Muito se tem dito que André Ventura representa o “anti-sistema”. A ideia tornou-se quase um reflexo automático no comentário político: quem grita contra o regime, quem hostiliza instituições, quem se apresenta como outsider, só pode estar fora do sistema. Mas esta leitura é superficial — e perigosamente errada.
Ventura não é anti-sistema.
É, pelo contrário, do mais sistema que há.
O seu percurso, a sua forma de comunicar e o seu modo de fazer política assentam integralmente nos mecanismos do próprio sistema que diz combater. Conhece-o bem, domina-o e utiliza-o como palco. Não pretende desmontá-lo, apenas ocupá-lo. A sua retórica apresenta-se como ruptura, mas o conteúdo é antigo: ideias velhas, autoritárias e punitivas, recicladas com linguagem de choque e embaladas como novidade.
O populismo vive desta ilusão: fazer passar repetição por ruptura, ressentimento por coragem, e barulho por mudança.
Neste sentido, Ventura não ameaça o sistema — é-lhe funcional. Canaliza frustração, simplifica conflitos, transforma política em espectáculo moral. O sistema sabe lidar com isso. Sempre soube.
A sátira como verdadeiro gesto anti-sistema
É aqui que a candidatura de Manuel João Vieira — o chamado Candidato Vieira — ganha uma importância que muitos insistem em desvalorizar.
Vieira não disputa o poder.
Não promete governar melhor.
Não se apresenta como salvador.
E é precisamente por isso que a sua candidatura é, paradoxalmente, a mais anti-sistema de todas.
Através da sátira, Vieira faz aquilo que o discurso político sério evita: expõe os mecanismos, revela o vazio, exagera a linguagem até ao ponto em que ela se denuncia a si própria. As promessas absurdas — Ferraris para todos, vinho a sair das torneiras — não são um delírio infantil. São um espelho. Um exagero que devolve ao eleitor a pergunta essencial: em que momento aceitámos isto como normal?
Enquanto o populismo pede fé, a sátira exige pensamento.
Protestar para mandar vs. protestar para mostrar
Aqui reside a diferença decisiva.
Ventura protesta para mandar.
Vieira protesta para mostrar.
Um quer substituir elites por outras, mantendo intacta a lógica de poder.
O outro não quer substituir ninguém — quer desnudar a encenação.
Por isso, quando se fala em “voto de protesto”, convém ser rigoroso. A abstenção é fuga. O populismo é captura. O cinismo é desistência. Mas o voto satírico, consciente, é outra coisa: é denúncia simbólica, é recusa em participar na mentira performativa que passou a ocupar o espaço político.
Num cargo como a Presidência da República — forte no símbolo, limitado na acção — esta recusa ganha ainda mais sentido. Se o presidente não governa, talvez seja legítimo perguntar se o que nos resta é apenas o ritual.
O sistema não teme quem o ocupa
O sistema teme quem o revela.
Talvez seja por isso que a candidatura de Vieira incomoda tanto alguns comentadores: porque não cabe nas categorias habituais. Não é irresponsável, nem ingénua. É desestabilizadora, no sentido mais raro e mais necessário do termo.
Não promete soluções.
Promove lucidez.
E num tempo em que a política se alimenta da ilusão e do medo, a lucidez é um acto profundamente subversivo.
Não é um palhaço a brincar à política —
é a política que já se tornou palhaçada,
e alguém decidiu ligar o espelho.


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