a alma.
    Nesta versão, Sohyang caminha na linha perfeita.
    Sussurra, respira, desliza — e não tenta ser Ella.
    Tenta ser verdadeira.
    E consegue.


    8. DayDay — a surpresa do rap

    Não está aqui pela grandiosidade, mas pela honestidade.
    Um dos momentos que revela que a versatilidade de Sohyang não é calculada: é vivida.
    Ela entra, flui, brinca, improvisa.
    Como se dissesse: “a música não é caixa — é caminho”.

  • Construir mais, para quê? O mito da oferta e a economia da especulação

    O paradoxo português: quanto mais se constrói, mais caras ficam as casas. Um país que trata a especulação como política pública.


    Já aqui escrevi sobre a crise da habitação — esse espelho de um país que trocou o direito constitucional à casa por uma promessa de mercado. Mas há uma ideia que insiste em resistir, como um refrão fácil: a de que basta construir mais para resolver o problema.

    A teoria é sedutora. Se a oferta aumenta, os preços caem — diz o manual do liberalismo económico. O problema é que o manual não lê a realidade. O Público publicou hoje um artigo com dados que expõem a contradição: as regiões onde mais se constrói são as que registam os maiores aumentos de preços.

    Entre 2019 e 2024, o número de novos fogos quase duplicou em Portugal. Na Madeira, no Porto, no Oeste, no Alentejo Litoral e em Lisboa, a construção disparou mais de 100%. E os preços? Subiram ainda mais — até 97% na Madeira. O mercado respondeu, sim — mas ao apetite do capital, não à necessidade de habitação.

    É que já não se constroem casas, constroem-se ativos. A habitação transformou-se num produto financeiro, um abrigo para o dinheiro, não para as pessoas. E, ao contrário das laranjas, os imóveis não apodrecem. Podem ficar vazios, guardados, à espera de valorizar — o que os economistas chamam “entesouramento”.

    Portugal é hoje um dos países da OCDE com mais casas por habitante. O problema não é falta de oferta — é falta de regulação. E, ao contrário de outros países que tentam travar a especulação — limitando a compra por fundos estrangeiros, taxando casas vazias ou controlando rendas em zonas de pressão —, Portugal continua a financiá-la.

    Financia-a com isenções fiscais, com regimes especiais para fundos imobiliários, com medidas que tratam o investimento como salvação universal. Chamam-lhe política de habitação; na prática, são subsídios à especulação.

    No fim, sobra a mesma pergunta: construir mais, para quê? Para garantir que todos têm casa — ou para garantir que há sempre quem possa comprá-las todas?

    Créditos e referências:

    Imagem de Brandon Griggs

    Público: Regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem

  • Friendfeed: O legado e o vazio

    Alguns dos meus velhos conhecidos da diáspora que são as redes sociais devem recordar com nostalgia do FriendFeed.

    Era um tempo em que a internet ainda se sentia como um território por explorar, onde cada utilizador era um pouco pioneiro, um pouco arquiteto do seu próprio canto digital. O FriendFeed não era uma rede social para massas — era um refúgio para os geeks, os curiosos, os que gostavam de discutir código, partilhar links obscuros, comentar notícias de nicho ou simplesmente observar, em tempo real, o fluxo caótico e fascinante da atividade online dos seus pares. Não era um lugar para todos, e era exatamente isso que o tornava especial.


    O FriendFeed como Bilhete de Identidade Digital

    O FriendFeed não era apenas mais uma plataforma: era uma extensão da nossa presença online. Agregava, em silêncio, os nossos pensamentos espalhados por blogs, fotos no Flickr, atualizações no Twitter, e transformava-os num único fluxo coerente. Era como um diário público, uma forma de dizer: “Isto sou eu, isto é o que me interessa, isto é o que penso.”

    Para quem o usava, não se tratava apenas de partilhar conteúdo — tratava-se de construir uma identidade digital curada, onde cada like, comentário ou partilha refletia uma escolha consciente. Era um espaço onde a tecnologia servia as pessoas, e não o contrário.


    A Inovação que Mudou Tudo (e que Hoje Damos por Garantida)

    O FriendFeed foi pioneiro em algo que hoje parece óbvio: a agregação de conteúdo em tempo real. Antes do Facebook ter um feed de notícias dinâmico, antes do Twitter se tornar uma praça pública global, o FriendFeed já permitia que os utilizadores vissem, num só lugar, tudo o que os seus contactos faziam em diferentes plataformas. Era uma ferramenta revolucionária para a época, e a sua influência é visível até hoje.

    Quando o Facebook adquiriu o FriendFeed em 2009, muitas das suas funcionalidades — como o feed de notícias em tempo real — foram integradas na plataforma. Bret Taylor, cofundador do FriendFeed, tornou-se diretor de tecnologia do Facebook e ajudou a moldar o que hoje conhecemos como o “feed” das redes sociais

    . No entanto, o que o Facebook absorveu foi a tecnologia, não a comunidade. E foi essa comunidade, esse espírito de partilha e discussão genuína, que se perdeu para sempre.


    O Vazio que Ficou

    O FriendFeed não morreu com um estrondo. Desapareceu em silêncio, engolido pela máquina do Facebook, que absorveu a sua tecnologia mas nunca conseguiu replicar a sua alma. O que ficou não foi apenas a falta de uma ferramenta, mas a dispersão de uma comunidade — uma pequena tribo digital que perdeu o seu território.

    Hoje, quando olhamos para o feed infinito do Twitter/X, para o algoritmo voraz do Facebook ou para a fragmentação do Mastodon, sentimos a falta daquele espaço onde tudo convergia. Não era apenas uma questão de funcionalidade, mas de pertencimento. O FriendFeed era um lugar onde as conversas eram mais profundas, os comentários mais reflexivos, e onde a partilha de conteúdo não era ditada por algoritmos, mas por interesses genuínos.


    O Legado Invisível e o que Perdemos

    O FriendFeed provou que as redes sociais não precisavam de ser massivas para serem influentes. Mostrou que era possível criar espaços digitais onde a qualidade das interações prevalecia sobre a quantidade. Hoje, quando falamos de redes sociais, falamos de algoritmos, de polarização, de atenção fragmentada. O FriendFeed lembra-nos de uma época em que a internet ainda era um lugar de descoberta, onde a conexão não era medida em likes, mas em conversas significativas.

    O seu legado técnico vive nas plataformas que usamos diariamente, mas a sua essência — aquele sentido de comunidade e de controle sobre a nossa própria identidade digital — nunca foi verdadeiramente substituída. Talvez por isso, anos depois, ainda nos perguntemos: o que perdemos quando perdemos o FriendFeed? Não foi apenas uma plataforma. Foi uma forma de estar online, uma forma de nos conectarmos uns com os outros sem o ruído e a pressa que hoje dominam a web.

    Num mundo onde a internet se tornou cada vez mais massificada e menos pessoal, a nostalgia do FriendFeed não é apenas saudade de uma ferramenta. É a saudade de um tempo em que a internet ainda nos pertencia. E, talvez, um lembrete de que ainda podemos — e devemos — lutar por espaços digitais que nos representem verdadeiramente.

  • A morte lenta do mural: como o Facebook perdeu a sua alma

    Quando nos lembramos dos primeiros tempos do Facebook, parece-nos quase uma outra era: o mural (news feed) fervilhava com ideias, links auto-gerados, reflexões pessoais, debates entre amigos sobre livros, filmes, política, artes — uma ágora digital. Eu próprio incentivei várias pessoas a entrar, criámos comunidades, alimentámos a partilha.
    Hoje, olhando para ele, tenho a impressão de que aquele espaço perdeu a alma. Está lá, claro — os perfis, os grupos, os “likes” continuam — mas o pulsar original abrandou. As pessoas dispersaram-se; novas redes mais ágeis, mais espontâneas, chamaram a atenção; e o Facebook ficou — diria — mais estático, mais corporativo, mais dirigido ao consumo do que à conversa.

    O auge: o Facebook como ágora digital

    No seu livro The Facebook Effect (2010), David Kirkpatrick relata como o Facebook evoluiu de um projecto de dormitório em Harvard para uma empresa com 500 milhões de utilizadores.
    Naquele período — entre 2007 e 2012 — a rede social permitia concretamente coisas raras: contacto informal, extensão de amizades reais, descoberta de conteúdos partilhados com alguma assinatura pessoal. Para muitos, era a primeira experiência em que um amigo partilhava um artigo completo, uma opinião política, um pensamento de madrugada — e isso gerava reacções reais, comentário verdadeiro.

    A transição: crescimento, massificação, algoritmo e publicidade

    Mas à medida que o Facebook crescia, as dinâmicas mudaram. A rede deixou de ser apenas “entre amigos” para se tornar “de todos”, e com isso vieram mudanças estruturais:

    • O algoritmo que decide o que aparece no feed, menos escolha pessoal e mais curadoria algorítmica;
    • A publicidade intensificada, as marcas, as páginas com milhares de seguidores que competem por atenção;
    • A massificação dos perfis, o que dilui o carácter íntimo e espontâneo.

    Em The Culture of Connectivity (2013), José van Dijck explica como plataformas como o Facebook incorporam a lógica do “compartilhar” como imperativo de design — “What you share is what you get.” Assim, o Facebook passou a incentivar a produção de conteúdo como acto de consumo, e a visibilidade deixou de ser natural: tornou-se dependente de regras e métricas.

    Da efervescência ao esvaziamento — a transição do debate online

    Durante a década de 2010, o Facebook foi perdendo o monopólio da conversa digital. À medida que o seu algoritmo se tornava mais fechado e orientado para a rentabilidade, a espontaneidade migrou para o Twitter, que se afirmava como a nova ágora da atualidade.

    O Twitter — ainda antes de se tornar X — consolidou-se como a rede social de referência para jornalistas, académicos, escritores e figuras públicas. Era o lugar onde as notícias nasciam, as opiniões se testavam e o debate público fervilhava em tempo real. A sua estrutura aberta, baseada em texto breve e ligação direta entre utilizadores, recriava algo do espírito original da internet: rápido, caótico, vivo.

    Enquanto o Facebook se transformava num mural estático e filtrado por algoritmos, o Twitter mantinha uma sensação de imprevisibilidade democrática: qualquer pessoa podia ser ouvida. Essa qualidade fez dele o espaço privilegiado do jornalismo contemporâneo — um misto de redação coletiva e bar virtual de discussões políticas.

    Mas com a aquisição por Elon Musk e a transformação em “X”, essa dinâmica começou a desmoronar-se. As mudanças de política, o colapso da moderação e a introdução do modelo pago (Twitter Blue) corroeram a credibilidade da plataforma e fragmentaram a comunidade. O que antes era o epicentro do debate tornou-se um território errático, sem identidade.

    O vazio deixado por essa mutação ajudou a impulsionar redes descentralizadas como o Mastodon e o Bluesky — espaços menores, mais comunitários e menos orientados para o lucro. É nelas que muitos antigos utilizadores do Facebook e do Twitter tentam hoje reconstruir o espírito de diálogo e partilha que se perdeu.

    Causas profundas da “crise” do Facebook

    • Monetização e lógica empresarial: a rede passou a focar-se menos em ser “comunitária” e mais em ser “negócio”, audiência, dados, publicidade;
    • Algoritmo e visibilidade reduzida: o mural deixou de ser cronológico e passou a ser curado por máquinas que privilegiam engajamento e lucro;
    • Mudança demográfica: os utilizadores fundadores envelheceram e os novos preferiram plataformas mais leves ou visuais;
    • Fadiga de conteúdo: os posts tornaram-se repetitivos e comerciais;
    • Desconfiança e escândalos: casos de privacidade e manipulação de dados abalaram a credibilidade.

    Como argumenta Siva Vaidhyanathan em Antisocial Media (2018/2022), o Facebook transformou-se num actor que mina a confiança social e favorece a polarização política. O resultado: em vez de “uma comunidade viva”, temos um feed que parece um repositório de anúncios e memes reciclados.

    Consequências para o debate público e para as comunidades locais

    O declínio do Facebook como “praça pública” tem implicações importantes:

    • Os meios de comunicação deixaram de depender tanto do Facebook como canal orgânico de distribuição;
    • As comunidades locais perderam parte do dinamismo dos grupos e eventos;
    • A cultura digital migrou para espaços mais lentos e deliberados, como blogs, newsletters e fóruns.

    Perspectiva pessoal e cultural

    Enquanto utilizador que acompanhou o boom do Facebook desde os seus momentos mais vibrantes, sinto-me hoje mais confortável em plataformas descentralizadas — como o Mastodon — onde o ritmo é mais humano e o diálogo mais autêntico. A Internet tornou-se mais segmentada: cada rede serve um propósito diferente, e o Facebook já não é o centro dessa experiência.

    Conclusão: o que fica, e para onde vamos

    O Facebook não morreu, mas mudou. Continua útil para famílias, grupos e memórias, mas a sua função é outra. A “alma” do mural — o debate espontâneo — diluiu-se na lógica da monetização e da atenção.
    Para quem cria e lê com atenção, a lição é clara: a presença digital consciente importa. Manter um blogue próprio é talvez a forma mais autêntica de preservar o espírito das primeiras redes: partilhar ideias, e não apenas conteúdos.

    Referências

  • Benfica: O reflexo de um país

    Entre a emoção e a cegueira, o Benfica espelha o que Portugal tem de mais contraditório: o apego ao passado, a recusa da mudança e a facilidade com que se confunde memória com competência.

    Se o grande Eusébio, quando vivo, decidisse candidatar-se a presidente do Benfica, seria bem capaz de ganhar. A maioria ignoraria a sua competência para o cargo — bastaria o nome, o símbolo, o afeto.
    O Benfica é, afinal, o reflexo deste país: um lugar onde a emoção se sobrepõe à razão, onde o coração vence sempre a cabeça, e onde a nostalgia pesa mais do que o futuro. Um país envelhecido, pouco exigente e demasiadamente emocional.

    É o mesmo país que acredita estar a combater a corrupção ao colocar, como segunda força política, um partido feito de agressores, ladrões de malas e oportunistas. Acredita que essa gente é a resposta para o sistema que critica — e nesse autoengano revela o seu cansaço, mas também a sua ingenuidade.

    Entre os sócios do Benfica, o raciocínio é parecido. Muitos olham para Rui Costa e ainda veem o jogador sublime, o “Príncipe de Florença” regressado a casa. Poucos enxergam o dirigente sem norte, o aprendiz do homem que transformou o clube numa máquina de negócios opacos.
    Um presidente que, depois de anos na estrutura, é capaz de dizer que nada viu, nada soube, nada fez — como se o futebol moderno fosse apenas uma recordação das chuteiras penduradas no balneário.

    A maioria ignora o fosso financeiro crescente, o rodopio constante de jogadores e treinadores, os dirigentes que batem com a porta. Ignora, ou prefere ignorar — porque isso obrigaria a pensar, e pensar dá trabalho.

    Tal como o seu presidente, muitos sócios nada veem, nada sabem, nada fazem. Mas continuam a aplaudir, a votar, e a arrastar para o abismo aquele que foi, em tempos, um dos maiores clubes de futebol do mundo.

    O Benfica é hoje um clube sem alma, como um país sem memória crítica, acaba sempre por se perder na ilusão de que ainda é o que foi.

  • “Os comunistas comem crianças”: mito, trauma e crimes contra a humanidade

    A expressão “os comunistas comem crianças” tornou-se um dos slogans mais caricatos da propaganda anticomunista do século XX. Foi usada para ridicularizar e demonizar o inimigo ideológico, reduzindo-o à imagem grotesca do bárbaro que devora inocentes. Mas como acontece frequentemente com os mitos políticos, a caricatura assenta em memórias históricas reais — e uma das mais brutais é o Holodomor, a fome artificialmente provocada pelo regime de Stáline na Ucrânia entre 1932 e 1933.


    O Holodomor: quando a fome é uma arma

    A coletivização forçada da agricultura, ordenada por Moscovo, implicou a requisição das colheitas, a perseguição de agricultores considerados “kulaks” e a proibição de conservar grão para subsistência. Postos de controlo militares impediam os camponeses famintos de abandonar as aldeias em busca de comida. O resultado foi uma tragédia de proporções inimagináveis: milhões de mortos em menos de dois anos.

    Nos testemunhos de sobreviventes, recolhidos décadas mais tarde, a fome surge descrita como um abismo de sofrimento: crianças a definhar nos braços das mães, famílias inteiras a morrer em poucos dias, cadáveres abandonados nas ruas. Quando já não havia raízes, cascas de árvores ou animais, o desespero ultrapassou todos os limites. Alguns recordam vizinhos enlouquecidos pela fome que se voltaram contra os próprios filhos. Outros falam do medo de deixar crianças sozinhas, porque circulavam histórias de raptos para canibalização.

    Estes episódios, contados sempre em tom de horror e tabu, mostram como a fome deliberadamente provocada destruiu não apenas vidas, mas também laços morais e sociais. É nesse ponto que o mito e a realidade se cruzam: a caricatura de que “os comunistas comem crianças” ganhou ressonância histórica no Holodomor.

    Diözesanarchiv Wien/BA Innitzer

    Genocídio pela fome

    O Holodomor não foi uma catástrofe natural. Foi planeado e executado pelo Estado soviético para esmagar a resistência camponesa e enfraquecer a identidade nacional ucraniana. Diversos parlamentos — incluindo o da Ucrânia, Canadá, Estados Unidos e vários países europeus — reconhecem-no hoje como genocídio.

    Como escreveu o historiador Robert Conquest em The Harvest of Sorrow, “a fome foi usada não como consequência acidental de políticas falhadas, mas como instrumento de poder”. Anne Applebaum, em Red Famine, reforça: “Stáline sabia que as pessoas estavam a morrer, e escolheu não aliviar o sofrimento”.


    Crimes do comunismo soviético

    O Holodomor é apenas uma das páginas negras do comunismo soviético. Entre os anos 30 e 50, o regime de Stáline promoveu:

    • Os Grandes Expurgos, que vitimaram centenas de milhares de opositores reais ou imaginados;
    • O sistema Gulag, uma rede de campos de trabalhos forçados onde milhões pereceram em condições desumanas;
    • Deportações em massa de povos inteiros — como tártaros da Crimeia, chechenos e inguches — condenados a marchas intermináveis e fome;
    • A repressão cultural e religiosa, silenciando línguas, igrejas e tradições locais, impondo a homogeneização soviética pela força.

    O total de mortos atribuídos ao comunismo soviético ascende a dezenas de milhões, colocando-o lado a lado com o nazismo como um dos maiores perpetradores de crimes contra a humanidade no século XX.


    Comunismo e nazismo: faces do totalitarismo

    Apesar das diferenças ideológicas, comunismo e nazismo partilharam métodos:

    • O uso sistemático do terror de Estado;
    • O extermínio e deportação de povos inteiros;
    • A destruição das liberdades individuais;
    • O culto da personalidade dos líderes.

    Enquanto o nazismo foi condenado em Nuremberga e se tornou símbolo universal do mal, os crimes do comunismo continuam muitas vezes relativizados ou esquecidos. Esta “memória desigual” dificulta a compreensão plena do totalitarismo.


    O eco português: o PCP entre fidelidade e adaptação

    Em Portugal, o Partido Comunista foi durante décadas o aliado mais fiel da União Soviética. Sob a liderança de Álvaro Cunhal, o PCP não só se inspirava no modelo soviético como o defendia abertamente, mesmo perante as evidências de repressão. A invasão da Hungria em 1956 e da Checoslováquia em 1968 foram justificadas em nome da “defesa do socialismo”. O Holodomor, os expurgos e o sistema Gulag nunca mereceram condenação: eram reduzidos a “propaganda ocidental” ou a meros “erros” de percurso.

    Com a queda do Muro de Berlim e o colapso da URSS, muitos partidos comunistas europeus procuraram reinventar-se: italianos e espanhóis aproximaram-se da social-democracia, franceses seguiram caminhos híbridos. O PCP, porém, recusou rever-se. Continuou a reivindicar o legado soviético, apresentando-o como um projeto globalmente positivo, apesar dos crimes.

    Mas se a fidelidade ideológica se manteve, a prática política mudou. O PCP tornou-se um ator institucional da democracia portuguesa: participa regularmente em eleições, administra câmaras municipais, lidera a central sindical CGTP e já foi pilar de soluções de governo, como na geringonça (2015-2019). A retórica revolucionária persiste, mas na prática o PCP age como um partido integrado na democracia, ainda que minoritário e resistente a compromissos europeístas.

    Este duplo movimento — fidelidade às origens e adaptação à realidade democrática — ajuda a explicar a singularidade do PCP: herdeiro de uma tradição marcada pela cumplicidade com crimes do comunismo soviético, mas também sobrevivente político, capaz de se reinventar sem nunca romper com a sua identidade histórica.


    Conclusão: memória contra o esquecimento

    O mito de que “os comunistas comem crianças” pode soar grotesco ou absurdo, mas o Holodomor mostrou que a realidade pode ultrapassar qualquer caricatura. A fome deliberada levou ao colapso não apenas do corpo, mas da própria humanidade.

    Recordar o Holodomor, o Gulag e os expurgos é tão necessário quanto preservar a memória do Holocausto. São duas faces da mesma moeda: diferentes ideologias, mas a mesma lógica de desumanização.

    A tarefa da memória não é relativizar um horror em nome do outro, mas reconhecer que ambos representaram projetos totalitários que transformaram milhões de vidas em cinzas. Só enfrentando estas sombras sem indulgência se pode defender a liberdade e evitar que os fantasmas do século XX regressem disfarçados no século XXI.

    📖 Referências

    Livros e estudos fundamentais

    • Robert ConquestThe Harvest of Sorrow: Soviet Collectivization and the Terror-Famine (Oxford University Press, 1986).
    • Anne ApplebaumFome Vermelha (Em Portugal via Bertrand)
    • Timothy SnyderBloodlands: Europe Between Hitler and Stalin (Basic Books, 2010).
    • Stéphane Courtois (ed.) — The Black Book of Communism: Crimes, Terror, Repression (Harvard University Press, 1999).
    • Alexander SolzhenitsynO Arquipélago Gulag (Dom Quixote, várias edições).

    Recursos online e institucionais

  • A tentação totalitária de Trump

    O regresso de Donald Trump à Casa Branca não está apenas a reabrir feridas políticas nos Estados Unidos — está a testar, de forma inédita, os limites da própria democracia americana.

    Em poucas semanas, o novo executivo abriu três frentes de ação que, vistas em conjunto, desenham o contorno de algo mais profundo do que um governo autoritário: um projeto de poder totalizante, que procura controlar o exército, a justiça e a informação.

    🪖 1. O exército nas cidades democratas

    Na primeira semana de outubro, Trump convocou centenas de generais e almirantes para uma reunião em Washington. O que poderia ser um encontro de rotina militar tornou-se um momento político de enorme gravidade.

    “Devemos usar algumas destas cidades perigosas como campos de treino para o nosso exército.”

    Donald Trump, segundo o New York Times

    A frase ecoou como uma ameaça interna. As cidades deixaram de ser território nacional para se tornarem, na retórica presidencial, zonas de guerra. A ideia de empregar forças armadas em solo americano, sem motins nem colapso da ordem pública, rompe com um dos pilares da democracia constitucional: a separação entre poder civil e militar.

    É uma linguagem de combate que transforma cidadãos em inimigos, e o “outro” político em alvo legítimo.

    ⚖️ 2. A captura da justiça

    Um artigo detalhado do New York Times revelou que Trump substituiu dezenas de procuradores de carreira por aliados políticos — incluindo antigos advogados pessoais — e ordenou investigações contra antigos adversários: James Comey, Letitia James, Adam Schiff, John Bolton, John Brennan e Fani Willis.

    O padrão é claro: usar a lei como instrumento de vingança. A independência judicial, construída ao longo de décadas, foi substituída por uma lógica de lealdade pessoal. A justiça americana, que tantas vezes serviu de travão ao poder presidencial, está agora a ser reconfigurada para o legitimar.

    Trata-se de uma mutação estrutural: de Estado de direito para Estado de obediência.

    📺 3. Silêncio e purga nos media

    Em maio, o governo ordenou a demissão de centenas de trabalhadores da Voice of America, um canal estatal criado precisamente para garantir jornalismo independente. Ao mesmo tempo, Trump voltou a ameaçar revogar licenças da ABC e NBC, acusando-as de “falsas notícias” e “desinformação”.

    A mensagem é inequívoca: quem não repete a narrativa oficial é dispensável. A fronteira entre comunicação pública e propaganda dissolve-se. O objetivo não é apenas controlar a imprensa — é reduzir o espaço público à voz do poder.

    🔗 4. A construção do poder total

    Estes três eixos — força militar, justiça e comunicação — formam os alicerces clássicos do totalitarismo. A filósofa Hannah Arendt descreveu este processo como uma “fusão da violência, da lei e da propaganda”, onde o poder já não se limita a governar, mas procura moldar a própria realidade.

    Trump ainda não aboliu eleições nem dissolveu o Congresso, mas está a subverter as instituições por dentro, transformando-as em extensões do Executivo. O que se vê é um autoritarismo competitivo em mutação: a fachada democrática mantém-se, mas a substância — a liberdade, o pluralismo e a separação de poderes — começa a ruir.

    ⚠️ 5. A tentação

    A tentação totalitária não surge de um golpe, mas de uma acumulação de abusos, normalizados um a um. Hoje são cidades democratas e jornalistas. Amanhã, serão juízes, sindicatos, professores, escritores. Quando o poder se convence de que o Estado é o seu espelho, o passo seguinte é tentar apagar tudo o que não reflita a sua imagem.

    O perigo, mais do que americano, é universal: a democracia morre não com um estrondo, mas com uma série de aplausos resignados.

    🧭 Epílogo — Pode Trump transformar os EUA num regime totalitário?

    Provavelmente não de forma plena — mas pode corroer a democracia americana até a tornar irreconhecível.

    Os Estados Unidos ainda têm traves mestras: tribunais independentes, imprensa livre, estados federados com autonomia e uma sociedade civil ativa. Estas estruturas dificultam a imposição de um regime total.

    Mas o perigo não está num golpe repentino; está na autocratização lenta, legalista e meticulosa. Trump não precisa de fechar o Congresso — basta neutralizá-lo. Não precisa de censurar toda a imprensa — basta amedrontá-la. Não precisa de abolir a Constituição — basta reescrevê-la na prática, moldando-a à sua vontade.

    Se conseguir controlar simultaneamente a justiça, a comunicação e as forças de segurança, os EUA podem entrar numa fase de autoritarismo funcional, onde o ritual democrático sobrevive, mas o seu espírito desaparece.

    A questão já não é se Trump quer o poder total — é se a América ainda tem força institucional e moral para o impedir.

    📚 Referências

    • Trump Enemies: Justice Department Investigations, The New York Times (interativo, 7 out. 2025). Link
    • American Soldiers in American Cities, The New York Times (2 out. 2025). Link
    • Trump Fires Black Officials From an Overwhelmingly White Administration, The New York Times (8 out. 2025). Link
    • Posse Comitatus Act and the Insurrection Act (Explainer), Brennan Center for Justice (recurso de enquadramento legal). Link
  • “Tudo é Israel”: a metáfora de um território sequestrado

    O episódio relatado na reportagem do Público, em que um soldado israelita grita num checkpoint “Isto é Israel, aquilo é Israel, tudo é Israel!”, não é apenas uma cena de tensão num posto de controlo. É uma metáfora de décadas de ocupação e de uma realidade política onde a negação da Palestina se tornou prática quotidiana.

    A Cisjordânia vive sob ocupação israelita desde 1967. Em teoria, os Acordos de Oslo (1993-1995) criaram uma divisão administrativa entre áreas sob controlo palestiniano e israelita. Na prática, a expansão de colonatos, as demolições de casas, a declaração de “zonas militares” e a rede de checkpoints transformaram grande parte do território num arquipélago de ilhas palestinianas cercadas. O relato de Hebron, com casas palestinianas cercadas por bandeiras israelitas e postos militares, é disso exemplo claro.

    A reportagem dá voz a Ghandi e a Ali, dois palestinianos que resistem em Hebron e em Masafer Yatta. Ambos enfrentam o mesmo padrão: violência de colonos, intimidação militar, destruição repetida. Reconstruir uma casa, reparar um carro, manter uma comunidade viva torna-se, assim, um ato político. A resistência já não é a do confronto armado, mas a da sobrevivência quotidiana – uma recusa em desaparecer.

    Os números da ONU revelam a assimetria do conflito: em dois anos, quase mil palestinianos mortos na Cisjordânia, contra 41 israelitas. Mais de 3000 deslocados, metade deles crianças. Estes dados contrastam com a narrativa oficial israelita, que justifica restrições como medidas de “segurança”, mas que não se aplicam aos colonos que ocupam os mesmos territórios.

    O grito “Tudo é Israel” traduz de forma brutal esta lógica. Não é apenas a voz de um soldado exaltado, é o reflexo de uma política de Estado que, na ausência de negociações de paz, avança para a anexação de facto. Ao negar a própria possibilidade de Palestina, Israel impõe uma leitura única do território: cada pedra, cada estrada, cada casa, tudo lhe pertence.

    O problema é que a história mostra que a negação do outro raramente conduz à paz. Hebron e Masafer Yatta não são apenas lugares de resistência física, são também lugares de memória. E enquanto houver quem reconstrua depois da destruição, quem insista em viver no meio da adversidade, a frase “tudo é Israel” será sempre contestada pelo simples facto da presença palestiniana.

    A reportagem mostra isso: a ocupação não é apenas militar, é também psicológica e simbólica. Mas a reconstrução — por mais frágil que seja — continua a ser a resposta que impede a vitória total da lógica de apagamento. É neste ciclo de destruição e reconstrução que se revela a tragédia maior: um conflito congelado, em que o presente é sequestrado e o futuro continua adiado.

    Aldeia de Tuba, em Masafer Yatta.
Carolina Amado in jornal Publico

    Aldeia de Tuba, em Masafer Yatta. Carolina Amado in jornal Publico

  • O gesto do enfermeiro e o desinvestimento no SNS

    O escritor e professor Artur Coelho relatou, no Mastodon, a angústia de ver a sua mulher ser transportada das urgências das Caldas da Rainha para o Hospital de Santa Maria, onde foi submetida a uma neurocirurgia de emergência após uma hemorragia cerebral.

    Este testemunho, profundamente humano, é também uma prova do que está em causa quando falamos do Serviço Nacional de Saúde. Enquanto os governos anunciam modernizações e racionalizações que se traduzem em cortes, cativações e falta de meios, o SNS sobrevive porque os seus profissionais insistem em fazer o impossível com os recursos que têm.


    O contraste entre humanismo e desinvestimento

    O episódio mostra o contraste entre o esforço sobre-humano dos profissionais e o desinvestimento político que corrói o SNS há anos:

    • Em 2024, o SNS registou um défice de 1 377,6 milhões de euros, mais do dobro de 2023.
    • Nesse mesmo ano, recebeu menos 913,4 milhões de euros do que estava inscrito no Orçamento do Estado.
    • O sistema gasta cada vez mais em “remendos”: 465 milhões de euros em horas extraordinárias só em 2024 (mais de 17 milhões de horas), a somar a 230 milhões de euros em médicos prestadores externos.
    • Enquanto isso, os portugueses pagam cada vez mais do próprio bolso: cerca de 30 % da despesa total em saúde vem de pagamentos diretos das famílias, o dobro da média da OCDE (15 %).
    Dados-chave do desinvestimento no SNS

    O que está em risco

    A história relatada por Artur Coelho é, acima de tudo, um lembrete: o SNS não é apenas uma máquina de gestão de recursos, é uma conquista civilizacional. É o espaço onde qualquer pessoa, independentemente da sua carteira, tem direito a cuidados de saúde. É um dos pilares da democracia portuguesa.

    Desinvestir no SNS não é apenas uma questão orçamental: é condenar a perder aquele gesto do enfermeiro que pousa a mão no ombro do familiar em desespero. É empurrar os cidadãos para um sistema onde o cuidado deixa de ser um direito universal para se tornar um privilégio pago.