• Controlo, confiança e colaboração: três vias para o desktop moderno

    Durante anos, a discussão em torno dos sistemas operativos foi dominada por comparações técnicas: desempenho, estabilidade, compatibilidade, design. Mas há um plano mais profundo — e mais decisivo — onde estas escolhas se tornam verdadeiramente políticas e filosóficas: que relação estabelece o sistema com o utilizador e quem detém o poder último de decisão.

    A evolução recente do desktop moderno pode ser lida através de três vias distintas: controlo, confiança e colaboração. Não são apenas opções técnicas; são visões diferentes sobre autonomia, erro e responsabilidade.


    A via do controlo

    Na via do controlo, o sistema assume a responsabilidade quase total pelo bom funcionamento da experiência. As decisões estruturais são tomadas a montante, os caminhos possíveis são cuidadosamente delimitados e o utilizador é protegido de erros potencialmente graves.

    Esta abordagem oferece vantagens claras: estabilidade elevada, previsibilidade, integração profunda entre componentes e uma experiência geralmente polida. O custo é igualmente claro: liberdade estrutural reduzida. O utilizador pode escolher dentro de um perímetro bem definido, mas raramente pode redefinir esse perímetro. A Apple é o exemplo paradigmático.

    Aqui, a integração não é neutra — é um mecanismo de governação. Funciona porque limita, e limita porque desconfia da falibilidade humana.


    A via da confiança

    Na via da confiança, o sistema parte de um pressuposto oposto: o utilizador é competente ou, pelo menos, responsável pelas consequências das suas escolhas. O sistema oferece ferramentas, não proteções excessivas. A liberdade é ampla, mas o risco também.

    Historicamente, esta foi a cultura dominante no mundo Unix e Linux: sistemas transparentes, configuráveis, moldáveis. O utilizador ganha soberania total, mas também assume o peso da manutenção, da coerência e da recuperação quando algo corre mal.

    Esta abordagem valoriza a autonomia e o conhecimento, mas pode tornar-se hostil para quem não quer — ou não pode — viver permanentemente em modo administrativo. A confiança absoluta, quando não é acompanhada de suporte, transforma-se facilmente em abandono.

    A System76 é um dos melhores exemplos desta via, porque faz algo raríssimo:

    • vende hardware para Linux
    • desenvolve firmware aberto (coreboot)
    • cria o seu próprio desktop (COSMIC)

    Mas não fecha portas.

    A estabilidade não depende de obediência, mas sim de engenharia sólida.


    Uma possível terceira via: colaboração

    Entre o controlo absoluto e a confiança total começa a desenhar-se uma terceira possibilidade: a colaboração. Um modelo em que o sistema não decide tudo pelo utilizador, mas também não o deixa sozinho.

    Na via colaborativa, a liberdade mantém-se, mas é acompanhada de suporte estruturado: validações claras, zonas seguras para experimentar, recuperação simples quando algo corre mal. O erro deixa de ser uma falha moral ou técnica e passa a ser parte normal do uso.

    Ainda não existe um desktop que encarne plenamente esta filosofia, mas surgem sinais claros dessa transição: sistemas com rollback integrado, modelos declarativos, ambientes que preferem orientar em vez de proibir. A colaboração não substitui a autonomia; torna-a sustentável.


    Mais do que técnica, uma escolha política

    Estas três vias não competem apenas no plano da eficiência. Competem no plano da visão sobre o utilizador.

    • O controlo protege, mas infantiliza.
    • A confiança emancipa, mas pode isolar.
    • A colaboração procura equilibrar liberdade e cuidado.

    À medida que os sistemas se tornam mais integrados, mais imutáveis e mais resistentes ao erro, a questão deixa de ser se funcionam. Passa a ser como funcionam e para quem.

    Talvez o futuro do desktop não esteja em escolher um vencedor definitivo, mas em reconhecer que a tecnologia também expressa modelos de poder. E que perguntar quem decide os limites da nossa liberdade digital continua a ser uma questão essencial.


    Este texto não é um manifesto contra empresas ou tecnologias específicas. É uma reflexão sobre diferentes formas de organizar a relação entre sistemas e utilizadores. Num tempo em que a estabilidade é frequentemente comprada à custa da autonomia, vale a pena perguntar: quem decide até onde podemos ir?

  • O verdadeiro teste: Venezuela, soberania e o mundo que está a emergir

    A queda de Nicolás Maduro abriu uma janela de esperança para muitos venezuelanos. Depois de anos de colapso económico, repressão política e emigração forçada, é compreensível que o fim de um regime autoritário seja vivido como um alívio. Mas a história ensina-nos que a queda de um homem não equivale, automaticamente, à libertação de um país. O verdadeiro teste começa sempre depois.

    Neste momento, a grande interrogação não é apenas interna à Venezuela. É também externa. As declarações de Donald Trump — anunciando que os Estados Unidos irão governar o país durante uma “transição adequada” e que empresas norte-americanas assumirão o controlo das instalações petrolíferas — colocam uma questão central: quem decide o futuro da Venezuela, e em nome de quem?

    Este ponto é decisivo porque ultrapassa largamente o caso venezuelano. Insere-se num contexto internacional marcado por uma instabilidade crescente e pela erosão de princípios que, durante décadas, foram apresentados como pilares da ordem global. A chamada “ordem internacional baseada em regras” volta a revelar-se frágil, seletiva e profundamente condicionada pelos interesses das grandes potências.

    Os Estados Unidos invocam o direito internacional para condenar a invasão russa da Ucrânia — e com razão — mas ignoram-no quando intervêm diretamente noutros países, seja no Médio Oriente, seja agora na América Latina. Esta aplicação seletiva das regras não é nova, mas torna-se cada vez mais explícita. E cada exceção normalizada abre precedentes difíceis de fechar.

    É neste quadro que a Venezuela deve ser analisada. Não como um caso isolado, mas como parte de um mundo em transição. Um mundo onde:

    • a Rússia normalizou a guerra de conquista na Europa;
    • a China observa atentamente os limites da resposta ocidental, com Taiwan como ponto crítico;
    • os Estados Unidos recuperam uma lógica de força e tutela direta, visível não apenas na Venezuela, mas também em discursos sobre a Gronelândia ou alianças tratadas como relações de subordinação.

    Para muitos venezuelanos, esta leitura geopolítica pode parecer distante face à urgência do quotidiano. A esperança imediata é legítima. Mas, noutros pontos do globo, o sinal é lido de forma diferente. O que na Venezuela pode ser visto como libertação, em Taiwan é observado com apreensão. Porque a mensagem implícita é simples: quando as regras atrapalham, são contornadas.

    Nada disto equivale a defender Maduro ou relativizar o caráter autoritário do regime que caiu. Pelo contrário. Reconhecer a legitimidade do desejo de mudança não obriga a aceitar sem reservas o método nem os termos dessa mudança. A soberania, apesar de imperfeita e frequentemente violada, continua a ser um princípio central da estabilidade internacional. Quando é substituída por tutelas externas indefinidas, o risco não desaparece — apenas muda de forma.

    A Venezuela encontra-se, por isso, num ponto de bifurcação. Pode iniciar um processo real de reconstrução política, com protagonismo interno e instituições legítimas. Ou pode tornar-se mais um exemplo de transição controlada externamente, onde o fim de um regime não conduz necessariamente a uma democracia funcional, mas a uma nova dependência.

    Não é sobre quem caiu.
    É sobre o que vem a seguir.

    E, num mundo cada vez mais instável, essa resposta interessa não apenas aos venezuelanos, mas a todos nós.

  • Venezuela: esperança, geopolítica e a fatura que ainda não chegou

    Durante anos, a Venezuela foi o retrato de um país suspenso no tempo: autoritarismo, colapso económico, repressão política e um êxodo humano de proporções históricas. Para muitos venezuelanos, a queda de Nicolás Maduro representa finalmente uma rutura — não apenas com um regime, mas com uma década de asfixia.

    Essa esperança é real. E merece ser reconhecida.

    Mas a forma como essa rutura aconteceu levanta uma questão inevitável: que futuro nasce quando a libertação vem de fora?


    A libertação vista de dentro

    Para quem viveu:

    • escassez alimentar,
    • colapso dos serviços públicos,
    • perseguição política,
    • censura e medo,

    A queda de Maduro é, antes de mais, um alívio psicológico e simbólico. Há um sentimento legítimo de fim de ciclo, sobretudo entre os mais jovens, nas grandes cidades e na diáspora.

    Ignorar essa dimensão humana seria tão errado como romantizar o regime deposto.

    Mas a política não se faz apenas de símbolos. Faz-se de condições estruturais — e é aí que a história começa a complicar-se.


    O que caiu… e o que ficou de pé

    A operação que levou à captura de Maduro foi rápida e cirúrgica.
    Mas foi, acima de tudo, uma decapitação do regime, não uma transformação profunda do sistema.

    O aparelho de poder venezuelano — forças armadas, serviços de inteligência, elites administrativas — permanece em grande parte intacto. Muitos dos rostos centrais do chavismo continuam no país e no sistema.

    Isto cria um paradoxo perigoso:
    o rosto caiu, mas a estrutura sobreviveu.

    E quando isso acontece, o risco não é apenas a instabilidade — é a reconfiguração autoritária sob nova legitimação.


    A Venezuela deixou de ser apenas um problema interno

    Durante muito tempo, os Estados Unidos toleraram:

    • o autoritarismo do regime,
    • a repressão interna,
    • o colapso económico e humanitário.

    O que mudou não foi a natureza do regime.
    Foi o seu enquadramento geopolítico.

    A crescente aproximação à Rússia e a dependência estrutural da China transformaram a Venezuela num activo estratégico de rivais globais.

    A partir desse momento, Caracas deixou de ser vista apenas como uma tragédia latino-americana. Passou a ser lida, em Washington, como uma plataforma de projeção de poder hostil no hemisfério ocidental.


    Rússia: presença simbólica e militar

    A relação entre a Venezuela e Moscovo não foi apenas diplomática. Incluiu:

    • cooperação militar,
    • assessoria estratégica,
    • presença de equipamentos e pessoal,
    • alinhamento político explícito contra os EUA.

    Num mundo marcado pela guerra na Ucrânia, isto foi interpretado como a normalização da presença russa no “quintal” americano.

    Não por representar uma ameaça militar direta, mas por quebrar um tabu geopolítico histórico.


    China: influência silenciosa, mas profunda

    A China jogou um jogo diferente — menos ideológico, mais estrutural.

    Pequim tornou-se:

    • credora central do regime,
    • parceira energética privilegiada,
    • investidora em infraestruturas estratégicas,
    • garante de sobrevivência económica quando o Ocidente fechou portas.

    O resultado foi uma dependência por dívida que condiciona decisões soberanas a longo prazo.

    Para Washington, isto significava algo simples e inaceitável:
    um país com as maiores reservas de petróleo do mundo fora da sua órbita económica e estratégica.


    Trump e a lógica da força

    A decisão de Donald Trump não foi movida por ideais democráticos nem por humanitarismo. Foi realpolitik pura.

    Trump não fala a linguagem dos valores. Fala a linguagem do poder:

    • contenção de rivais,
    • demonstração de força,
    • controlo de activos estratégicos,
    • reposicionamento global.

    A leitura foi simples:

    se não agirmos agora, a Venezuela consolida-se como posto avançado russo-chinês.

    E isso, para Trump, era uma linha vermelha.


    O petróleo: reconstrução ou nova dependência?

    A reconstrução venezuelana passará inevitavelmente pelo petróleo.
    A questão não é se, mas como.

    Há dois caminhos possíveis:

    1. usar os recursos para reconstruir o Estado e a sociedade;
    2. pagar a “libertação” com concessões assimétricas e perda de controlo estratégico.

    Na América Latina, a história mostra que o segundo caminho cobra sempre um preço político elevado.
    E quando a perceção de soberania é ferida, o nacionalismo regressa — muitas vezes sob formas autoritárias.


    Democracia sob tutela é democracia frágil

    Outro risco evidente é o da democracia instrumental:

    • eleições apressadas,
    • elites no exílio a regressar sem base social sólida,
    • dependência económica externa,
    • frustração popular se a vida não melhorar rapidamente.

    Quando a esperança não se traduz em melhoria concreta, o vazio é rapidamente ocupado — quase sempre por soluções simplistas e personalistas.


    Conclusão: esperança legítima, futuro em disputa

    A queda de Maduro é, para muitos venezuelanos, um momento de libertação real.
    Negá-lo seria desumano.

    Mas a forma como essa queda ocorreu condiciona profundamente o futuro do país.

    A Venezuela enfrenta agora o seu verdadeiro teste:

    • reconstruir sem perder soberania,
    • democratizar sem tutela permanente,
    • usar os seus recursos sem repetir ciclos de dependência.

    A fatura ainda não chegou.
    Mas vai chegar.

    E a pergunta decisiva não é quem derrubou o regime,
    mas quem vai decidir o preço da transição — e em nome de quem.

  • A Ucrânia, a Palestina e a ordem internacional em erosão

    Há momentos históricos que funcionam como testes de stress à ordem internacional. Não porque introduzam algo radicalmente novo, mas porque tornam visível aquilo que já vinha a degradar-se em silêncio. A guerra na Ucrânia é um desses momentos. O seu desfecho não dirá apenas algo sobre a relação entre Kiev e Moscovo; dirá, sobretudo, se o princípio fundamental do pós-guerra — o de que território não pode ser conquistado pela força — continua a ter validade prática no século XXI.

    Ucrânia: mais do que uma guerra, um precedente

    Desde 2022, a invasão russa tem sido descrita como uma violação clara do direito internacional. E é. A Rússia tentou redesenhar fronteiras através da força militar, num gesto que muitos acreditavam ter ficado enterrado com a Segunda Guerra Mundial. Mas o que está agora em causa não é apenas a agressão inicial — é a forma como o conflito poderá terminar.

    Um acordo que legitime ganhos territoriais obtidos pela violência, mesmo que disfarçado de “realismo” ou “compromisso inevitável”, criaria um precedente perigoso. Não apenas porque recompensaria a agressão, mas porque sinalizaria algo mais profundo: a fadiga do Ocidente em sustentar os seus próprios princípios quando o custo político se torna elevado.

    A diferença entre um cessar-fogo e um acordo de paz é crucial. Um cessar-fogo congela a violência; um acordo de paz redefine a ordem. Se a Ucrânia for empurrada para aceitar perdas territoriais sem garantias de segurança duradouras, o resultado não será estabilidade, mas apenas uma guerra adiada. Uma paz com prazo de validade anuncia, desde logo, a próxima guerra.

    Mais ainda: um acordo frágil inviabiliza a reconstrução económica, afasta investimento e mantém o país num limbo estratégico. Quem investe seriamente num Estado cuja soberania está contratualmente suspensa? Quem reconstrói sabendo que a ameaça regressa quando o calendário político o permitir?

    É por isso que o futuro da Ucrânia é observado com atenção muito para além da Europa. Em cada capital que vive sob a sombra de um vizinho mais poderoso, a pergunta é simples: vale a pena confiar na ordem internacional, ou é mais prudente preparar-se para a lógica do mais forte?

    Quando as regras são seletivas: o espelho palestiniano

    É aqui que o discurso ocidental começa a revelar uma fratura difícil de ignorar. Porque o princípio que se afirma defender na Ucrânia — a inadmissibilidade da conquista territorial pela força — é sistematicamente relativizado noutro contexto central da política internacional: a Palestina.

    Há décadas que Israel ocupa territórios que não lhe pertencem segundo o direito internacional. Na Cisjordânia, a expansão contínua de colonatos altera deliberadamente a realidade no terreno, tornando cada vez mais inviável uma solução política baseada em dois Estados. Em Gaza, a destruição em larga escala e o controlo territorial reforçam uma lógica de facto consumado: primeiro impõe-se a força, depois discute-se a política.

    O paralelismo com a Ucrânia não está nas circunstâncias históricas — que são distintas — mas na lógica estrutural: ocupar, normalizar, negociar a partir da posição de força. Em ambos os casos, a comunidade internacional acaba por exercer maior pressão sobre a parte mais fraca para aceitar o “realismo”, enquanto o ocupante enfrenta consequências limitadas ou meramente retóricas.

    A contradição é evidente. O Ocidente apresenta-se como defensor da ordem baseada em regras, mas aplica essas regras de forma seletiva. Condena — e bem — a agressão russa, mas tolera ou apoia a ocupação israelita. O resultado não é apenas hipocrisia moral; é erosão estratégica.

    Porque esta incoerência não passa despercebida. Nem em Moscovo, nem em Pequim, nem no chamado Sul Global. Quando as regras parecem existir apenas para adversários, deixam de ser regras e passam a ser instrumentos de conveniência.

    A ordem que se desfaz por dentro

    A ordem internacional não colapsa com discursos inflamados nem com declarações solenes. Colapsa por precedentes. Cada exceção justificada, cada violação tolerada, cada princípio relativizado em nome da conveniência política contribui para um mundo mais instável e mais cínico.

    Se a Ucrânia for forçada a aceitar uma paz que legitime a conquista pela força, isso não será um acidente isolado — será a confirmação de uma tendência. Mas essa tendência não começou em 2022. A Palestina é, há muito, o exemplo de como a normalização da exceção fragiliza o todo.

    Talvez por isso a verdadeira escolha não seja entre paz e guerra. Seja na Ucrânia, seja na Palestina, a escolha é entre uma paz que previne a próxima guerra e uma paz que apenas a agenda. O problema é que, quando as regras deixam de ser universais, a segunda opção torna-se a mais provável.

  • Dimash: ambição, humildade e a voz ao serviço de algo maior

    Há vozes que impressionam pela raridade.
    E há vozes que se constroem como um projecto consciente, pensado no tempo longo.

    A de Dimash Qudaibergen pertence claramente ao segundo grupo. Não apenas pela extensão vocal extraordinária ou pelo domínio de múltiplas técnicas — do pop ao clássico, do rock ao canto lírico — mas pela forma como tudo isso é organizado em função de sentido.

    Em Dimash, a ambição técnica é evidente e assumida. O alcance vocal é objectivamente fora da curva, e a capacidade de atravessar registos extremos com controlo e afinação não deixa margem para dúvidas. Ainda assim, essa ambição nunca se transforma em exibição vazia. A técnica não surge como fim, mas como meio expressivo. Como linguagem.

    A métrica não é tudo na música — mas não é irrelevante. Quando atinge este nível, deixa de ser fetiche e passa a ser dado estrutural. Em Dimash, a extensão vocal não serve para deslumbrar; serve para alargar o território narrativo. Cada grave, cada agudo extremo, cada transição abrupta de registo corresponde a uma necessidade dramática.

    Essa relação consciente com a técnica revela algo mais profundo: humildade. Dimash canta como alguém que sabe que a voz não lhe pertence inteiramente. É algo que se trabalha, que se respeita, que se pode perder se for usada com leviandade.

    As músicas como declaração artística

    A lista poderia ser interminável mas existe algumas músicas e atuações que marcam sua carreira.

    SOS marca o momento fundador: a revelação de um alcance vocal quase inacreditável, já articulado como narrativa. Stranger aprofunda essa lógica, usando a técnica como discurso e identidade fragmentada.

    Em Ikanaide, Dimash mostra contenção e respeito pelo silêncio. Já Ogni Pietra, no contexto olímpico, revela solenidade e sentido de responsabilidade: a voz não se impõe, serve.

    The Story of One Sky é talvez o momento mais revelador. Um projecto profundamente investido por Dimash, surgido pouco depois de um conflito armado entre países vizinhos. Aqui, o talento extraordinário é colocado deliberadamente ao serviço de algo maior do que o intérprete. Não há clímax fácil, mas contenção, pertença e consciência histórica.

    Ver playlist Youtube abaixo.

    Um espelho necessário: Sohyang

    A comparação com Sohyang ajuda a clarificar o lugar de Dimash. Em Sohyang sentimos convicção absoluta; em Dimash, humildade consciente. Um canta como quem se oferece. O outro canta como quem atravessa limites sabendo que eles não lhe pertencem.

    Para além da classificação

    Dimash é difícil de classificar porque não cabe nas categorias habituais. Não é apenas um prodígio vocal ou um fenómeno de crossover. É alguém que trata a voz como campo de exploração artística, sem perder o vínculo emocional nem a consciência do contexto.

    No fim, o que fica não é apenas a memória de notas impossíveis, mas a sensação de ter assistido a alguém que usa tudo o que tem — técnica, corpo e emoção — não para se colocar acima da música, mas ao serviço dela.

  • Quando a História deixa de ser memória e passa a ser método

    Há comparações históricas que são fáceis — e por isso mesmo perigosas. Chamar “nazis” a governos contemporâneos pode soar moralmente satisfatório, mas raramente é intelectualmente rigoroso. Ao mesmo tempo, há silêncios que se tornam cúmplices quando a História começa a repetir padrões que julgávamos definitivamente ultrapassados.

    O que se passa hoje em Gaza coloca-nos precisamente nesse ponto de tensão: entre a analogia abusiva e a recusa em reconhecer sinais que a História conhece demasiado bem.

    A normalização da morte em massa

    A morte de dezenas de milhares de civis palestinianos, incluindo um número esmagador de crianças, deixou há muito de ser um acidente trágico para se tornar um dado estrutural da guerra. Quando a destruição sistemática de bairros inteiros, hospitais, universidades e infra-estruturas básicas é enquadrada como “inevitável” ou “necessária”, entramos num território moral onde a vida humana perde valor político.

    Este não é um território exclusivo de um regime ou de uma ideologia. É um território histórico. A Europa do século XX aprendeu — à custa de milhões de mortos — que a normalização da morte em massa começa quase sempre com a sua justificação racional.

    Crimes de guerra como instrumento político

    O cerco prolongado a Gaza, a punição colectiva de uma população inteira e a destruição deliberada das condições mínimas de sobrevivência violam princípios elementares do direito internacional humanitário. Não se trata de opinião: trata-se de normas consagradas após a Segunda Guerra Mundial precisamente para impedir que a razão de Estado se sobreponha à dignidade humana.

    Quando essas normas são suspensas na prática, mesmo que não formalmente, o que está em causa não é apenas a legalidade de uma operação militar, mas a erosão do próprio conceito de limite moral.

    A deslocação forçada como “solução”

    É neste contexto que o artigo do Público, assinado por António Rodrigues, ganha uma relevância particular. Ao revelar que Israel e os Estados Unidos sondaram a possibilidade de transferir palestinianos da Faixa de Gaza para a Somalilândia — incluindo estudos de custos e cenários estratégicos — o texto expõe uma lógica profundamente inquietante: a de tratar uma população civil como um problema logístico a deslocar

    A História conhece bem este tipo de raciocínio. A ideia de resolver conflitos políticos através da remoção física de populações não nasceu no Médio Oriente nem no século XXI. Foi usada, testada e, mais tarde, julgada como crime. Não por falhar logisticamente, mas por falhar moralmente.

    Não é necessário acusar Israel de ser um regime nazi para reconhecer que esta lógica se aproxima perigosamente de soluções que a Europa do século XX aprendeu a temer.

    Comparar mecanismos, não regimes

    Importa ser claro: comparar práticas históricas não é equiparar regimes. Israel não é a Alemanha nazi, nem o conflito israelo-palestiniano se reduz a uma repetição mecânica do passado. Mas isso não invalida que certos mecanismos — desumanização, burocratização da violência, deslocação forçada, normalização da morte em massa — reapareçam sempre que o poder deixa de reconhecer limites.

    Hannah Arendt mostrou como os maiores crimes da História não exigiram monstros, mas sistemas que tornaram o impensável administrativamente normal. Essa lição não pertence ao passado. É um aviso permanente.

    A memória como responsabilidade

    Há um desconforto particular — quase trágico — no facto de estas práticas serem hoje associadas a um Estado fundado na sequência do Holocausto. Mas a memória histórica não é um escudo moral automático. O “nunca mais” não funciona como certificado de imunidade ética. Funciona como exigência.

    Criticar as políticas do governo israelita, denunciar crimes de guerra e recusar a deslocação forçada de palestinianos não é negar o direito de Israel existir, nem relativizar o Holocausto. Pelo contrário: é levar a sério a lição mais profunda da História europeia — a de que nenhum povo, nenhuma democracia, nenhuma memória está imune à tentação de desumanizar o outro.

    Reconhecer antes que seja tarde

    O perigo não está nas comparações fáceis, mas na incapacidade de reconhecer padrões enquanto ainda há tempo. Quando a violência extrema se torna linguagem técnica, quando populações inteiras são reduzidas a números ou obstáculos, quando a expulsão é apresentada como solução pragmática, a História deixa de ser memória e passa a ser método.

    É nesse momento que o dever crítico se impõe — não para acusar por reflexo, mas para alertar por responsabilidade.

    Créditos

    Imagem de Mohammed Ibrahim via Unsplash

  • A social-democracia que nunca foi: partidos, derivações e o esvaziamento do centro em Portugal

    Portugal gosta de se pensar como um país de tradição social-democrata. O nome de um dos seus maiores partidos parece confirmá-lo, e o discurso do outro reforça essa ideia. No entanto, uma leitura histórica menos complacente revela outra realidade: Portugal nunca consolidou uma social-democracia reformista e estrutural à maneira do Norte da Europa. Teve, isso sim, partidos amplos que ocuparam fragmentos desse espaço — e que, ao longo do tempo, se desviaram em direções opostas, contribuindo para o esvaziamento progressivo do centro político.

    Uma social-democracia sem casa

    Ao contrário do que aconteceu nos países nórdicos ou na Alemanha do pós-guerra, a social-democracia portuguesa nunca assentou num compromisso social estável entre capital, trabalho e Estado. A industrialização tardia, a debilidade de um sindicalismo reformista e a herança ideológica do pós-25 de Abril produziram um modelo em que o Estado social foi mais compensatório do que preventivo, e mais redistributivo do que estruturante.

    Neste contexto, a social-democracia existiu mais como linguagem política do que como arquitetura institucional. O sistema partidário estabilizou-se não através da consolidação de um modelo social-democrata, mas através de partidos amplos capazes de integrar sensibilidades diversas.

    Duas faces imperfeitas

    O Partido Social Democrata foi, desde cedo, um partido de espectro alargado. Funcionou como casa da direita democrática, integrando liberais económicos, conservadores institucionais e eleitores de centro. Mais do que um partido ideológico, foi um partido de governação, orientado para a estabilidade e a democracia liberal.

    O Partido Socialista, por seu lado, desempenhou um papel decisivo de contenção à esquerda. Absorveu sensibilidades de matriz marxista num período de grande instabilidade política e ideológica, normalizando-as dentro do sistema democrático. À medida que o partido se institucionalizou, parte dessas correntes acabaria por se afastar, mas o PS nunca rompeu totalmente com a ambiguidade entre social-democracia e socialismo democrático.

    O momento Sá Carneiro

    Paradoxalmente, o momento em que Portugal esteve mais próximo de uma social-democracia europeia real ocorreu no PSD, sob a liderança de Francisco Sá Carneiro. A rutura clara com o marxismo, a defesa intransigente da democracia liberal e a aceitação simultânea do Estado social e da economia de mercado aproximaram-no mais da tradição social-democrata alemã ou escandinava do que o PS da época.

    Sá Carneiro compreendeu que sem democracia liberal não há justiça social sustentável, e que sem economia de mercado não há Estado social duradouro. A sua morte interrompeu um projeto que nunca chegou a institucionalizar-se. O que se seguiu foi gestão do sistema, não construção de um novo compromisso social.

    O esvaziamento progressivo do centro

    O centro político português não colapsou de forma abrupta; foi-se esvaziando progressivamente, empurrado em direções opostas por ciclos governativos distintos.

    Com Pedro Passos Coelho, o PSD assumiu um liberalismo de crise. A austeridade e a disciplina orçamental foram apresentadas como imperativos estruturais. Houve coerência, mas também estreitamento: para muitos eleitores de centro, o compromisso social desapareceu, substituído por uma lógica de ajustamento permanente.

    Com António Costa, o PS fez o movimento inverso. Apostou na redistribuição e na estabilidade política, governando com apoio da esquerda radical. Mas fê-lo sem reforma estrutural do Estado nem da economia. O centro tornou-se aritmético, não programático: estabilidade sem transformação.

    Em ambos os casos, o centro deixou de ser um lugar de síntese e passou a ser um ponto de deslocação. Surgiram eleitorados órfãos e uma crescente dificuldade em oferecer um projeto que conjugasse crescimento, coesão e liberdade.

    Uma nota necessária: a comparação nórdica

    Como já escrevi a propósito da diferença entre a Suécia e Portugal, a social-democracia não falhou entre nós por excesso de ambição, mas por falta de base estrutural. Enquanto nos países nórdicos se construiu um compromisso duradouro entre sindicatos reformistas, empregadores e Estado — sustentado por elevados níveis de confiança institucional e por uma economia produtiva —, em Portugal esse compromisso nunca se estabilizou.

    É esse vazio histórico, mais profundo do que as opções de qualquer governo em particular, que ajuda a explicar o esvaziamento do centro político. E é também nesse contexto que devem ser lidas as propostas atuais de flexibilização laboral: não como ponto de partida para uma social-democracia moderna, mas como tentativa de correção tardia de um modelo económico que nunca foi verdadeiramente reformado.

    O presente: liberalização sem reforma

    A proposta de reforma da lei do trabalho surge num contexto de economia de baixos salários, fraca produtividade e elevado peso de setores intensivos em mão-de-obra pouco qualificada. Tornar o mercado de trabalho mais flexível pode ser uma discussão legítima. O problema é fazê-lo sem reformar previamente a economia que o sustenta.

    Nos países nórdicos, a flexibilidade existe porque há flexicurity: proteção no desemprego, formação contínua, negociação coletiva forte e salários médios elevados. Em Portugal, corre-se o risco de fazer o inverso — flexibilizar primeiro e reformar depois — aprofundando assimetrias e transferindo riscos para quem já os suporta.

    Conclusão: liberalização ou compromisso?

    Portugal caminhará, por necessidade, para uma maior liberalização económica. A questão é se essa liberalização será acompanhada por um novo compromisso social ou se aprofundará as fragilidades existentes.

    Há espaço para uma social-democracia moderna em Portugal, mas não para a versão assistencial e compensatória que marcou grande parte da nossa história recente. Sem reforma económica, sem Estado eficiente e sem salários dignos, a flexibilidade laboral não cria dinamismo — cria discrepâncias.

    Sem um projeto de síntese que recupere o melhor da social-democracia europeia, o centro político continuará a esvaziar-se. E quando o centro desaparece, o que sobra raramente é estabilidade.

  • O panóptico eleitoral: transparência, suspeita e o novo populismo respeitável

    Há momentos em que a política deixa de ser apenas disputa de projectos e passa a ser um regime de vigilância. Não uma vigilância institucional — regulada, proporcional, com critérios — mas uma vigilância difusa, moral, permanente. As recentes eleições presidenciais portuguesas parecem caminhar perigosamente nesse sentido.

    O debate em torno das chamadas carteiras de clientes dos candidatos é sintomático. Apresenta-se como defesa do interesse nacional, mas funciona muitas vezes como outra coisa: um atalho emocional, eficaz mediaticamente, pobre democraticamente.

    Da transparência ao panóptico

    A transparência é um valor democrático essencial. Sem ela, o poder degrada-se. Mas quando a transparência deixa de ser um meio e passa a ser uma condição permanente de inocência, algo se desloca. A política entra numa lógica próxima do panóptico: todos visíveis, o tempo todo, sob a presunção de que a suspeita antecede o facto.

    Neste regime, o silêncio deixa de ser um direito. A omissão transforma-se em indício. A defesa torna-se preventiva. Não é preciso prova — basta a possibilidade de culpa.

    Como escreveu Maria Castello Branco, a política democrática começa a habituar-se a um espaço público “inundado por uma claridade contínua”, onde a escolha deixa de ser verdadeiramente livre. O problema não é o escrutínio. É a sua substituição por uma vigilância indiferente à distinção entre erro, conflito de interesses ou simples existência profissional.

    Comparações falsas, julgamentos fáceis

    É neste enquadramento que surgem comparações apressadas, como a que opõe Luís Marques Mendes a Luís Montenegro.

    À superfície, ambos “têm empresas”. Mas a semelhança termina aí. Montenegro manteve a sua actividade enquanto exercia funções políticas relevantes. Marques Mendes encerrou a sua antes de formalizar a candidatura presidencial. Num caso houve escrutínio institucional e consequências políticas. No outro, houve denúncia anónima arquivada e julgamento em praça pública.

    Tratar estes casos como equivalentes não é rigor analítico — é nivelamento moral, uma técnica clássica do populismo: dissolver diferenças reais para produzir suspeita generalizada.

    O populismo de gravata

    Este fenómeno não nasce apenas nos extremos mais ruidosos. Manifesta-se também em versões respeitáveis: editoriais insinuantes, debates televisivos que confundem perguntas com acusações, exigências de exposição total como se a vida profissional fosse, por definição, uma falha ética.

    É um populismo de gravata. Não grita, não insulta, mas corrói lentamente. Alimenta a ideia de que a política é estruturalmente suja, de que o poder é sempre corrupto, de que ninguém merece confiança. Uma visão simples, emocionalmente eficaz — e profundamente desmobilizadora.

    O paradoxo é cruel: exige-se transparência absoluta, mas produz-se uma política mais cautelosa, mais defensiva, mais silenciosa. Uma política onde o risco é punido e a coragem se transforma em ameaça.

    O que está realmente em causa

    Importa recordar algo essencial: o Presidente da República não governa, não adjudica, não gere contratos. O seu poder é sobretudo institucional, simbólico e moderador. Importar para Belém uma lógica de suspeição própria do Executivo — e mesmo aí discutível — é um erro de categoria.

    A democracia suporta o erro. Aprende com ele. O que dificilmente suporta é a suspeita permanente, essa erosão lenta da confiança que transforma a política num exercício contínuo de justificação defensiva.

    Quando a suspeita se torna método

    Nada disto acontece no vazio. A normalização da suspeita permanente, da denúncia como ponto de partida e da política como espaço estruturalmente contaminado não é apenas um efeito colateral do escrutínio moderno. É também um terreno fértil para o crescimento do discurso anti-político.

    Partidos como o CHEGA prosperam precisamente nesta atmosfera: quanto mais indistinta for a fronteira entre falha, conflito de interesses e mera existência pública, mais fácil se torna sustentar a ideia de que “são todos iguais”. O populismo não precisa de provar — precisa apenas de desacreditar.

    Há aqui um paradoxo raramente assumido: ao empurrar a política democrática para um regime de vigilância moral permanente, o espaço público não se torna mais exigente — torna-se mais cínico. E o cinismo, ao contrário do que muitas vezes se pensa, não fortalece a cidadania; enfraquece-a, abrindo espaço aos que prometem pureza através da exclusão, da simplificação ou da força.

    A defesa da democracia não passa por reduzir a política a um concurso de inocência, mas por reconstruir critérios, distinguir responsabilidades e aceitar que governar — e representar — implica sempre risco, imperfeição e escolha.

    Quando tudo é suspeito, nada é verdadeiramente escrutinado.
    E quando a política perde essa distinção essencial, perde também a sua razão de existir.

  • O fascismo domesticado: sobre o regresso do lobo, agora de casaco às riscas
    Não sei se é o mundo que mudou ou se fomos nós que nos habituámos a sons de sirene. Durante décadas, o fascismo era uma coisa monumental e óbvia: tanques, estátuas, hinos, o líder com voz de trovão e punho no ar. Era fácil reconhecê-lo. Era quase confortável na sua brutalidade explícita — uma espécie de mal cinematográfico, o inimigo público número um.

    O problema é que o fascismo percebeu que ser fascista se tornou má ideia de marketing. A história não foi simpática com ele. Então tratou de reaparecer — mas domesticado, sorridente, televisivo. Como um lobo com casaco às riscas e perfume barato.

    Hoje, a nova extrema-direita apresenta-se como aquilo que a democracia promete: “o povo”. Não quer derrubar o sistema — quer habitá-lo, reformá-lo, temperá-lo. Quer limpar-lhe as bordas, aparar os excessos. “A liberdade está em risco.” “Perdemos a identidade.” “A criminalidade está descontrolada.” “Os estrangeiros levam-nos tudo.” É sempre o mesmo refrão: há um inimigo, há uma decadência, e há um salvador — nacional, puro, imaculado.

    A velha Europa construiu barreiras antifascistas feitas de mármore constitucional. Proibiu símbolos, milícias, discursos raciais. Mas agora, os partidos da nova direita radical já não usam símbolos. Não falam de “raça”, falam de “cultura”. Não defendem a violência, defendem “lei e ordem”. Não querem um líder supremo, querem “referendos” e “vontade popular”. A linguagem mudou — o conteúdo nem tanto.


    O novo inimigo: não o tanque, mas a infiltração

    O antifascismo antigo era binário: ou fascista ou democrata. Hoje, a fronteira passeia-se no meio de nós. Esta extrema-direita não invade — infiltra-se. Não conquista o poder em marcha militar; vence-o a caminho de urna. Entra no parlamento como quem entra numa casa alheia: devagar, cordial, e começa a mover os móveis com um sorriso.

    Steven Levitsky e Daniel Ziblatt avisam-nos de uma coisa fundamental: as democracias não morrem necessariamente de golpe militar; morrem por erosão institucional3. A captura gradual dos tribunais, a intimidação da imprensa, a normalização da crueldade política, as leis que reduzem liberdades sem nunca as extinguirem de uma vez. Um livro sobre a morte lenta, e sobre a nossa incapacidade de a reconhecer enquanto acontece.

    O fascismo clássico dinamitava. A nova direita radical escava. A casa não cai — apodrece.


    Não lhes chamemos fascistas: agradecem

    É fácil — quase terapêutico — chamar-lhes fascistas. Dá-nos um eixo moral confortável, a certeza histórica de que “nós estamos certos” e “eles são monstros”. Só que o insulto é gasolina. Chamá-los “fascistas” é oferecer-lhes a narrativa que mais desejam: a de vítimas da elite cultural, do “politicamente correto”, dos jornalistas pagos, da academia marxista. Tudo o que lhes atiramos volta embrulhado em ressentimento e convertido em votos.

    Cas Mudde descreve esta metamorfose com simplicidade cirúrgica: a nova extrema-direita não pretende destruir a democracia — pretende remodelá-la a partir de dentro1. O seu ADN não é o totalitarismo clássico, mas um tripé tão eficaz quanto subtil: nativismo (o “nós” contra “eles”), autoritarismo (a ordem acima da liberdade) e populismo (o povo puro contra as elites corruptas)2.

    O fascismo do século XX era hierárquico e elitista. A nova extrema-direita é plebeia no discurso e aristocrática na prática: promete dar voz ao povo, mas governa para poucos.


    A erosão quotidiana

    O que hoje chamamos “regresso do fascismo” não chega com botas e capacetes. Chega em pacotes legislativos. Em tweets. Em programas televisivos com público. Em sondagens onde o medo é vencedor. Chega com a normalização do absurdo: o imigrante que nos rouba empregos, o professor que é inimigo da tradição, o ambientalista que quer destruir a economia. Chega com a redução da política a um ringue de insultos e humilhações.

    Roger Eatwell e Matthew Goodwin mostram como este tipo de discurso oferece algo muito poderoso: pertencimento4. A política como alívio emocional, como tribo identitária para quem se sente abandonado, humilhado ou invisível. A nova extrema-direita não resolve os problemas: oferece culpados. E isso basta.


    O antifascismo que envelheceu

    Quando se diz que “o antifascismo está desatualizado”, não é uma questão de lei — é uma questão de linguagem. As constituições procuram o fascismo do passado, enquanto os tribunais e partidos enfrentam o fascismo do presente. Procuram milícias e líderes carismáticos; encontram hashtags e influencers. O antifascismo procura bomba; a extrema-direita usa boomerang.

    A resposta não é proibir ideias — isso só as mitifica. A resposta é mais incómoda: defender a democracia liberal com obstinação. O pluralismo, os tribunais independentes, a dignidade humana como princípio inegociável. A coragem de viver com quem pensa diferente, sem fantasias de pureza cultural ou moral.

    Pippa Norris e Ronald Inglehart lembram-nos que parte deste fenómeno é reação cultural5. As sociedades mudaram demasiado depressa para muitos — e a extrema-direita conseguiu ser a única a oferecer-lhes narrativa. Se a esquerda não percebe, perde; se o centro ignora, implode.


    O que já perdemos sem perceber

    Não veremos a “marcha sobre Roma”. Já vimos, isso sim, a marcha sobre o algoritmo. Não veremos a tomada de um parlamento num clarim. Veremos a sua colonização em nome da “maioria silenciosa”. Não veremos campos de concentração; veremos campos retóricos onde a dignidade humana começa por ser exceção. Um direito é retirado, depois outro, e outro — sempre em nome da proteção.

    Ruth Wodak analisa isto com ironia fria: o medo tornou-se política pública7. O medo do estrangeiro, do multiculturalismo, do feminismo, do ecologismo, do que quer que seja que desafie a monotonia da existência nacional.

    O fascismo regressará sempre que estivermos demasiado distraídos para defender a liberdade. Não com botas de couro — com blazers e powerpoints.


    Notas de rodapé / Referências

    1. Cas Mudde – Populist Radical Right Parties in Europe (Cambridge University Press, 2007).
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    2. Cas Mudde – The Far Right Today (Polity Press, 2019).
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    3. Steven Levitsky & Daniel Ziblatt – How Democracies Die (Crown, 2018).
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    4. Roger Eatwell & Matthew Goodwin – National Populism: The Revolt Against Liberal Democracy (Pelican, 2018).
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    5. Pippa Norris & Ronald Inglehart – Cultural Backlash: Trump, Brexit, and Authoritarian Populism (Cambridge University Press, 2019).
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    6. Ruth Wodak – The Politics of Fear (Sage, 2015).
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  • Quando os jornais formavam leitores

    Do Expresso ao Independente, passando pela ABOLA e Diário de Noticias

    Houve um tempo em que os jornais não eram apenas veículos de informação. Eram instituições culturais. Para quem cresceu antes da internet — e nasceu, por exemplo, no início da década de 1970 — ler um jornal era um gesto formativo: aprendia‑se o país, aprendia‑se a pensar e, não menos importante, aprendia‑se a escrever.

    O jornal como escola invisível

    Num ecossistema mediático sem notificações, feeds ou timelines, o jornal era mediador do mundo. A autoridade vinha da escrita, do critério editorial e do tempo — tempo para apurar, para editar, para escolher palavras. Jornais como o Diário de Notícias e A BOLA funcionavam como verdadeiros embaixadores da língua portuguesa, chegando por vezes a superar muitos generalistas no cuidado estilístico e na clareza sintáctica.

    Ler um jornal era, também, um exercício de cidadania linguística. A língua não era utilitária; era um património partilhado.

    O Expresso: referência e centralidade

    Nesse contexto, o Expresso ocupava um lugar singular. Era o semanário que estruturava a semana política, o jornal que todos liam — ou diziam ler. A sua autoridade era silenciosa e transversal, atravessando partidos, elites e leitores comuns. Não precisava de afirmar a sua importância: ela era reconhecida.

    Ainda hoje o Expresso mantém peso, pluralismo e qualidade jornalística. Mas perdeu algo essencial: a centralidade incontestada que teve até aos anos 90. Não tanto por falhas próprias, mas porque o mundo mediático fragmentou‑se e porque perdeu o seu principal antagonista.

    O Independente: irreverência como contrapoder

    O Independente não era apenas um concorrente do Expresso. Era um contrapoder cultural. Introduziu irreverência, ironia e desconstrução num espaço dominado por solenidade institucional. Errava — por vezes errava muito — mas obrigava todos os outros a não se acomodarem.

    Para um leitor jovem, politizado e curioso, O Independente era oxigénio. Dava prazer, surpresa e desconforto. Onde o Expresso oferecia estrutura e contexto, O Independente oferecia fricção.

    Essa tensão elevava o debate público.

    O que se perdeu com o desaparecimento do antagonista

    Com o fim de O Independente, perdeu‑se mais do que um jornal. Perdeu‑se uma dialética. O Expresso ficou sem espelho crítico à mesma escala; o espaço público ficou mais previsível. Tentativas posteriores nunca conseguiram ocupar plenamente esse lugar — faltou risco, voz própria e independência real.

    Hoje há mais opinião, mais ruído e mais velocidade. Mas há menos tensão criativa, menos escrita durável e menos ambição cultural.

    Uma perda que não é nostalgia

    Sentir esta perda não é saudosismo. É reconhecer que os jornais deixaram de cumprir uma função formativa essencial. Informam mais depressa, mas formam menos. Reagem mais, mas explicam menos. E tratam o leitor, muitas vezes, como consumidor de atenção, não como cidadão adulto.

    O Público ocupou parte do espaço deixado vago pelo Diário de Notícias — com enorme mérito — mas sem o peso histórico e simbólico que nunca poderia herdar. O problema não é a falta de qualidade; é a ausência de centralidade cultural.

    O jornalismo desportivo e a perda com a passagem a diário

    Há ainda uma dimensão que ajuda a compreender esta perda de densidade cultural: a transformação do jornalismo desportivo em produto diário. Durante décadas, jornais como A BOLA não eram apenas veículos de resultados e notícias — eram espaços de escrita cuidada, reflexão e até aprendizagem da língua portuguesa.

    Enquanto semanários (ou com uma cadência menos frenética), esses jornais beneficiavam de algo hoje raro: tempo. Tempo para apurar, para escrever melhor, para editar com rigor. O futebol não precisava de gerar “novidade” todos os dias; precisava apenas de ser bem contado.

    A passagem a diário alterou profundamente esse equilíbrio. A necessidade de preencher páginas quotidianas empurrou o jornalismo desportivo para:

    • o rumor permanente,
    • a sobreinterpretação de micro-acontecimentos,
    • a transformação da especulação em manchete.

    Nesse contexto, perdeu-se parte do cuidado linguístico, da ambição cultural e da distância crítica. A BOLA deixou de ser apenas um jornal sobre futebol que escrevia bem — e passou a competir num ecossistema dominado pela velocidade, pelo impacto e pela emoção imediata, terreno onde outros títulos sempre estiveram mais confortáveis.

    O resultado foi um empobrecimento não apenas informativo, mas também linguístico e cultural. O futebol continuou central na sociedade portuguesa, mas deixou, em grande medida, de ser um espaço onde se aprendia a ler e a escrever melhor.

    Conclusão

    O que se perdeu não foi apenas um modelo de negócio ou um hábito de leitura. Perdeu‑se a ideia de que o jornal podia ser uma escola invisível — de pensamento, de linguagem e de cidadania.

    Talvez por isso, hoje, essa ambição reapareça noutros lugares: ensaios, newsletters, blogues. Espaços mais lentos, mais exigentes, mais conscientes de que escrever bem continua a importar.

    Porque, em última análise, informar é necessário. Mas formar continua a ser indispensável.