Quando a equidistância se torna desonestidade

As reacções às eleições presidenciais deste fim de semana trouxeram de volta um velho vício da política portuguesa: a falsa simetria. Ao comentar os resultados, Miguel Morgado afirmou que António José Seguro e André Ventura “estão bem um para o outro”, ao mesmo tempo que validou a opção de Luís Montenegro de não tomar posição.

À primeira vista, trata-se apenas de um comentário político. Mas, na realidade, estamos perante algo mais profundo: uma escolha moral travestida de neutralidade. Porque não estamos a falar de dois projectos equivalentes, nem de dois riscos simétricos para a democracia.


2015 como ferida aberta

Parte da direita portuguesa — e Miguel Morgado é um dos seus intérpretes mais lúcidos — nunca fez verdadeiramente as pazes com 2015. A Geringonça não foi apenas uma alternância governativa; foi lida como uma espécie de erro histórico, quase moral, do país. A partir daí, instalou-se uma narrativa persistente: o PS passou a ser tratado como “socialista”, o centro como decadente, e qualquer compromisso como sinal de fraqueza.

O problema é que esta leitura, quando se cristaliza, deixa de ser análise e transforma-se em ressentimento político. E o ressentimento tem um efeito corrosivo: aplana diferenças que importam.


A falsa equivalência

Colocar António José Seguro e André Ventura no mesmo plano não é prudência nem ironia esclarecida. É falseamento político.

Seguro representa o centro democrático português: discutível, criticável, limitado — mas plenamente inserido no quadro constitucional e institucional. Ventura representa um projecto radical de direita, cuja estratégia assenta na erosão da confiança nas instituições, na deslegitimação sistemática do sistema político e na normalização do conflito permanente.

Isto não é uma questão de gosto político. É uma distinção estrutural. Tratar ambos como “dois extremos” é abdicar do critério mais elementar da democracia liberal: a diferença entre adversário e ameaça.


A equidistância como táctica

A opção de Montenegro por não tomar posição pode ser compreendida em termos tácticos. Evita ruído, preserva margens de manobra, impede fracturas imediatas. A curto prazo, é confortável.

Mas a médio e longo prazo, a equidistância entre democracia liberal e política iliberal é perigosa. Porque normaliza o radicalismo e desvaloriza o centro. Porque sugere que tudo é equivalente. Porque transforma a política num jogo de espelhos onde deixam de existir fronteiras morais claras.

Quando essa equidistância é legitimada por intelectuais do campo democrático, o problema agrava-se. Não estamos a falar de ignorância. Estamos a falar de escolha consciente.


O contraponto que importa sublinhar

Seria injusto — e intelectualmente desonesto — tratar a direita portuguesa como um bloco homogéneo. Dentro do PSD e do espaço liberal-conservador há quem tenha assumido uma responsabilidade democrática clara, apoiando Seguro não por afinidade ideológica, mas por critério institucional.

Essas posições mostram algo essencial: a falsa simetria não é inevitável. Há quem perceba que, em determinados momentos, a democracia exige escolhas incómodas. E que não tomar posição é, em si, uma posição.

É precisamente por existirem essas vozes que a leitura de Morgado se torna mais problemática. Porque revela que não estamos perante um dilema insolúvel, mas perante uma opção discursiva.


Quando o rigor cede à demagogia

Miguel Morgado sabe — na senda de Pedro Passos Coelho — que o PS não é socialista no sentido doutrinário, e que o centro democrático não é equiparável ao radicalismo iliberal. Quando insiste nessas equivalências, não está a esclarecer o debate: está a colonizá-lo simbolicamente.

O efeito é conhecido: empurra o centro para a periferia moral e torna o extremismo mais aceitável. Não por virtude própria, mas por comparação adulterada.

A democracia não se defende colocando tudo no mesmo saco. Defende-se nomeando diferenças, assumindo critérios e pagando custos. Quando o centro democrático é tratado como extremo, o extremismo deixa de parecer perigoso. E quando isso acontece, a política deixa de ser escolha — passa a ser corrosão.


Uma deriva que contraria a própria génese do PSD

Há ainda um equívoco recorrente na forma como se fala do PSD: a ideia de que sempre foi apenas um partido onde “couberam várias direitas”. Isso é, no mínimo, incompleto. O PSD nasce como um partido de centro-esquerda, assumidamente social-democrata, e não como uma força conservadora disfarçada.

Francisco Sá Carneiro e outros fundadores do então PPD eram social-democratas convictos, marcados pela tradição europeia que conciliava economia de mercado com forte responsabilidade social, direitos laborais e um Estado activo. Essa social-democracia não era retórica: era identidade política.

Foi essa matriz que permitiu ao partido ocupar um lugar central na democracia portuguesa, funcionar como pilar do regime e garantir alternância sem ruptura. Mesmo quando o PSD se deslocou à direita em determinados ciclos, manteve quase sempre um lastro social-democrata que o distinguia tanto da direita conservadora clássica como de projectos mais radicais.

É por isso que a estratégia actual de equidistância entre centro democrático e radicalismo iliberal não representa apenas um cálculo táctico — representa uma ruptura com a própria história do partido. Ao abdicar de nomear claramente o que é democrático e o que é corrosivo, o PSD afasta-se da sua génese e do papel que desempenhou durante décadas como força de estabilização democrática.

O paradoxo é claro: ao tentar proteger o seu espaço à direita, o PSD arrisca perder aquilo que o tornou relevante — a sua identidade fundadora enquanto partido democrático, europeu e reformista.

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