O Irão voltou às ruas. Mais uma vez, a faísca foi económica: inflação galopante, colapso do rial, salários incapazes de acompanhar o custo de vida. Mais uma vez, a resposta foi previsível: repressão, detenções em massa, mortos, apagões quase totais da Internet. E, como tantas vezes desde 1979, o que começou como protesto social rapidamente se transformou em contestação política frontal.
Nada disto é novo. O que é novo — ou, pelo menos, cada vez mais evidente — é o esgotamento estrutural da relação entre o regime e a sociedade iraniana.
Da crise económica à rejeição política
A economia iraniana vive há anos sob pressão extrema, resultado de sanções internacionais, má gestão interna e de um modelo profundamente capturado por interesses político-religiosos e militares. A inflação deixou de ser um indicador macroeconómico para se tornar uma experiência quotidiana de empobrecimento acelerado. Quando o preço dos alimentos e dos medicamentos dispara, a política deixa de ser abstracta.
Mas o padrão repete-se: a contestação económica não encontra canais institucionais de mediação. Não há mecanismos credíveis que permitam absorver o conflito social. E, quando isso acontece, a crítica deixa de ser dirigida às políticas e passa a ser dirigida ao próprio regime.
Os slogans ouvidos nas ruas já não pedem reformas. Pedem o fim do sistema. Em alguns casos, rejeitam não apenas a teocracia, mas qualquer forma de autoritarismo — sinal de uma sociedade que perdeu a fé não apenas nos governantes, mas no modelo de poder.
A repressão como método — e como corrosão
A resposta do Estado iraniano continua a assentar num guião conhecido: força bruta, controlo da informação, isolamento do país do exterior. O corte da Internet não é um detalhe técnico; é um instrumento político central. Impede a coordenação dos protestos, dificulta a circulação de imagens e protege o regime do escrutínio internacional.
Mas há aqui um paradoxo que se repete: cada vaga de repressão salva o regime no curto prazo e enfraquece-o no longo prazo. Ao esmagar protestos sucessivos, o poder não resolve o conflito — apenas o adia, acumulando ressentimento e deslegitimação.
É por isso que o Irão vive num ciclo quase permanente de contestação. O regime sobrevive, mas fá-lo à custa de se tornar cada vez mais estranho à sociedade que governa.
Uma clivagem geracional irreversível
Talvez o factor mais decisivo seja geracional. A maioria dos jovens iranianos nasceu muito depois da Revolução de 1979. Não viveu a queda do xá, nem o momento fundacional da República Islâmica. Cresceu, isso sim, sob sanções, vigilância moral, restrições sociais e ausência de perspectivas económicas.
Para esta geração, a teocracia já não é um projecto político — é um obstáculo. A religião, em si, não está necessariamente em causa; o que está em causa é a sua instrumentalização como sistema de poder fechado, incapaz de oferecer futuro, prosperidade ou liberdade mínima.
Quando um regime deixa de conseguir integrar as novas gerações, deixa também de conseguir renovar a sua legitimidade.
A dimensão feminista — e o desconforto no Ocidente
Há ainda uma dimensão incontornável nestes protestos que o debate internacional tende a tratar com cautela excessiva: a centralidade das mulheres. Desde 2022, e de forma ainda mais clara agora, são elas que desafiam directamente o coração simbólico da teocracia — o controlo do corpo, da aparência, da vida privada. Não se trata apenas de direitos civis; trata-se de autonomia existencial.
É por isso que alguns falam numa das mais significativas revoltas feministas contemporâneas. Não porque use a linguagem académica do feminismo ocidental, mas porque é vivida no terreno, sob risco real, contra um poder que se legitima precisamente em nome da “proteção” das mulheres. E é aqui que surge um desconforto visível em parte do feminismo ocidental: o caso iraniano obriga a confrontar a opressão quando ela não vem disfarçada de patriarcado liberal, mas de tradição, religião e soberania cultural.
Não houve silêncio absoluto — houve solidariedade, protestos, palavras. Mas houve também hesitação, ambiguidade, dificuldade em integrar esta luta em quadros ideológicos habituais. Apoiar plenamente as mulheres iranianas implica rejeitar tanto o paternalismo externo como o relativismo cultural. Implica aceitar que a libertação não é um conceito ocidental exportável, mas também não pode ser negada em nome da autenticidade cultural. As mulheres iranianas não pedem para ser salvas; pedem para não serem silenciadas.
Um regime que resiste, mas já não governa
A República Islâmica do Irão não está à beira de cair. Controla os aparelhos de segurança, domina os mecanismos de repressão e não enfrenta uma oposição organizada capaz de capitalizar o descontentamento popular.
Mas há algo que parece cada vez mais claro: o regime já não governa no sentido pleno do termo. Administra, reprime, sobrevive — mas não integra, não convence, não mobiliza.
Cada protesto esmagado deixa menos espaço para a reconciliação entre Estado e sociedade. Cada apagão informativo revela medo, não força. Cada jovem que sai à rua sabendo o risco que corre é um sinal de que a obediência deixou de ser automática.
O factor externo e o paradoxo da intervenção
A este quadro junta-se ainda um factor externo potencialmente decisivo: a retórica de intervenção vinda de Washington. As ameaças do presidente Donald Trump, surgidas após a intervenção americana na Venezuela, não enfraquecem automaticamente o regime iraniano — podem, pelo contrário, reforçá-lo. A história mostra que a pressão militar ou a promessa de “salvação externa” tende a reactivar reflexos nacionalistas e a oferecer às teocracias um argumento poderoso: o da defesa da soberania contra o inimigo estrangeiro.
Para um regime que já governa mais pelo medo do que pelo consentimento, essa narrativa é um recurso precioso. O paradoxo é claro: quanto mais o Irão é ameaçado de fora, mais fácil se torna para o poder justificar a repressão interna. Se a República Islâmica vier a mudar, dificilmente será por imposição externa; será porque, a prazo, já não consegue reconciliar repressão permanente com uma sociedade que deixou de aceitar o silêncio como destino.


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