O verdadeiro teste: Venezuela, soberania e o mundo que está a emergir

A queda de Nicolás Maduro abriu uma janela de esperança para muitos venezuelanos. Depois de anos de colapso económico, repressão política e emigração forçada, é compreensível que o fim de um regime autoritário seja vivido como um alívio. Mas a história ensina-nos que a queda de um homem não equivale, automaticamente, à libertação de um país. O verdadeiro teste começa sempre depois.

Neste momento, a grande interrogação não é apenas interna à Venezuela. É também externa. As declarações de Donald Trump — anunciando que os Estados Unidos irão governar o país durante uma “transição adequada” e que empresas norte-americanas assumirão o controlo das instalações petrolíferas — colocam uma questão central: quem decide o futuro da Venezuela, e em nome de quem?

Este ponto é decisivo porque ultrapassa largamente o caso venezuelano. Insere-se num contexto internacional marcado por uma instabilidade crescente e pela erosão de princípios que, durante décadas, foram apresentados como pilares da ordem global. A chamada “ordem internacional baseada em regras” volta a revelar-se frágil, seletiva e profundamente condicionada pelos interesses das grandes potências.

Os Estados Unidos invocam o direito internacional para condenar a invasão russa da Ucrânia — e com razão — mas ignoram-no quando intervêm diretamente noutros países, seja no Médio Oriente, seja agora na América Latina. Esta aplicação seletiva das regras não é nova, mas torna-se cada vez mais explícita. E cada exceção normalizada abre precedentes difíceis de fechar.

É neste quadro que a Venezuela deve ser analisada. Não como um caso isolado, mas como parte de um mundo em transição. Um mundo onde:

  • a Rússia normalizou a guerra de conquista na Europa;
  • a China observa atentamente os limites da resposta ocidental, com Taiwan como ponto crítico;
  • os Estados Unidos recuperam uma lógica de força e tutela direta, visível não apenas na Venezuela, mas também em discursos sobre a Gronelândia ou alianças tratadas como relações de subordinação.

Para muitos venezuelanos, esta leitura geopolítica pode parecer distante face à urgência do quotidiano. A esperança imediata é legítima. Mas, noutros pontos do globo, o sinal é lido de forma diferente. O que na Venezuela pode ser visto como libertação, em Taiwan é observado com apreensão. Porque a mensagem implícita é simples: quando as regras atrapalham, são contornadas.

Nada disto equivale a defender Maduro ou relativizar o caráter autoritário do regime que caiu. Pelo contrário. Reconhecer a legitimidade do desejo de mudança não obriga a aceitar sem reservas o método nem os termos dessa mudança. A soberania, apesar de imperfeita e frequentemente violada, continua a ser um princípio central da estabilidade internacional. Quando é substituída por tutelas externas indefinidas, o risco não desaparece — apenas muda de forma.

A Venezuela encontra-se, por isso, num ponto de bifurcação. Pode iniciar um processo real de reconstrução política, com protagonismo interno e instituições legítimas. Ou pode tornar-se mais um exemplo de transição controlada externamente, onde o fim de um regime não conduz necessariamente a uma democracia funcional, mas a uma nova dependência.

Não é sobre quem caiu.
É sobre o que vem a seguir.

E, num mundo cada vez mais instável, essa resposta interessa não apenas aos venezuelanos, mas a todos nós.

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