A captura de Nicolás Maduro por forças norte-americanas, em janeiro de 2026, foi apresentada como uma operação cirúrgica contra um regime autoritário. Mas lida à luz dos próprios documentos estratégicos dos Estados Unidos — e da reação internacional — torna-se evidente que não estamos perante um episódio isolado.
Estamos perante a consolidação de um novo padrão de atuação das grandes potências: um manual onde capacidade, interesse e precedentes substituem soberania, regras e legitimidade internacional.
O precedente explícito
Segundo o New York Times, a intervenção na Venezuela foi justificada pela chamada Trump Corollary, inscrita na mais recente National Security Strategy, que afirma o direito dos Estados Unidos a “restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental”.
“The precedent he has set, which is that larger powers move in on smaller powers and then command their resources, is something you could easily imagine Xi Jinping or Vladimir Putin exploiting in Taiwan or Ukraine.”
— New York Times
Este ponto é crucial: precedentes estratégicos não são morais — são imitáveis. Ao normalizar a lógica de que potências maiores podem intervir em Estados menores para controlar recursos e governos, Washington redefine as regras para todos.
→ New York Times — Global Implications of the Venezuela Intervention
De Caracas a Copenhaga: o tabuleiro alarga-se
No mesmo momento em que a Venezuela era apresentada como caso resolvido, a ameaça norte-americana de anexar a Gronelândia desencadeava uma crise diplomática com a Dinamarca — um aliado da NATO.
A primeira-ministra dinamarquesa foi clara: um ataque dos EUA a um país da NATO significaria o colapso da aliança e da própria arquitetura de segurança europeia.
O New York Times sublinha o ponto mais perturbador: se os Estados Unidos reclamam uma esfera exclusiva no Hemisfério Ocidental, não esclarecem por que razão China e Rússia não poderiam fazer o mesmo noutras regiões.
→ New York Times — Trump, Greenland and the NATO Crisis
Cuba: pressão sistémica em vez de invasão
O Washington Post acrescenta uma terceira peça ao tabuleiro. Com a queda de Maduro, os EUA avançam para uma estratégia de estrangulamento energético e político de Cuba, explorando a dependência histórica da ilha do petróleo venezuelano.
Sem invasão direta, a lógica é clara: colapso económico, pressão social e eventual mudança de regime — não por via democrática, mas por exaustão estrutural.
→ Washington Post — Cuba Enters the Crosshairs
Conclusão: o novo manual
A Venezuela não é um desvio tático nem uma exceção circunstancial. É a aplicação prática de uma doutrina que abandona a linguagem das regras universais e assume, sem disfarce, a lógica das esferas de influência.
Quando o poder deixa de fingir que obedece a normas, a soberania torna-se condicional. E quando os precedentes substituem o direito internacional, a pergunta deixa de ser quem tem razão e passa a ser quem tem capacidade.
A Venezuela não é um desvio. É o novo manual.


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