O liberalismo económico é frequentemente discutido como se fosse uma posição moral: ou se é a favor ou contra. Essa abordagem empobrece o debate. O liberalismo não é, em si mesmo, uma virtude nem um vício — é um instrumento político e económico. E como qualquer instrumento, pode ser eficaz em determinados contextos e profundamente problemático noutros.
A questão central não é se o liberalismo “funciona”. A questão é quando, durante quanto tempo e com que correções.
O liberalismo como resposta ao choque
Em contextos de crise profunda — colapso macroeconómico, défices descontrolados, inflação persistente, Estados bloqueados por rigidez administrativa — medidas de inspiração liberal têm frequentemente um efeito rápido.
A liberalização de mercados, a disciplina orçamental, a simplificação regulatória ou a abertura ao investimento externo podem:
- restaurar confiança,
- desbloquear atividade económica,
- corrigir distorções acumuladas,
- travar dinâmicas de colapso.
Nestes contextos, o liberalismo funciona como terapia de choque. Não porque seja socialmente neutro, mas porque é rápido. Serve para estancar a crise quando outras opções já não produzem resultados.
Ignorar isto seria desonesto. Há momentos em que o problema principal não é a distribuição da riqueza, mas a ausência dela.
O erro recorrente: transformar exceção em regra
O problema começa quando aquilo que foi pensado como resposta conjuntural se transforma em modelo estrutural.
O liberalismo económico tende a ser menos perigoso pelo que faz no início e mais problemático pelo que recusa fazer depois. Quando medidas de emergência passam a ideologia permanente, surgem efeitos cumulativos difíceis de corrigir:
- enfraquecimento progressivo do Estado,
- desinvestimento em serviços públicos,
- aumento das desigualdades,
- fragilização da classe média,
- concentração territorial e social da riqueza.
O mercado é eficaz a gerar crescimento, mas não tem mecanismos próprios de coesão. Não organiza o território, não garante acesso universal, não protege quem fica estruturalmente para trás. Quando o Estado abdica desse papel em nome da eficiência, a sociedade começa a fragmentar-se.
Crescimento sem coesão: a lição irlandesa
A Irlanda é um exemplo particularmente esclarecedor. O país resolveu problemas reais: modernizou a economia, atraiu investimento, criou emprego, cresceu de forma sustentada. O sucesso económico é inegável.
Mas esse crescimento não foi acompanhado por uma política pública à altura, sobretudo no domínio da habitação e dos serviços sociais. O resultado é hoje visível e mensurável: aumento significativo de pessoas sem teto, exclusão habitacional da classe média, pressão crescente sobre serviços públicos e sinais claros de erosão da coesão social.
Durante algum tempo, estes sinais foram tratados como perceção ou exagero. Os dados vieram confirmar que não o eram. O crescimento económico não evitou — e em alguns casos agravou — a fratura social.
A Irlanda não falhou por crescer. Falhou por não ter corrigido a tempo os efeitos desse crescimento.
Liberalismo e tempo: a variável esquecida
Grande parte do debate ignora uma variável essencial: o tempo.
O liberalismo pode ser:
- eficaz no curto prazo,
- ambíguo no médio,
- desestruturante no longo prazo.
Países não podem viver permanentemente em modo de emergência. Quando políticas pensadas para corrigir crises passam a definir o normal, cria-se uma economia funcional mas uma sociedade instável. É nesse vazio que surgem ressentimento, polarização e desconfiança democrática.
O problema não é o choque inicial. É a ausência de uma fase seguinte: reconstrução do Estado, investimento em serviços públicos, políticas de redistribuição inteligentes e reforço da coesão social.
O que isto significa para países como Portugal
Para países como Portugal, a lição é clara. O liberalismo pode ser útil em momentos específicos — recuperação macroeconómica, desbloqueio de rigidezes, resposta a choques externos. Mas não substitui um projeto de sociedade.
Sem:
- um sistema de saúde robusto,
- uma escola pública forte,
- uma política de habitação ativa,
- um Estado capaz de planear e regular,
o crescimento torna-se frágil e socialmente corrosivo.
Equilibrar contas é necessário. Sustentar uma sociedade é mais exigente.
Instrumento, não dogma
O liberalismo económico não deve ser tratado como heresia nem como salvação. Deve ser tratado como aquilo que é: um instrumento.
Usado no contexto certo, durante o tempo certo, pode ser decisivo para recuperar países em crise. Transformado em modelo permanente, tende a gerar desequilíbrios que corroem a coesão social e, a prazo, o próprio consenso democrático.
A questão não é ser a favor ou contra o liberalismo.
A questão é saber quando o usar, quando o limitar e quando o corrigir.
Entre o choque e a coesão, há uma escolha política.
E essa escolha não pode ser eternamente adiada.
Do diagnóstico à resposta: governar o equilíbrio
Reconhecer os limites do liberalismo económico não implica rejeitá-lo. Implica, isso sim, recusar a ideia de que possa funcionar como modelo permanente sem correções. A resposta ao diagnóstico não está numa rutura ideológica, mas na capacidade política de ajustar continuamente o equilíbrio entre mercado e coesão social.
A social-democracia nasce precisamente dessa negociação. Assume que tanto o liberalismo como o marxismo contêm verdades inestimáveis: o primeiro identifica corretamente o valor da liberdade individual, da iniciativa e do dinamismo económico; o segundo expõe com clareza as desigualdades estruturais e as assimetrias de poder geradas pelo mercado. A solução não está na negação de um em favor do outro, mas num equilíbrio permanente entre ambos — não um equilíbrio estático, mas um processo contínuo de ajustamento.
Esse ajustamento exige escolhas concretas.
Desde logo, um Estado social forte, não residual. Saúde, educação e proteção social não podem ser tratadas como variáveis de correção orçamental, sobretudo em economias que crescem. Pelo contrário, são o principal mecanismo de estabilização social e democrática em contextos de mudança económica acelerada.
Em segundo lugar, uma política de habitação assumida como central. O mercado, por si só, não responde à pressão combinada de investimento global, crescimento urbano e mobilidade laboral. Onde o Estado abdica de intervir, a exclusão instala-se rapidamente, corroendo a coesão social mesmo em países economicamente bem-sucedidos.
A isto junta-se a necessidade de redistribuição inteligente: fiscalidade progressiva, combate à concentração excessiva e investimento público visível. Não para nivelar resultados, mas para preservar mobilidade social, confiança coletiva e legitimidade democrática.
Também o trabalho exige correções permanentes. Mercados dinâmicos não são incompatíveis com proteção social, mas a flexibilidade só é sustentável se não se transformar em precariedade estrutural. A defesa da classe média não é conservadorismo económico; é condição de estabilidade política.
Por fim, tudo isto pressupõe um Estado capaz. Nem mínimo nem hipertrofiado, mas competente, estratégico e avaliável. Um Estado fraco acaba capturado pelo mercado; um Estado rígido paralisa a sociedade. A social-democracia vive nessa tensão difícil — e é aí que se distingue.
Entre o choque e a coesão, a escolha não é ideológica, é política. Governar esse equilíbrio instável exige aceitar que não há fórmulas definitivas, apenas correções sucessivas. Quando esse trabalho é abandonado, o liberalismo transforma-se em dogma e a proteção em bloqueio. Quando é assumido, o crescimento deixa de ser um fim em si mesmo e passa a servir a sociedade.
Essa é, no essencial, a resposta ao diagnóstico.
Não a negação do liberalismo.
Mas a recusa de o deixar governar sozinho.


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