António José Seguro e a vitória do centro democrático

A leitura apressada da segunda volta das presidenciais tenta reduzir o confronto a um eixo simples: esquerda contra direita. É uma grelha confortável, mediaticamente eficaz e politicamente útil para quem vive da polarização. Mas é também profundamente enganadora.

A eventual vitória de António José Seguro não representaria uma vitória da esquerda. Representaria, isso sim, uma vitória do centro democrático, num contexto de crescente tensão institucional e normalização do discurso populista.

Um perfil mais institucional do que ideológico

Seguro nunca se apresentou como um líder de mobilização ou como o porta-estandarte de uma agenda ideológica forte. O seu percurso político — marcado pela moderação, pela contenção discursiva e por uma certa aversão ao conflito — aponta noutra direcção: a de alguém que vê a política sobretudo como gestão institucional do equilíbrio democrático.

Não é um tribuno, não é um reformador radical, nem alguém que procure usar a Presidência como instrumento de combate partidário. Pelo contrário, o seu perfil aproxima-se de uma concepção republicana clássica do cargo: um Presidente regulador, não interventivo; árbitro, não jogador.

É precisamente isso que o torna aceitável — e até desejável — para sectores que não se revêem na esquerda, mas que também não se reconhecem na deriva populista.

Porque esta não é uma eleição esquerda vs direita

A tentativa de André Ventura de enquadrar a segunda volta como um embate ideológico clássico serve um propósito claro: mobilizar o voto identitário e forçar uma escolha emocional. Mas o verdadeiro confronto não é entre campos ideológicos tradicionais.

O que está em causa é outra coisa:

centro democrático versus populismo autoritário.

Seguro não ameaça a alternância, não questiona as regras do jogo democrático, não pretende transformar Belém numa plataforma de combate político permanente. A sua candidatura agrega votos de esquerda, centro e direita moderada, não por entusiasmo ideológico, mas por rejeição de um risco sistémico.

É por isso que a sua eventual vitória não reforça um campo político específico. Não desloca o centro de gravidade do sistema. Não legitima uma agenda transformadora. Funciona, antes, como uma resposta defensiva de um sistema democrático sob pressão.

Um paradoxo: Seguro pode ser benéfico para o PSD

Há aqui uma ironia política difícil de ignorar. Para o Partido Social Democrata, a eleição de Seguro pode ser menos um problema do que uma solução.

Desde logo, porque introduz um factor de estabilização institucional. Num contexto de governo minoritário e Parlamento fragmentado, um Presidente previsível e cooperante reduz o ruído político e alarga a margem de governação.

Depois, porque neutraliza o principal risco estratégico do PSD: a erosão pela direita. Um Presidente populista daria palco, legitimidade e centralidade institucional ao Chega. Um Presidente moderado retira-lhe esse espaço e dificulta a narrativa do “único contra o sistema”.

Por fim, porque reintroduz limites. Mesmo que o PSD se tenha afastado do centro no discurso e em algumas opções políticas, a presença de Seguro em Belém funciona como travão institucional a derivas que o próprio partido não controla totalmente.

Uma vitória que diz mais sobre o sistema do que sobre o vencedor

A eventual eleição de António José Seguro não seria uma afirmação ideológica. Seria um sinal de autopreservação do sistema democrático português. Um reflexo de uma sociedade que, confrontada com a radicalização, opta pela contenção; confrontada com o ruído, escolhe a previsibilidade.

Não é uma vitória entusiasmante. Não é transformadora. Mas talvez seja, no momento actual, uma vitória necessária.

Porque nem todas as vitórias políticas são avanços. Algumas são, simplesmente, formas de evitar o recuo.

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