O debate em torno da intervenção norte-americana na Venezuela cristalizou rapidamente em dois campos opostos, ambos convictos da sua superioridade moral e ambos, paradoxalmente, incompletos. De um lado, os que condenam a ação dos Estados Unidos em nome da soberania e do direito internacional, muitas vezes reproduzindo — conscientemente ou não — narrativas alinhadas com o regime venezuelano ou com a propaganda russa. Do outro, os que defendem a intervenção como imperativo moral, relativizando regras, processos e consequências em nome da libertação de um povo oprimido.
Ambas as leituras contêm elementos de verdade. Ambas falham por ausência de contrapeso.
A crítica à intervenção americana não é ilegítima. A ação foi unilateral, sem mandato internacional, contornando mecanismos institucionais internos nos próprios Estados Unidos e assumindo abertamente interesses económicos estratégicos. A normalização deste método enfraquece a ordem internacional baseada em regras e cria precedentes que outras potências — menos escrutinadas e menos constrangidas — podem explorar. Ignorar este risco é fechar os olhos ao mundo como ele é, não como gostaríamos que fosse.
Mas esta crítica transforma-se em cinismo quando reduz a tragédia venezuelana a um detalhe secundário. Defender a soberania como escudo absoluto, abstraindo fome, repressão, fraude eleitoral e exílio em massa, é inverter o sentido do direito internacional. A soberania existe para proteger sociedades, não regimes. Quando se torna argumento para a inércia, deixa de ser princípio e passa a ser álibi.
Do lado oposto, a defesa da intervenção como libertação moral incorre num erro simétrico. Reconhecer que a soberania não é absoluta não equivale a legitimar qualquer ação que a viole. A história recente mostra que a força externa pode derrubar líderes, mas raramente cria legitimidade política. No caso venezuelano, não há mudança de regime, não há alívio imediato da tragédia humanitária, não há abertura política visível. O aparelho repressivo mantém-se, agora sob nova tutela. A promessa de libertação não encontrou, até agora, confirmação nos factos.
Além disso, minimizar o peso dos interesses económicos é um erro de escala. Eles não são acessórios; são estruturantes. Quando a extração de recursos e a governação prolongada são assumidas como horizonte, a intervenção deixa de ser exceção humanitária e passa a ser exercício de poder. A pureza das intenções nunca foi critério suficiente no direito internacional — e não o pode ser agora.
O problema central deste debate não é escolher um lado, mas recusar a falsa alternativa que ele propõe. Não se trata de optar entre soberania abstrata e força libertadora. Trata-se de reconhecer que sem regras, a força corrói; sem política, a libertação é ilusória; sem contrapesos, a moral transforma-se em instrumento de poder.
A equidistância ideológica não é neutralidade moral. É exigência analítica. Significa recusar tanto a complacência com regimes autoritários quanto a absolvição automática de intervenções unilaterais. Significa olhar para os efeitos no terreno, para o tempo longo e para os precedentes criados — não apenas para as intenções declaradas ou para os alinhamentos ideológicos.
A Venezuela não precisa de ser instrumentalizada por nenhuma narrativa externa. Precisa de política, legitimidade e alívio humano real. Enquanto o debate continuar sequestrado por leituras sem contrapeso, continuará a falhar exatamente aquilo que diz defender.
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