• Quando a História deixa de ser memória e passa a ser método

    Há comparações históricas que são fáceis — e por isso mesmo perigosas. Chamar “nazis” a governos contemporâneos pode soar moralmente satisfatório, mas raramente é intelectualmente rigoroso. Ao mesmo tempo, há silêncios que se tornam cúmplices quando a História começa a repetir padrões que julgávamos definitivamente ultrapassados.

    O que se passa hoje em Gaza coloca-nos precisamente nesse ponto de tensão: entre a analogia abusiva e a recusa em reconhecer sinais que a História conhece demasiado bem.

    A normalização da morte em massa

    A morte de dezenas de milhares de civis palestinianos, incluindo um número esmagador de crianças, deixou há muito de ser um acidente trágico para se tornar um dado estrutural da guerra. Quando a destruição sistemática de bairros inteiros, hospitais, universidades e infra-estruturas básicas é enquadrada como “inevitável” ou “necessária”, entramos num território moral onde a vida humana perde valor político.

    Este não é um território exclusivo de um regime ou de uma ideologia. É um território histórico. A Europa do século XX aprendeu — à custa de milhões de mortos — que a normalização da morte em massa começa quase sempre com a sua justificação racional.

    Crimes de guerra como instrumento político

    O cerco prolongado a Gaza, a punição colectiva de uma população inteira e a destruição deliberada das condições mínimas de sobrevivência violam princípios elementares do direito internacional humanitário. Não se trata de opinião: trata-se de normas consagradas após a Segunda Guerra Mundial precisamente para impedir que a razão de Estado se sobreponha à dignidade humana.

    Quando essas normas são suspensas na prática, mesmo que não formalmente, o que está em causa não é apenas a legalidade de uma operação militar, mas a erosão do próprio conceito de limite moral.

    A deslocação forçada como “solução”

    É neste contexto que o artigo do Público, assinado por António Rodrigues, ganha uma relevância particular. Ao revelar que Israel e os Estados Unidos sondaram a possibilidade de transferir palestinianos da Faixa de Gaza para a Somalilândia — incluindo estudos de custos e cenários estratégicos — o texto expõe uma lógica profundamente inquietante: a de tratar uma população civil como um problema logístico a deslocar

    A História conhece bem este tipo de raciocínio. A ideia de resolver conflitos políticos através da remoção física de populações não nasceu no Médio Oriente nem no século XXI. Foi usada, testada e, mais tarde, julgada como crime. Não por falhar logisticamente, mas por falhar moralmente.

    Não é necessário acusar Israel de ser um regime nazi para reconhecer que esta lógica se aproxima perigosamente de soluções que a Europa do século XX aprendeu a temer.

    Comparar mecanismos, não regimes

    Importa ser claro: comparar práticas históricas não é equiparar regimes. Israel não é a Alemanha nazi, nem o conflito israelo-palestiniano se reduz a uma repetição mecânica do passado. Mas isso não invalida que certos mecanismos — desumanização, burocratização da violência, deslocação forçada, normalização da morte em massa — reapareçam sempre que o poder deixa de reconhecer limites.

    Hannah Arendt mostrou como os maiores crimes da História não exigiram monstros, mas sistemas que tornaram o impensável administrativamente normal. Essa lição não pertence ao passado. É um aviso permanente.

    A memória como responsabilidade

    Há um desconforto particular — quase trágico — no facto de estas práticas serem hoje associadas a um Estado fundado na sequência do Holocausto. Mas a memória histórica não é um escudo moral automático. O “nunca mais” não funciona como certificado de imunidade ética. Funciona como exigência.

    Criticar as políticas do governo israelita, denunciar crimes de guerra e recusar a deslocação forçada de palestinianos não é negar o direito de Israel existir, nem relativizar o Holocausto. Pelo contrário: é levar a sério a lição mais profunda da História europeia — a de que nenhum povo, nenhuma democracia, nenhuma memória está imune à tentação de desumanizar o outro.

    Reconhecer antes que seja tarde

    O perigo não está nas comparações fáceis, mas na incapacidade de reconhecer padrões enquanto ainda há tempo. Quando a violência extrema se torna linguagem técnica, quando populações inteiras são reduzidas a números ou obstáculos, quando a expulsão é apresentada como solução pragmática, a História deixa de ser memória e passa a ser método.

    É nesse momento que o dever crítico se impõe — não para acusar por reflexo, mas para alertar por responsabilidade.

    Créditos

    Imagem de Mohammed Ibrahim via Unsplash

  • A social-democracia que nunca foi: partidos, derivações e o esvaziamento do centro em Portugal

    Portugal gosta de se pensar como um país de tradição social-democrata. O nome de um dos seus maiores partidos parece confirmá-lo, e o discurso do outro reforça essa ideia. No entanto, uma leitura histórica menos complacente revela outra realidade: Portugal nunca consolidou uma social-democracia reformista e estrutural à maneira do Norte da Europa. Teve, isso sim, partidos amplos que ocuparam fragmentos desse espaço — e que, ao longo do tempo, se desviaram em direções opostas, contribuindo para o esvaziamento progressivo do centro político.

    Uma social-democracia sem casa

    Ao contrário do que aconteceu nos países nórdicos ou na Alemanha do pós-guerra, a social-democracia portuguesa nunca assentou num compromisso social estável entre capital, trabalho e Estado. A industrialização tardia, a debilidade de um sindicalismo reformista e a herança ideológica do pós-25 de Abril produziram um modelo em que o Estado social foi mais compensatório do que preventivo, e mais redistributivo do que estruturante.

    Neste contexto, a social-democracia existiu mais como linguagem política do que como arquitetura institucional. O sistema partidário estabilizou-se não através da consolidação de um modelo social-democrata, mas através de partidos amplos capazes de integrar sensibilidades diversas.

    Duas faces imperfeitas

    O Partido Social Democrata foi, desde cedo, um partido de espectro alargado. Funcionou como casa da direita democrática, integrando liberais económicos, conservadores institucionais e eleitores de centro. Mais do que um partido ideológico, foi um partido de governação, orientado para a estabilidade e a democracia liberal.

    O Partido Socialista, por seu lado, desempenhou um papel decisivo de contenção à esquerda. Absorveu sensibilidades de matriz marxista num período de grande instabilidade política e ideológica, normalizando-as dentro do sistema democrático. À medida que o partido se institucionalizou, parte dessas correntes acabaria por se afastar, mas o PS nunca rompeu totalmente com a ambiguidade entre social-democracia e socialismo democrático.

    O momento Sá Carneiro

    Paradoxalmente, o momento em que Portugal esteve mais próximo de uma social-democracia europeia real ocorreu no PSD, sob a liderança de Francisco Sá Carneiro. A rutura clara com o marxismo, a defesa intransigente da democracia liberal e a aceitação simultânea do Estado social e da economia de mercado aproximaram-no mais da tradição social-democrata alemã ou escandinava do que o PS da época.

    Sá Carneiro compreendeu que sem democracia liberal não há justiça social sustentável, e que sem economia de mercado não há Estado social duradouro. A sua morte interrompeu um projeto que nunca chegou a institucionalizar-se. O que se seguiu foi gestão do sistema, não construção de um novo compromisso social.

    O esvaziamento progressivo do centro

    O centro político português não colapsou de forma abrupta; foi-se esvaziando progressivamente, empurrado em direções opostas por ciclos governativos distintos.

    Com Pedro Passos Coelho, o PSD assumiu um liberalismo de crise. A austeridade e a disciplina orçamental foram apresentadas como imperativos estruturais. Houve coerência, mas também estreitamento: para muitos eleitores de centro, o compromisso social desapareceu, substituído por uma lógica de ajustamento permanente.

    Com António Costa, o PS fez o movimento inverso. Apostou na redistribuição e na estabilidade política, governando com apoio da esquerda radical. Mas fê-lo sem reforma estrutural do Estado nem da economia. O centro tornou-se aritmético, não programático: estabilidade sem transformação.

    Em ambos os casos, o centro deixou de ser um lugar de síntese e passou a ser um ponto de deslocação. Surgiram eleitorados órfãos e uma crescente dificuldade em oferecer um projeto que conjugasse crescimento, coesão e liberdade.

    Uma nota necessária: a comparação nórdica

    Como já escrevi a propósito da diferença entre a Suécia e Portugal, a social-democracia não falhou entre nós por excesso de ambição, mas por falta de base estrutural. Enquanto nos países nórdicos se construiu um compromisso duradouro entre sindicatos reformistas, empregadores e Estado — sustentado por elevados níveis de confiança institucional e por uma economia produtiva —, em Portugal esse compromisso nunca se estabilizou.

    É esse vazio histórico, mais profundo do que as opções de qualquer governo em particular, que ajuda a explicar o esvaziamento do centro político. E é também nesse contexto que devem ser lidas as propostas atuais de flexibilização laboral: não como ponto de partida para uma social-democracia moderna, mas como tentativa de correção tardia de um modelo económico que nunca foi verdadeiramente reformado.

    O presente: liberalização sem reforma

    A proposta de reforma da lei do trabalho surge num contexto de economia de baixos salários, fraca produtividade e elevado peso de setores intensivos em mão-de-obra pouco qualificada. Tornar o mercado de trabalho mais flexível pode ser uma discussão legítima. O problema é fazê-lo sem reformar previamente a economia que o sustenta.

    Nos países nórdicos, a flexibilidade existe porque há flexicurity: proteção no desemprego, formação contínua, negociação coletiva forte e salários médios elevados. Em Portugal, corre-se o risco de fazer o inverso — flexibilizar primeiro e reformar depois — aprofundando assimetrias e transferindo riscos para quem já os suporta.

    Conclusão: liberalização ou compromisso?

    Portugal caminhará, por necessidade, para uma maior liberalização económica. A questão é se essa liberalização será acompanhada por um novo compromisso social ou se aprofundará as fragilidades existentes.

    Há espaço para uma social-democracia moderna em Portugal, mas não para a versão assistencial e compensatória que marcou grande parte da nossa história recente. Sem reforma económica, sem Estado eficiente e sem salários dignos, a flexibilidade laboral não cria dinamismo — cria discrepâncias.

    Sem um projeto de síntese que recupere o melhor da social-democracia europeia, o centro político continuará a esvaziar-se. E quando o centro desaparece, o que sobra raramente é estabilidade.

  • O panóptico eleitoral: transparência, suspeita e o novo populismo respeitável

    Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de projectos e passa a ser um regime de vigilância. Não uma vigilância institucional — regulada, proporcional, com critérios — mas uma vigilância difusa, moral, permanente. As recentes eleições presidenciais portuguesas parecem caminhar perigosamente nesse sentido.

    O debate em torno das chamadas carteiras de clientes dos candidatos é sintomático. Apresenta-se como defesa do interesse nacional, mas funciona muitas vezes como outra coisa: um atalho emocional, eficaz mediaticamente, pobre democraticamente.

    Da transparência ao panóptico

    A transparência é um valor democrático essencial. Sem ela, o poder degrada-se. Mas quando a transparência deixa de ser um meio e passa a ser uma condição permanente de inocência, algo se desloca. A política entra numa lógica próxima do panóptico: todos visíveis, o tempo todo, sob a presunção de que a suspeita antecede o facto.

    Neste regime, o silêncio deixa de ser um direito. A omissão transforma-se em indício. A defesa torna-se preventiva. Não é preciso prova — basta a possibilidade de culpa.

    Como escreveu Maria Castello Branco, a política democrática começa a habituar-se a um espaço público “inundado por uma claridade contínua”, onde a escolha deixa de ser verdadeiramente livre. O problema não é o escrutínio. É a sua substituição por uma vigilância indiferente à distinção entre erro, conflito de interesses ou simples existência profissional.

    Comparações falsas, julgamentos fáceis

    É neste enquadramento que surgem comparações apressadas, como a que opõe Luís Marques Mendes a Luís Montenegro.

    À superfície, ambos “têm empresas”. Mas a semelhança termina aí. Montenegro manteve a sua actividade enquanto exercia funções políticas relevantes. Marques Mendes encerrou a sua antes de formalizar a candidatura presidencial. Num caso houve escrutínio institucional e consequências políticas. No outro, houve denúncia anónima arquivada e julgamento em praça pública.

    Tratar estes casos como equivalentes não é rigor analítico — é nivelamento moral, uma técnica clássica do populismo: dissolver diferenças reais para produzir suspeita generalizada.

    O populismo de gravata

    Este fenómeno não nasce apenas nos extremos mais ruidosos. Manifesta-se também em versões respeitáveis: editoriais insinuantes, debates televisivos que confundem perguntas com acusações, exigências de exposição total como se a vida profissional fosse, por definição, uma falha ética.

    É um populismo de gravata. Não grita, não insulta, mas corrói lentamente. Alimenta a ideia de que a política é estruturalmente suja, de que o poder é sempre corrupto, de que ninguém merece confiança. Uma visão simples, emocionalmente eficaz — e profundamente desmobilizadora.

    O paradoxo é cruel: exige-se transparência absoluta, mas produz-se uma política mais cautelosa, mais defensiva, mais silenciosa. Uma política onde o risco é punido e a coragem se transforma em ameaça.

    O que está realmente em causa

    Importa recordar algo essencial: o Presidente da República não governa, não adjudica, não gere contratos. O seu poder é sobretudo institucional, simbólico e moderador. Importar para Belém uma lógica de suspeição própria do Executivo — e mesmo aí discutível — é um erro de categoria.

    A democracia suporta o erro. Aprende com ele. O que dificilmente suporta é a suspeita permanente, essa erosão lenta da confiança que transforma a política num exercício contínuo de justificação defensiva.

    Quando a suspeita se torna método

    Nada disto acontece no vazio. A normalização da suspeita permanente, da denúncia como ponto de partida e da política como espaço estruturalmente contaminado não é apenas um efeito colateral do escrutínio moderno. É também um terreno fértil para o crescimento do discurso anti-político.

    Partidos como o CHEGA prosperam precisamente nesta atmosfera: quanto mais indistinta for a fronteira entre falha, conflito de interesses e mera existência pública, mais fácil se torna sustentar a ideia de que “são todos iguais”. O populismo não precisa de provar — precisa apenas de desacreditar.

    Há aqui um paradoxo raramente assumido: ao empurrar a política democrática para um regime de vigilância moral permanente, o espaço público não se torna mais exigente — torna-se mais cínico. E o cinismo, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não fortalece a cidadania; enfraquece-a, abrindo espaço aos que prometem pureza através da exclusão, da simplificação ou da força.

    A defesa da democracia não passa por reduzir a política a um concurso de inocência, mas por reconstruir critérios, distinguir responsabilidades e aceitar que governar — e representar — implica sempre risco, imperfeição e escolha.

    Quando tudo é suspeito, nada é verdadeiramente escrutinado.
    E quando a política perde essa distinção essencial, perde também a sua razão de existir.

  • O fascismo domesticado: sobre o regresso do lobo, agora de casaco às riscas
    Não sei se é o mundo que mudou ou se fomos nós que nos habituámos a sons de sirene. Durante décadas, o fascismo era uma coisa monumental e óbvia: tanques, estátuas, hinos, o líder com voz de trovão e punho no ar. Era fácil reconhecê-lo. Era quase confortável na sua brutalidade explícita — uma espécie de mal cinematográfico, o inimigo público número um.

    O problema é que o fascismo percebeu que ser fascista se tornou má ideia de marketing. A história não foi simpática com ele. Então tratou de reaparecer — mas domesticado, sorridente, televisivo. Como um lobo com casaco às riscas e perfume barato.

    Hoje, a nova extrema-direita apresenta-se como aquilo que a democracia promete: “o povo”. Não quer derrubar o sistema — quer habitá-lo, reformá-lo, temperá-lo. Quer limpar-lhe as bordas, aparar os excessos. “A liberdade está em risco.” “Perdemos a identidade.” “A criminalidade está descontrolada.” “Os estrangeiros levam-nos tudo.” É sempre o mesmo refrão: há um inimigo, há uma decadência, e há um salvador — nacional, puro, imaculado.

    A velha Europa construiu barreiras antifascistas feitas de mármore constitucional. Proibiu símbolos, milícias, discursos raciais. Mas agora, os partidos da nova direita radical já não usam símbolos. Não falam de “raça”, falam de “cultura”. Não defendem a violência, defendem “lei e ordem”. Não querem um líder supremo, querem “referendos” e “vontade popular”. A linguagem mudou — o conteúdo nem tanto.


    O novo inimigo: não o tanque, mas a infiltração

    O antifascismo antigo era binário: ou fascista ou democrata. Hoje, a fronteira passeia-se no meio de nós. Esta extrema-direita não invade — infiltra-se. Não conquista o poder em marcha militar; vence-o a caminho de urna. Entra no parlamento como quem entra numa casa alheia: devagar, cordial, e começa a mover os móveis com um sorriso.

    Steven Levitsky e Daniel Ziblatt avisam-nos de uma coisa fundamental: as democracias não morrem necessariamente de golpe militar; morrem por erosão institucional3. A captura gradual dos tribunais, a intimidação da imprensa, a normalização da crueldade política, as leis que reduzem liberdades sem nunca as extinguirem de uma vez. Um livro sobre a morte lenta, e sobre a nossa incapacidade de a reconhecer enquanto acontece.

    O fascismo clássico dinamitava. A nova direita radical escava. A casa não cai — apodrece.


    Não lhes chamemos fascistas: agradecem

    É fácil — quase terapêutico — chamar-lhes fascistas. Dá-nos um eixo moral confortável, a certeza histórica de que “nós estamos certos” e “eles são monstros”. Só que o insulto é gasolina. Chamá-los “fascistas” é oferecer-lhes a narrativa que mais desejam: a de vítimas da elite cultural, do “politicamente correto”, dos jornalistas pagos, da academia marxista. Tudo o que lhes atiramos volta embrulhado em ressentimento e convertido em votos.

    Cas Mudde descreve esta metamorfose com simplicidade cirúrgica: a nova extrema-direita não pretende destruir a democracia — pretende remodelá-la a partir de dentro1. O seu ADN não é o totalitarismo clássico, mas um tripé tão eficaz quanto subtil: nativismo (o “nós” contra “eles”), autoritarismo (a ordem acima da liberdade) e populismo (o povo puro contra as elites corruptas)2.

    O fascismo do século XX era hierárquico e elitista. A nova extrema-direita é plebeia no discurso e aristocrática na prática: promete dar voz ao povo, mas governa para poucos.


    A erosão quotidiana

    O que hoje chamamos “regresso do fascismo” não chega com botas e capacetes. Chega em pacotes legislativos. Em tweets. Em programas televisivos com público. Em sondagens onde o medo é vencedor. Chega com a normalização do absurdo: o imigrante que nos rouba empregos, o professor que é inimigo da tradição, o ambientalista que quer destruir a economia. Chega com a redução da política a um ringue de insultos e humilhações.

    Roger Eatwell e Matthew Goodwin mostram como este tipo de discurso oferece algo muito poderoso: pertencimento4. A política como alívio emocional, como tribo identitária para quem se sente abandonado, humilhado ou invisível. A nova extrema-direita não resolve os problemas: oferece culpados. E isso basta.


    O antifascismo que envelheceu

    Quando se diz que “o antifascismo está desatualizado”, não é uma questão de lei — é uma questão de linguagem. As constituições procuram o fascismo do passado, enquanto os tribunais e partidos enfrentam o fascismo do presente. Procuram milícias e líderes carismáticos; encontram hashtags e influencers. O antifascismo procura bomba; a extrema-direita usa boomerang.

    A resposta não é proibir ideias — isso só as mitifica. A resposta é mais incómoda: defender a democracia liberal com obstinação. O pluralismo, os tribunais independentes, a dignidade humana como princípio inegociável. A coragem de viver com quem pensa diferente, sem fantasias de pureza cultural ou moral.

    Pippa Norris e Ronald Inglehart lembram-nos que parte deste fenómeno é reação cultural5. As sociedades mudaram demasiado depressa para muitos — e a extrema-direita conseguiu ser a única a oferecer-lhes narrativa. Se a esquerda não percebe, perde; se o centro ignora, implode.


    O que já perdemos sem perceber

    Não veremos a “marcha sobre Roma”. Já vimos, isso sim, a marcha sobre o algoritmo. Não veremos a tomada de um parlamento num clarim. Veremos a sua colonização em nome da “maioria silenciosa”. Não veremos campos de concentração; veremos campos retóricos onde a dignidade humana começa por ser exceção. Um direito é retirado, depois outro, e outro — sempre em nome da proteção.

    Ruth Wodak analisa isto com ironia fria: o medo tornou-se política pública7. O medo do estrangeiro, do multiculturalismo, do feminismo, do ecologismo, do que quer que seja que desafie a monotonia da existência nacional.

    O fascismo regressará sempre que estivermos demasiado distraídos para defender a liberdade. Não com botas de couro — com blazers e powerpoints.


    Notas de rodapé / Referências

    1. Cas Mudde – Populist Radical Right Parties in Europe (Cambridge University Press, 2007).
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    2. Cas Mudde – The Far Right Today (Polity Press, 2019).
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    3. Steven Levitsky & Daniel Ziblatt – How Democracies Die (Crown, 2018).
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    4. Roger Eatwell & Matthew Goodwin – National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy (Pelican, 2018).
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    5. Pippa Norris & Ronald Inglehart – Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism (Cambridge University Press, 2019).
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    6. Ruth Wodak – The Politics of Fear (Sage, 2015).
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  • Quando os jornais formavam leitores

    Do Expresso ao Independente, passando pela ABOLA e Diário de Noticias

    Houve um tempo em que os jornais não eram apenas veículos de informação. Eram instituições culturais. Para quem cresceu antes da internet — e nasceu, por exemplo, no início da década de 1970 — ler um jornal era um gesto formativo: aprendia‑se o país, aprendia‑se a pensar e, não menos importante, aprendia‑se a escrever.

    O jornal como escola invisível

    Num ecossistema mediático sem notificações, feeds ou timelines, o jornal era mediador do mundo. A autoridade vinha da escrita, do critério editorial e do tempo — tempo para apurar, para editar, para escolher palavras. Jornais como o Diário de Notícias e A BOLA funcionavam como verdadeiros embaixadores da língua portuguesa, chegando por vezes a superar muitos generalistas no cuidado estilístico e na clareza sintáctica.

    Ler um jornal era, também, um exercício de cidadania linguística. A língua não era utilitária; era um património partilhado.

    O Expresso: referência e centralidade

    Nesse contexto, o Expresso ocupava um lugar singular. Era o semanário que estruturava a semana política, o jornal que todos liam — ou diziam ler. A sua autoridade era silenciosa e transversal, atravessando partidos, elites e leitores comuns. Não precisava de afirmar a sua importância: ela era reconhecida.

    Ainda hoje o Expresso mantém peso, pluralismo e qualidade jornalística. Mas perdeu algo essencial: a centralidade incontestada que teve até aos anos 90. Não tanto por falhas próprias, mas porque o mundo mediático fragmentou‑se e porque perdeu o seu principal antagonista.

    O Independente: irreverência como contrapoder

    O Independente não era apenas um concorrente do Expresso. Era um contrapoder cultural. Introduziu irreverência, ironia e desconstrução num espaço dominado por solenidade institucional. Errava — por vezes errava muito — mas obrigava todos os outros a não se acomodarem.

    Para um leitor jovem, politizado e curioso, O Independente era oxigénio. Dava prazer, surpresa e desconforto. Onde o Expresso oferecia estrutura e contexto, O Independente oferecia fricção.

    Essa tensão elevava o debate público.

    O que se perdeu com o desaparecimento do antagonista

    Com o fim de O Independente, perdeu‑se mais do que um jornal. Perdeu‑se uma dialética. O Expresso ficou sem espelho crítico à mesma escala; o espaço público ficou mais previsível. Tentativas posteriores nunca conseguiram ocupar plenamente esse lugar — faltou risco, voz própria e independência real.

    Hoje há mais opinião, mais ruído e mais velocidade. Mas há menos tensão criativa, menos escrita durável e menos ambição cultural.

    Uma perda que não é nostalgia

    Sentir esta perda não é saudosismo. É reconhecer que os jornais deixaram de cumprir uma função formativa essencial. Informam mais depressa, mas formam menos. Reagem mais, mas explicam menos. E tratam o leitor, muitas vezes, como consumidor de atenção, não como cidadão adulto.

    O Público ocupou parte do espaço deixado vago pelo Diário de Notícias — com enorme mérito — mas sem o peso histórico e simbólico que nunca poderia herdar. O problema não é a falta de qualidade; é a ausência de centralidade cultural.

    O jornalismo desportivo e a perda com a passagem a diário

    Há ainda uma dimensão que ajuda a compreender esta perda de densidade cultural: a transformação do jornalismo desportivo em produto diário. Durante décadas, jornais como A BOLA não eram apenas veículos de resultados e notícias — eram espaços de escrita cuidada, reflexão e até aprendizagem da língua portuguesa.

    Enquanto semanários (ou com uma cadência menos frenética), esses jornais beneficiavam de algo hoje raro: tempo. Tempo para apurar, para escrever melhor, para editar com rigor. O futebol não precisava de gerar “novidade” todos os dias; precisava apenas de ser bem contado.

    A passagem a diário alterou profundamente esse equilíbrio. A necessidade de preencher páginas quotidianas empurrou o jornalismo desportivo para:

    • o rumor permanente,
    • a sobreinterpretação de micro-acontecimentos,
    • a transformação da especulação em manchete.

    Nesse contexto, perdeu-se parte do cuidado linguístico, da ambição cultural e da distância crítica. A BOLA deixou de ser apenas um jornal sobre futebol que escrevia bem — e passou a competir num ecossistema dominado pela velocidade, pelo impacto e pela emoção imediata, terreno onde outros títulos sempre estiveram mais confortáveis.

    O resultado foi um empobrecimento não apenas informativo, mas também linguístico e cultural. O futebol continuou central na sociedade portuguesa, mas deixou, em grande medida, de ser um espaço onde se aprendia a ler e a escrever melhor.

    Conclusão

    O que se perdeu não foi apenas um modelo de negócio ou um hábito de leitura. Perdeu‑se a ideia de que o jornal podia ser uma escola invisível — de pensamento, de linguagem e de cidadania.

    Talvez por isso, hoje, essa ambição reapareça noutros lugares: ensaios, newsletters, blogues. Espaços mais lentos, mais exigentes, mais conscientes de que escrever bem continua a importar.

    Porque, em última análise, informar é necessário. Mas formar continua a ser indispensável.

  • Estabilidade, inovação e poder: BSD, Linux e macOS como três caminhos do Unix

    Há discussões técnicas que, na verdade, nunca são apenas técnicas. A forma como um sistema operativo é desenhado, governado e evolui diz tanto sobre código como sobre valores, prioridades e relações de poder.

    Um exemplo recente disso é o vídeo que circula no YouTube e que coloco no início deste artigo, dedicado a comparar Linux e BSD — não tanto numa lógica de competição, mas como expressões de duas tradições próximas e, ao mesmo tempo, distintas dentro do universo Unix. O vídeo evita a pergunta estéril do “qual é melhor” e aponta antes para algo mais interessante: diferenças de conceção, filosofia e contexto de uso.

    É precisamente aí que a discussão ganha profundidade. Porque, ao lado de Linux e BSD, existe um terceiro vértice frequentemente esquecido nestes debates: o macOS. Um sistema que é herdeiro direto do Unix e da tradição BSD, mas que seguiu um caminho filosófico radicalmente diferente — e que hoje é um dos sistemas operativos mais influentes do mundo.

    O que emerge, quando olhamos para estes três sistemas em conjunto, não é uma hierarquia nem uma resposta definitiva, mas um triângulo de conceções distintas:
    todas legítimas, todas eficazes nos seus contextos, todas com custos e benefícios próprios.


    Linux e Unix: inspiração não é filiação

    Convém esclarecer um ponto que surge frequentemente de forma confusa nestas discussões: o Linux não é Unix. Nem histórica, nem tecnicamente. O Linux inspira-se profundamente na tradição Unix, mas é um kernel criado de raiz, desenvolvido independentemente do código original da AT&T ou das linhagens BSD.

    Quando Linus Torvalds inicia o Linux, no início dos anos 90, fá-lo com o objectivo explícito de criar um sistema compatível com os princípios e a filosofia Unix — simplicidade conceptual, multitarefa, permissões claras, ferramentas pequenas e combináveis — mas sem reutilizar código Unix proprietário. O resultado não é uma continuação direta do Unix, mas uma reinterpretação funcional dos seus valores.

    É por isso que o Linux é frequentemente descrito como Unix-like: comporta-se como Unix, fala a sua linguagem e adopta os seus costumes, mas não pertence à sua genealogia histórica. Ao contrário do BSD ou do macOS, que descendem diretamente dessa linhagem, o Linux representa um gesto diferente: recriar o Unix sem herdar o Unix.

    Essa distinção é mais do que académica. Ela ajuda a perceber porque o Linux se tornou um ecossistema tão flexível e adaptável. Libertando-se da herança institucional do Unix clássico, pôde crescer como plataforma aberta, moldada por necessidades contemporâneas — da cloud aos containers, do embedded ao desktop moderno — sem a obrigação de preservar uma continuidade histórica estrita.


    Não há o melhor sistema — há filosofias diferentes

    Comecemos por uma ideia simples, mas frequentemente esquecida: não existe o melhor sistema operativo em abstrato.
    Existem sistemas que se adaptam melhor a determinados contextos porque foram pensados com pressupostos diferentes.

    BSD, Linux e macOS partilham raízes técnicas profundas. São Unix ou Unix-like. Um utilizador experiente sente-se rapidamente “em casa” nos três. Mas essa proximidade esconde algo mais profundo: uma divergência filosófica clara sobre estabilidade, inovação e controlo.


    BSD: estabilidade como princípio

    Nos sistemas BSD, a estabilidade não é um efeito colateral — é uma intenção fundacional.

    O sistema é concebido como um todo coerente:

    • kernel e userland evoluem em conjunto
    • a documentação corresponde fielmente ao sistema real
    • mudanças são ponderadas, graduais e raras

    Aqui, inovar significa melhorar sem quebrar.
    A previsibilidade é um valor em si mesma.

    Isso explica porque o BSD continua a ser uma escolha sólida para servidores críticos, redes, firewalls e infraestruturas onde o pior erro possível é o inesperado. Não é um sistema orientado para a novidade, mas para a confiança ao longo do tempo.


    Linux: estabilidade como resultado

    Associar o BSD à estabilidade não implica — nem pode implicar — que o Linux seja instável.
    Pelo contrário: o Linux para servidores é hoje um dos sistemas mais estáveis alguma vez criados.

    A diferença está no caminho.

    O Linux não constrói estabilidade pela imobilidade, mas pela gestão da complexidade:

    • ciclos de desenvolvimento claros
    • versões LTS
    • backports criteriosos
    • distribuições pensadas explicitamente para produção

    A estabilidade do Linux moderno é industrial. É resultado de escala, teste massivo e disciplina imposta pela necessidade. E essa necessidade surgiu sobretudo quando as empresas passaram a depender dele.


    O papel decisivo das empresas no Linux

    Sem romantismos: o Linux não teria atingido o seu nível atual sem investimento empresarial.

    Empresas moldaram o Linux de três formas essenciais:

    1. Impuseram previsibilidade — porque produção não tolera caprichos
    2. Profissionalizaram o ecossistema — suporte, certificação, segurança
    3. Normalizaram escolhas — reduzindo a fragmentação inicial

    Isso teve custos: decisões controversas, concentração de poder, perda de alguma diversidade espontânea.
    Mas também teve um efeito decisivo: transformou o Linux numa infraestrutura global confiável.

    E foi esse mesmo processo que, mais tarde, tornou o Linux uma alternativa real no desktop.


    Linux no desktop: viável por investimento, não por ideologia

    Durante muitos anos, o desktop Linux falhou não por razões técnicas profundas, mas por falta de prioridade.

    A viragem aconteceu quando empresas perceberam que:

    • developers usam desktop
    • desktop é porta de entrada para ecossistemas
    • UX importa

    Red Hat, Canonical, Valve, Google e outras financiaram:

    • ambientes gráficos modernos
    • Wayland, PipeWire
    • drivers, gaming, integração

    O Linux no desktop não venceu o mercado — mas tornou-se uma alternativa válida, algo impensável sem investimento estruturado.


    macOS: herdeiro do Unix, antítese filosófica

    É aqui que o triângulo se fecha.

    O macOS assenta numa base BSD real:

    • kernel XNU (Mach + BSD)
    • userland BSD
    • conformidade POSIX

    Tecnicamente, o macOS é mais próximo de um BSD do que de um Linux.
    Mas filosoficamente, segue o caminho oposto.

    Para a Apple:

    • Unix é infra-estrutura invisível
    • o sistema deve ser opaco ao utilizador
    • o controlo é centralizado

    Não há forks viáveis.
    Não há governação partilhada.
    Não há negociação comunitária.

    A estabilidade, a inovação e o poder estão alinhados numa única entidade.

    Funciona — e funciona muito bem. Mas à custa da liberdade do utilizador.


    Três caminhos, uma mesma herança

    O que este triângulo revela não é uma competição, mas uma escolha de prioridades:

    • BSD escolhe coerência e fidelidade técnica
    • Linux escolhe adaptação e escala
    • macOS escolhe controlo e experiência

    Todos partem do Unix (por tecnologia e/ou filosofia).
    Todos chegam a resultados impressionantes.
    Todos pagam preços diferentes.


    Conclusão: tecnologia como espelho da modernidade

    Talvez a conclusão mais honesta seja esta:

    O macOS prova que o Unix pode dominar o mercado.
    O Linux prova que se pode usar a filosofia Unix e ser livre e global.
    O BSD prova que o Unix pode permanecer fiel a si próprio.

    Não há vencedores absolutos.
    Há modelos diferentes de lidar com estabilidade, inovação e poder — na tecnologia, como na sociedade.

    E é por isso que estas discussões continuam a importar muito para lá do código.

  • Sohyang: quando a música se torna verdade

    Há artistas que nascem para o palco e outros que, de alguma forma, passam pelo palco como quem atravessa uma sala — sem esforço, sem arrogância, sem a obsessão da presença. E depois há uma categoria ainda mais rara, quase invisível na história da música moderna: aqueles que não nasceram para o palco, mas para algo muito mais profundo — a entrega. Sohyang pertence a esse grupo.

    Não é exagero afirmar que estamos perante uma das vozes mais extraordinárias do nosso tempo. Mas também seria um erro começar pela técnica, como fazem tantos textos sobre grandes cantores. A técnica dela, por mais impressionante que seja, não é a porta de entrada. O impacto de Sohyang não vem do que a voz consegue — vem do que a voz revela.

    E talvez seja por isso que, apesar de tão rara, continua praticamente desconhecida do grande público ocidental.

    A estranheza luminosa de alguém que não procura ser estrela

    Vivemos numa era em que a indústria musical tem talentos e máquinas de promoção a mais — e autenticidade a menos. Os artistas constroem personas, moldam discursos, produzem versões editadas de si próprios para serem consumidas, vendidas, replicadas. Nada disto é necessariamente mau; faz parte do tempo em que vivemos.

    Sohyang, porém, parece existir fora dessa lógica.

    Não porque recusa o palco, mas porque o palco não é o seu destino. Ela sobe, canta, toca alguém — e volta à sua vida como se nada tivesse acontecido. Não há glamour, não há culto da imagem, não há a narrativa do “fenómeno global” que tantas carreiras procuram encenar. E isto não é estratégia: é coerência.

    Durante anos, vários produtores tentaram “moldá-la” para o mercado internacional. Houve interesse real em levá-la ao Japão, aos Estados Unidos, ao tipo de exposição mediática que cria divas globais. Ela disse não. Não por medo, nem por falsa modéstia, mas porque a fama nunca esteve no horizonte interior dela.

    A música, para Sohyang, não é plataforma — é vocação. E uma vocação nunca se negocia.

    A fé como raiz: mais do que crença, identidade

    Falar de Sohyang sem falar do cristianismo é ignorar metade da sua existência. Não falo de religião como adereço cultural — falo de uma relação espiritual concreta, íntima, que moldou cada escolha que fez, cada música que cantou, cada forma de se apresentar ao mundo.

    Quando vemos o seu canal de YouTube — simples, quase caseiro, sem edição polida — percebemos imediatamente a diferença. Ali não está uma “artista”. Está uma mulher que conversa com a mesma naturalidade com que respira: sobre fé, fragilidade, medo, gratidão. O canal não serve para construir imagem, atrair patrocínios ou vender qualquer ideia de perfeição. Serve para falar de verdade.

    E talvez seja essa transparência espiritual que torna tão intenso o que ouvimos nas suas performances. Há artistas que interpretam emoções; ela não interpreta. Ela acredita. E essa crença — humana, vulnerável, às vezes trémula — dá-lhe uma profundidade que raramente se encontra num palco.

    A emoção que não se representa — vive-se

    Quando Sohyang canta Lean On Me, a sensação não é de estarmos a ver um cover. É outra coisa: é como se a canção ganhasse pela primeira vez aquilo que sempre pediu. Um tipo de luz interior que só existe quando alguém canta com a alma aberta.

    A progressão emocional dessa performance diz tudo sobre ela: começa com um sussurro, quase frágil, cresce com uma naturalidade desconcertante e explode num clímax que não é técnico — é espiritual.

    Everyone representa outro tipo de verdade. É talvez a performance mais humana, mais exposta, mais vulnerável. A meio da música, quando tudo pára, ela fala com o público num tom que não é performativo. Aquele instante não pertence ao espetáculo — pertence à vida.

    A técnica dela é impecável — mas a técnica nunca é o centro. O centro é essa verdade crua que poucos artistas conseguem permitir-se mostrar.

    A técnica que existe para servir a emoção, não o contrário

    Há quem chame a Sohyang de “vocalista perfeita”, “diva absoluta”, “fenómeno técnico”. São elogios verdadeiros, mas insuficientes.

    Sim, ela tem controlo de belting que rivaliza com Céline Dion.
    Sim, tem pureza vocal que lembra as grandes sopranos.
    Sim, improvisa com fluidez gospel, canta jazz com phrasing limpo, aborda música clássica com rigor.
    Sim, consegue transitar do pop para o lírico, do rap para o soul, como se mudasse de respiração.

    Mas a grande distinção é outra: ela usa a técnica para abrir caminhos emocionais, não para os ocultar.

    Onde outros artistas se resguardam atrás da perfeição, Sohyang expõe-se.
    Onde outros aplicam a técnica como escudo, ela usa-a como ponte.

    E isso é tão raro quanto difícil.

    Um tesouro escondido — não por acaso, mas por convicção

    A pergunta inevitável é: como é possível que uma artista assim não seja globalmente conhecida? A resposta é simples: porque não quis. Porque o mundo da música, tal como está, não combina com o modo como ela vive.

    Sohyang não cabe no molde.
    Não quer ser ícone.
    Não quer ser marca.
    Não quer entrar na lógica do olhar permanente.

    E essa recusa, longe de diminuir o impacto dela, amplifica-o. Porque não vemos nela uma estrela inacessível — vemos uma mulher inteira.
    E talvez seja essa integridade que tantas pessoas sentem, mesmo sem saber explicar.

    Ela canta como quem oferece algo.
    E oferece como quem acredita que a música pode curar, iluminar ou, pelo menos, acompanhar alguém no momento certo.

    Há quem procure multidões.
    E há quem procure propósito.
    Sohyang escolheu o segundo caminho — e ganhou algo que a indústria já não sabe produzir: verdade.

    Sohyang: a artista que redefine o que é ser artista

    No fim, talvez se possa resumir assim:

    A música comercial dá-nos estrelas.
    A música sincera dá-nos pessoas.
    A música de Sohyang dá-nos — por instantes — um reflexo do melhor que ainda conseguimos sentir.

    Num mundo saturado de espetáculo, a existência de alguém como ela parece quase um milagre.
    E talvez seja.

    Não porque canta mais alto.
    Não porque atinge notas impossíveis.
    Mas porque, quando canta, acredita.
    E essa crença, rara e luminosa, transforma o simples acto de cantar num gesto de graça.

    Sohyang não é apenas uma voz.
    É uma lembrança de que a música, quando verdadeira, não entretém — toca.

    E artistas assim merecem ser descobertos.

    Onde começar: performances que revelam a alma de Sohyang

    Falar sobre Sohyang é uma coisa.
    Vê-la — ouvi-la — é outra totalmente diferente.
    Há artistas que impressionam pela técnica e outros pela emoção; Sohyang faz ambas as coisas ao mesmo tempo.
    Mas há certos momentos em que isso transparece com uma clareza quase absoluta.
    Para quem quiser compreender realmente quem ela é, estes são os pontos de partida inevitáveis.


    1. Lean On Me — a luz interior

    Provavelmente o momento mais emblemático da carreira televisiva dela.
    Começa com a fragilidade de quem entra devagar numa sala escura e termina com a força de alguém que abre as janelas todas.
    Não é apenas canto: é uma viagem emocional.
    Uma mão estendida ao mundo.


    2. Everyone — a vulnerabilidade absoluta

    Se Lean On Me é luz, Everyone é verdade nua.
    O instante em que a música pára e ela fala com o público é um dos momentos mais humanos alguma vez transmitidos num palco.
    É raro ver alguém expor-se assim — sem filtro, sem cálculo, sem medo.
    É aqui que percebemos que a voz dela vem de um lugar interior, íntimo, inegociável.


    3. Amazing Grace — a fé transformada em som

    Não é preciso ser religioso para compreender a intensidade desta performance.
    O improviso não é técnico, é espiritual.
    O crescendo final não procura aplausos, procura libertação.
    É talvez o exemplo mais claro do que significa cantar não para o público, mas com algo maior do que o público.


    4. Bridge Over Troubled Water — a força de quem acolhe

    Há quem interprete esta canção como apelo, quem a interprete como promessa.
    Sohyang canta-a como abraço.
    O final — construído com improvisos curtos, densos, intensos — tem algo de profundamente humano, como se ela estivesse a carregar a dor de alguém consigo.


    5. Arirang Alone — a identidade que não se apaga

    Uma interpretação tradicional, mas carregada de história.
    Arirang é quase um hino emocional da Coreia; cantar esta canção é tocar numa memória coletiva.
    Sohyang honra essa memória com uma delicadeza que se transforma, no final, em força.
    É um dos momentos em que mais claramente vemos a relação dela com as próprias raízes.


    6. Mashup Lacrimosa × Gangsta’s Paradise — a ponte impossível

    Poucos artistas conseguiriam ligar Mozart a Coolio sem cair no absurdo.
    Sohyang não só liga — como faz parecer natural.
    Este mashup revela a versatilidade extrema, mas principalmente a inteligência emocional com que aborda cada género.
    É aqui que percebemos a dimensão artística que vai muito além da técnica.


    7. Misty (Ella Fitzgerald) — a humildade do jazz

    Jazz é território de risco: demasiada liberdade e perde-se o centro; pouca liberdade e perde-se a alma.
    Nesta versão, Sohyang caminha na linha perfeita.
    Sussurra, respira, desliza — e não tenta ser Ella.
    Tenta ser verdadeira.
    E consegue.


    8. DayDay — a surpresa do rap

    Não está aqui pela grandiosidade, mas pela honestidade.
    Um dos momentos que revela que a versatilidade de Sohyang não é calculada: é vivida.
    Ela entra, flui, brinca, improvisa.
    Como se dissesse: “a música não é caixa — é caminho”.

  • Construir mais, para quê? O mito da oferta e a economia da especulação

    O paradoxo português: quanto mais se constrói, mais caras ficam as casas. Um país que trata a especulação como política pública.


    Já aqui escrevi sobre a crise da habitação — esse espelho de um país que trocou o direito constitucional à casa por uma promessa de mercado. Mas há uma ideia que insiste em resistir, como um refrão fácil: a de que basta construir mais para resolver o problema.

    A teoria é sedutora. Se a oferta aumenta, os preços caem — diz o manual do liberalismo económico. O problema é que o manual não lê a realidade. O Público publicou hoje um artigo com dados que expõem a contradição: as regiões onde mais se constrói são as que registam os maiores aumentos de preços.

    Entre 2019 e 2024, o número de novos fogos quase duplicou em Portugal. Na Madeira, no Porto, no Oeste, no Alentejo Litoral e em Lisboa, a construção disparou mais de 100%. E os preços? Subiram ainda mais — até 97% na Madeira. O mercado respondeu, sim — mas ao apetite do capital, não à necessidade de habitação.

    É que já não se constroem casas, constroem-se ativos. A habitação transformou-se num produto financeiro, um abrigo para o dinheiro, não para as pessoas. E, ao contrário das laranjas, os imóveis não apodrecem. Podem ficar vazios, guardados, à espera de valorizar — o que os economistas chamam “entesouramento”.

    Portugal é hoje um dos países da OCDE com mais casas por habitante. O problema não é falta de oferta — é falta de regulação. E, ao contrário de outros países que tentam travar a especulação — limitando a compra por fundos estrangeiros, taxando casas vazias ou controlando rendas em zonas de pressão —, Portugal continua a financiá-la.

    Financia-a com isenções fiscais, com regimes especiais para fundos imobiliários, com medidas que tratam o investimento como salvação universal. Chamam-lhe política de habitação; na prática, são subsídios à especulação.

    No fim, sobra a mesma pergunta: construir mais, para quê? Para garantir que todos têm casa — ou para garantir que há sempre quem possa comprá-las todas?

    Créditos e referências:

    Imagem de Brandon Griggs

    Público: Regiões com maior aumento da construção são onde os preços das casas mais sobem

  • Friendfeed: O legado e o vazio

    Alguns dos meus velhos conhecidos da diáspora que são as redes sociais devem recordar com nostalgia do FriendFeed.

    Era um tempo em que a internet ainda se sentia como um território por explorar, onde cada utilizador era um pouco pioneiro, um pouco arquiteto do seu próprio canto digital. O FriendFeed não era uma rede social para massas — era um refúgio para os geeks, os curiosos, os que gostavam de discutir código, partilhar links obscuros, comentar notícias de nicho ou simplesmente observar, em tempo real, o fluxo caótico e fascinante da atividade online dos seus pares. Não era um lugar para todos, e era exatamente isso que o tornava especial.


    O FriendFeed como Bilhete de Identidade Digital

    O FriendFeed não era apenas mais uma plataforma: era uma extensão da nossa presença online. Agregava, em silêncio, os nossos pensamentos espalhados por blogs, fotos no Flickr, atualizações no Twitter, e transformava-os num único fluxo coerente. Era como um diário público, uma forma de dizer: “Isto sou eu, isto é o que me interessa, isto é o que penso.”

    Para quem o usava, não se tratava apenas de partilhar conteúdo — tratava-se de construir uma identidade digital curada, onde cada like, comentário ou partilha refletia uma escolha consciente. Era um espaço onde a tecnologia servia as pessoas, e não o contrário.


    A Inovação que Mudou Tudo (e que Hoje Damos por Garantida)

    O FriendFeed foi pioneiro em algo que hoje parece óbvio: a agregação de conteúdo em tempo real. Antes do Facebook ter um feed de notícias dinâmico, antes do Twitter se tornar uma praça pública global, o FriendFeed já permitia que os utilizadores vissem, num só lugar, tudo o que os seus contactos faziam em diferentes plataformas. Era uma ferramenta revolucionária para a época, e a sua influência é visível até hoje.

    Quando o Facebook adquiriu o FriendFeed em 2009, muitas das suas funcionalidades — como o feed de notícias em tempo real — foram integradas na plataforma. Bret Taylor, cofundador do FriendFeed, tornou-se diretor de tecnologia do Facebook e ajudou a moldar o que hoje conhecemos como o “feed” das redes sociais

    . No entanto, o que o Facebook absorveu foi a tecnologia, não a comunidade. E foi essa comunidade, esse espírito de partilha e discussão genuína, que se perdeu para sempre.


    O Vazio que Ficou

    O FriendFeed não morreu com um estrondo. Desapareceu em silêncio, engolido pela máquina do Facebook, que absorveu a sua tecnologia mas nunca conseguiu replicar a sua alma. O que ficou não foi apenas a falta de uma ferramenta, mas a dispersão de uma comunidade — uma pequena tribo digital que perdeu o seu território.

    Hoje, quando olhamos para o feed infinito do Twitter/X, para o algoritmo voraz do Facebook ou para a fragmentação do Mastodon, sentimos a falta daquele espaço onde tudo convergia. Não era apenas uma questão de funcionalidade, mas de pertencimento. O FriendFeed era um lugar onde as conversas eram mais profundas, os comentários mais reflexivos, e onde a partilha de conteúdo não era ditada por algoritmos, mas por interesses genuínos.


    O Legado Invisível e o que Perdemos

    O FriendFeed provou que as redes sociais não precisavam de ser massivas para serem influentes. Mostrou que era possível criar espaços digitais onde a qualidade das interações prevalecia sobre a quantidade. Hoje, quando falamos de redes sociais, falamos de algoritmos, de polarização, de atenção fragmentada. O FriendFeed lembra-nos de uma época em que a internet ainda era um lugar de descoberta, onde a conexão não era medida em likes, mas em conversas significativas.

    O seu legado técnico vive nas plataformas que usamos diariamente, mas a sua essência — aquele sentido de comunidade e de controle sobre a nossa própria identidade digital — nunca foi verdadeiramente substituída. Talvez por isso, anos depois, ainda nos perguntemos: o que perdemos quando perdemos o FriendFeed? Não foi apenas uma plataforma. Foi uma forma de estar online, uma forma de nos conectarmos uns com os outros sem o ruído e a pressa que hoje dominam a web.

    Num mundo onde a internet se tornou cada vez mais massificada e menos pessoal, a nostalgia do FriendFeed não é apenas saudade de uma ferramenta. É a saudade de um tempo em que a internet ainda nos pertencia. E, talvez, um lembrete de que ainda podemos — e devemos — lutar por espaços digitais que nos representem verdadeiramente.

  • A morte lenta do mural: como o Facebook perdeu a sua alma

    Quando nos lembramos dos primeiros tempos do Facebook, parece-nos quase uma outra era: o mural (news feed) fervilhava com ideias, links auto-gerados, reflexões pessoais, debates entre amigos sobre livros, filmes, política, artes — uma ágora digital. Eu próprio incentivei várias pessoas a entrar, criámos comunidades, alimentámos a partilha.
    Hoje, olhando para ele, tenho a impressão de que aquele espaço perdeu a alma. Está lá, claro — os perfis, os grupos, os “likes” continuam — mas o pulsar original abrandou. As pessoas dispersaram-se; novas redes mais ágeis, mais espontâneas, chamaram a atenção; e o Facebook ficou — diria — mais estático, mais corporativo, mais dirigido ao consumo do que à conversa.

    O auge: o Facebook como ágora digital

    No seu livro The Facebook Effect (2010), David Kirkpatrick relata como o Facebook evoluiu de um projecto de dormitório em Harvard para uma empresa com 500 milhões de utilizadores.
    Naquele período — entre 2007 e 2012 — a rede social permitia concretamente coisas raras: contacto informal, extensão de amizades reais, descoberta de conteúdos partilhados com alguma assinatura pessoal. Para muitos, era a primeira experiência em que um amigo partilhava um artigo completo, uma opinião política, um pensamento de madrugada — e isso gerava reacções reais, comentário verdadeiro.

    A transição: crescimento, massificação, algoritmo e publicidade

    Mas à medida que o Facebook crescia, as dinâmicas mudaram. A rede deixou de ser apenas “entre amigos” para se tornar “de todos”, e com isso vieram mudanças estruturais:

    • O algoritmo que decide o que aparece no feed, menos escolha pessoal e mais curadoria algorítmica;
    • A publicidade intensificada, as marcas, as páginas com milhares de seguidores que competem por atenção;
    • A massificação dos perfis, o que dilui o carácter íntimo e espontâneo.

    Em The Culture of Connectivity (2013), José van Dijck explica como plataformas como o Facebook incorporam a lógica do “compartilhar” como imperativo de design — “What you share is what you get.” Assim, o Facebook passou a incentivar a produção de conteúdo como acto de consumo, e a visibilidade deixou de ser natural: tornou-se dependente de regras e métricas.

    Da efervescência ao esvaziamento — a transição do debate online

    Durante a década de 2010, o Facebook foi perdendo o monopólio da conversa digital. À medida que o seu algoritmo se tornava mais fechado e orientado para a rentabilidade, a espontaneidade migrou para o Twitter, que se afirmava como a nova ágora da atualidade.

    O Twitter — ainda antes de se tornar X — consolidou-se como a rede social de referência para jornalistas, académicos, escritores e figuras públicas. Era o lugar onde as notícias nasciam, as opiniões se testavam e o debate público fervilhava em tempo real. A sua estrutura aberta, baseada em texto breve e ligação direta entre utilizadores, recriava algo do espírito original da internet: rápido, caótico, vivo.

    Enquanto o Facebook se transformava num mural estático e filtrado por algoritmos, o Twitter mantinha uma sensação de imprevisibilidade democrática: qualquer pessoa podia ser ouvida. Essa qualidade fez dele o espaço privilegiado do jornalismo contemporâneo — um misto de redação coletiva e bar virtual de discussões políticas.

    Mas com a aquisição por Elon Musk e a transformação em “X”, essa dinâmica começou a desmoronar-se. As mudanças de política, o colapso da moderação e a introdução do modelo pago (Twitter Blue) corroeram a credibilidade da plataforma e fragmentaram a comunidade. O que antes era o epicentro do debate tornou-se um território errático, sem identidade.

    O vazio deixado por essa mutação ajudou a impulsionar redes descentralizadas como o Mastodon e o Bluesky — espaços menores, mais comunitários e menos orientados para o lucro. É nelas que muitos antigos utilizadores do Facebook e do Twitter tentam hoje reconstruir o espírito de diálogo e partilha que se perdeu.

    Causas profundas da “crise” do Facebook

    • Monetização e lógica empresarial: a rede passou a focar-se menos em ser “comunitária” e mais em ser “negócio”, audiência, dados, publicidade;
    • Algoritmo e visibilidade reduzida: o mural deixou de ser cronológico e passou a ser curado por máquinas que privilegiam engajamento e lucro;
    • Mudança demográfica: os utilizadores fundadores envelheceram e os novos preferiram plataformas mais leves ou visuais;
    • Fadiga de conteúdo: os posts tornaram-se repetitivos e comerciais;
    • Desconfiança e escândalos: casos de privacidade e manipulação de dados abalaram a credibilidade.

    Como argumenta Siva Vaidhyanathan em Antisocial Media (2018/2022), o Facebook transformou-se num actor que mina a confiança social e favorece a polarização política. O resultado: em vez de “uma comunidade viva”, temos um feed que parece um repositório de anúncios e memes reciclados.

    Consequências para o debate público e para as comunidades locais

    O declínio do Facebook como “praça pública” tem implicações importantes:

    • Os meios de comunicação deixaram de depender tanto do Facebook como canal orgânico de distribuição;
    • As comunidades locais perderam parte do dinamismo dos grupos e eventos;
    • A cultura digital migrou para espaços mais lentos e deliberados, como blogs, newsletters e fóruns.

    Perspectiva pessoal e cultural

    Enquanto utilizador que acompanhou o boom do Facebook desde os seus momentos mais vibrantes, sinto-me hoje mais confortável em plataformas descentralizadas — como o Mastodon — onde o ritmo é mais humano e o diálogo mais autêntico. A Internet tornou-se mais segmentada: cada rede serve um propósito diferente, e o Facebook já não é o centro dessa experiência.

    Conclusão: o que fica, e para onde vamos

    O Facebook não morreu, mas mudou. Continua útil para famílias, grupos e memórias, mas a sua função é outra. A “alma” do mural — o debate espontâneo — diluiu-se na lógica da monetização e da atenção.
    Para quem cria e lê com atenção, a lição é clara: a presença digital consciente importa. Manter um blogue próprio é talvez a forma mais autêntica de preservar o espírito das primeiras redes: partilhar ideias, e não apenas conteúdos.

    Referências